Jornal Médico Grande Público

Medicina Geral e Familiar – uma escolha por vocação ou necessidade?
DATA
08/02/2019 10:07:19
AUTOR
Andreia Castro
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Medicina Geral e Familiar – uma escolha por vocação ou necessidade?

Numa altura em que se discute o futuro do médico de família, é importante abordarmos o que é na realidade o seu presente.

É sabido o crescente declínio de interesse dos médicos por especialidades generalistas, entre as quais a Medicina Geral e Familiar (MGF) levando à ocupação de algumas vagas pela condicionante que a nota representa à vaga pretendida. Resulta algumas vezes em profissionais frustrados, outras em profissionais resignados. Alguns desistem e uma pequena percentagem dá a oportunidade à especialidade e, conhecendo-a de perto, é cativado por ela.

Quando eu escolhi a especialidade foi pelo fascínio do que considero ser a nossa maior arte: a comunicação e a continuidade de cuidados. Foi onde senti que me encaixava. E no entanto eu não sabia o que era a MGF. Se foi o que eu sempre quis? Foi. Foi o que eu idealizei? Apenas uma parte. Não idealizamos nunca a parte difícil, e quando nos deparamos com essa parte, temos de saber como convertê-la em aprendizagem, emoções, atitudes.

Já vai longe o tempo em que éramos os famosos “médicos da caixa”. A MGF está a crescer, está em ascensão. Temos atualmente uma visão holística do utente e torna-se um desafio sem fim cada consulta, com a variedade e diversidade de utentes, patologias e problemas que exigem diferentes práticas e raciocínio. Vemos pessoas crescerem, famílias multiplicarem e, por vezes, diminuírem. Somos o profissional de excelência da relação interpessoal, o mestre da prevenção e especialista da complexidade.

A força que motiva a escolha de MGF deve vir do coração. A minha veio, assim como a de tantos outros colegas que conheço e que todos os dias trabalham para elevar a fasquia da nossa especialidade.

Nós somos muito mais que um centro de saúde, uma secretaria, uma cadeira e um esfingomanómetro. Somos muito mais que prescrições e atestados. Nós somos prevenção, cuidado, o primeiro contacto, compaixão, seguimento, proximidade, regaço. Partilhamos as alegrias, vivemos de perto a doença e o luto, criamos empatia, tornamo-nos ouvintes e confidentes, estamos perto nos momentos de dificuldade. Isto não é ser família? Porque nós somos família, somos o médico da família!

À enorme fatia que é o lado humano da especialidade, aliamos o máximo de conhecimento geral, o mais aprofundado que nos é possível, sobre todas as especialidades. Somos os que olham para cada área em separado e juntam tudo para pensar e abordar o doente como um todo. Temos o papel privilegiado e exigente de ser responsáveis pela orientação. Temos de pensar, ponderar e agir com tempo contado e com alguém à nossa frente que conta connosco.

E por ultimo, e não menos importante, somos o exemplo de trabalho em equipa. O conceito de equipa veio pôr fim à era do trabalho individualista, privilegiando o conceito de trabalho pelo mesmo bem comum.

Posto isto, será que todos nós podemos encaixar-nos nesta especialidade ou deveríamos ter “nascido para isto?”. Todos nós temos capacidade de nos deixar entrar na vida e casa das pessoas? Todos concordamos com o acúmulo de horas em prol do utente e da elevada acessibilidade que permitimos ao mesmo de recorrer a nós em horário livre?

Será que não devemos todos informar-nos do quão sui generis e particular é a especialidade antes de pensarmos se estamos preparados para o que temos de abdicar, encarar e resolver?

Numa época em que se tenta promover a relação médico-doente a património imaterial da humanidade, como não ambicionar uma maior exigência face aos médicos que melhor exploram esta relação?

O médico de família deve ser o exemplo de médico vocacionado para uma medicina centrada na pessoa, porque todos os dias é com a “pessoa” que se compromete, e não com um conjunto de conhecimentos, técnicas específicas ou grupo de patologias. Este compromisso vai para lá da cura de uma doença, do nascimento de uma criança, do fim de um tratamento, da resolução de um problema... Não tem fim, não tem prazo.

Saúde Pública

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