Jornal Médico Grande Público

Estágio na Ilha da Madeira – ir para fora cá dentro
DATA
13/11/2018 10:14:45
AUTOR
Liliana Ferreira Mota
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Estágio na Ilha da Madeira – ir para fora cá dentro

“Ir para fora cá dentro!...” foi mesmo assim que me senti ao longo de um mês de estágio na Ilha da Madeira.

Como interna de formação específica em Medicina Geral e Familiar (MGF) tive a oportunidade de realizar um curto estágio em cuidados de saúde primários (CSP). Escolhi a Madeira. Sabia que poderia haver algumas diferenças nos cuidados de saúde e estava curiosa. Porém, dizer “algumas diferenças” neste momento parece-me pouco.

Somos todos Portugal, somos todos portugueses, mas não somos todos Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Sim, o SNS apenas cobre Portugal Continental. Então o que tem a Madeira? A Madeira tem o Serviço Regional de Saúde (SRS) sob gestão do respetivo governo regional. Mas, o que inclui isto ao certo? Dois hospitais, dois centros especializados e quinze centros de saúde, que estão todos congregados numa única entidade administrativa, o SESARAM (Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira), que por sua vez se assemelha a uma ULS do “nosso” SNS. Confuso? Para mim foi. De repente estava em Portugal, mas nada que sabia sobre cuidados de saúde estava igual. A Madeira não tem o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), tem a Equipa Medicalizada de Intervenção Rápida (EMIR). É em tudo semelhante ao INEM, mas mais uma vez, num sistema regional.

E na prática nos CSP? Bastante diferente da realidade no continente. O SESARAM, que é também o nome do programa utilizado em vez do tão conhecido SClínico (também ele não perfeito), é talvez dos programas informáticos mais confusos que já observei. Não é que não seja intuitivo, mas não é prático. Se vos dissessem que a partir deste momento teriam de voltar a pedir todos os exames manualmente e que não os poderiam juntar na mesma folha, porque são pedidos diferentes, acreditavam? Se um médico de família (MF) tem cerca de 15 a 20 minutos por consulta programada e gasta metade do tempo a preencher papéis à mão e à procura dos que lhe faltam em cima da secretária, para que serve o programa informático que tem à frente? Assisti a isto diariamente. Médicos que lutavam contra o tempo, ou porque têm mais consultas que o horário disponível (porque continuam a ter os métodos antigos já aqui abandonados em que os doentes estão todos agendados para virem “de manhã”), ou porque têm um sistema que funciona a 50%, metade da consulta nele, metade da consulta sem ele.

Apesar da pilha de folhas que necessitam de ter na secretária para a consulta diária, os cuidados de saúde prosseguem. E aí reside o outro grande problema. Para seguir em frente, apesar de um sistema que os tenta atrasar, muitas vezes são necessárias as referenciações hospitalares. Como é possível que as mesmas estejam, em muitas especialidades, com mais de um ano de espera para uma primeira consulta? “É o normal” ou “Já estamos habituados”, ou até um “Entretanto já foi ao privado”, foram as palavras que mais ouvi na justificação deste problema. É desesperante observar que por mais que se tente trabalhar (e bem) nem sempre as coisas avançam como deseja o profissional de saúde.

Se se avança em cuidados de saúde em Portugal, não deveria isto ser disseminado também às nossas regiões autónomas? Se temos nós, “médicos continentais”, unidades de saúde familiar (USF), com uma equipa de saúde que se junta, reúne, conversa e trabalha em equipa, com organização de horários que permitam ao médico respirar e um sistema de saúde que permita termos as folhas dentro do computador e não fora dele, não estará na altura dos nossos colegas também o terem?

Trabalhar na Madeira? Sim, ótima qualidade de vida, ótimas pessoas e trabalhadores empenhados. Trabalhar com o SESARAM? Não.

Saúde Pública

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