Jornal Médico

Dormir para quê?
DATA
28/11/2016 13:13:40
AUTOR
Dra. Teresa Paiva - Neurologista
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Dormir para quê?

Os riscos e as consequências de “brincar” com o sono são graves. Em todas as idades e em todos os continentes dormir de menos ou demais, aumentam o risco de obesidade, hipertensão arterial, diabetes tipo 2, acidentes, cancro, depressão, insónia, morte mais precoce.

As sociedades modificaram-se de forma substancial no último século. A descoberta da eletricidade, o desenvolvimento industrial e tecnológico, o controlo sobre a energia, a produção alimentar e as comunicações, as guerras mundiais e as muitas guerras localizadas mudaram comportamentos e crenças. sociedade passou a funcionar em contínuo, primeiro 24 horas por dia, e depois os sete dias da semana. Os prazeres estenderam-se pela noite; os afazeres também. É possível viajar de forma rápida e barata pelo mundo inteiro; é fácil comunicar a toda a hora para milhares de sítios e as redes sociais tornaram os outros, aparentemente, mais próximos. A esperança de vida aumentou várias décadas em poucos anos. Há alimentação com fartura e os grandes centros de distribuição exibem prateleiras infindáveis de alimentos à escolha. Os centros comerciais expõem produtos de luxo e produtos de “design” a baixo custo. A ideia de amor e de sexo perpetua-se em cartazes publicitários e a miragem felicidade está por todo o lado. Os humanos acharam-se invencíveis e sem limites e o sono passou a ser visto como um empecilho para o trabalho, a produtividade, os interesses económicos, os prazeres.

Por isso, desde o último século, dorme-se progressivamente menos, e em todas as idades.

Apesar da fartura há cada vez mais pobres e muitos milhões estão abaixo do limiar da pobreza; os divórcios e as famílias monoparentais são hoje comuns; as depressões aumentam, as insónias e as outras doenças do sono também; a felicidade é uma miragem que não se alcança e tudo ou muita coisa acontece ao contrário do previsto.

Os alertas para os riscos destes comportamentos são muitos, mas na sociedade global não falam suficientemente alto.

Os riscos e as consequências de “brincar” com o sono são graves. Em todas as idades e em todos os continentes dormir de menos ou demais, aumentam o risco de obesidade, hipertensão arterial, diabetes tipo 2, acidentes, cancro, depressão, insónia, morte mais precoce. Sobrepostos a todos estes riscos há os que afetam o cérebro, diminuindo a memória, a aprendizagem, a criatividade, a resolução de problemas e afetando as emoções e estabilidade emocional e aumentando o potencial risco de demência.

Porquê?

Porque no sono, o cérebro e o corpo, libertos da atenção ao exterior, focam a sua atenção sobre o si próprios e dialogam entre si, e essas “conversas” são essenciais para a saúde.

O cérebro cuida de si próprio, aumentando a intensidade do sono em áreas mais estimuladas enquanto acordado; fomentando a interligação rápida entre várias zonas cerebrais que passam a comunicar entre si de forma mais ampla; desligando circuitos desnecessários para que descansem; apagando informação irrelevante e reforçando aquela que importa e finalmente entrando de forma periódica em modo “sonho”.

O sonho estabiliza as emoções; como para aprender é preciso experimentar, o cérebro cria, nos sonhos, ambientes virtuais, onde sem risco, se pode discutir, fugir, lutar, conversar ou chorar; como é preciso inovar os sonhos versam de coisas impossíveis sem esquecer a raiz do real; como é necessário reforçar memórias os sonhos versam frequentemente com aspetos do dia a dia; como é preciso sarar feridas do passado e resolver conflitos os sonhos retomam esses assuntos, tantas vezes escondidos num tal “inconsciente”.

Isto quer dizer que o Sono e o Sonho nos preparam para sobreviver e é por isso que a maioria dos animais os usa de forma eficaz.

Durante o sono são produzidas, de forma regular e sistemática, as hormonas anabolizantes, ou seja, a hormona do crescimento, a prolactina e a testosterona, e são controladas as hormonas catabolizantes, com maior relevo para o cortisol e a hormona estimulante da tiroideia.

Tudo acontece de modo a que se cresça ou se reparem os tecidos dos diferentes órgãos (por exemplo, corrigir as rugas no tal sono de beleza!), e estejam reguladas funções reprodutoras, pois se não dormirmos as hormonas anabolizantes diminuem e as catabolizantes aumentam e os riscos para a saúde aparecem.

Por outro lado, o sono é essencial na regulação de energia; para a homeostase, ou seja, para corrigir desvios e regresso a um modo de funcionamento médio; para a regulação do controlo energético por via alimentar, num balanço entre a leptina e a orexina e grelina; para o controlo metabólico dos lípidos hidratos de carbono e proteínas; para o equilíbrio imunológico; para a regulação da divisão celular e por isso tanto o dormir pouco como o dormir fora de horas ou de forma irregular aumentam o risco de cancro em ambos os sexos.

Brincar com o sono e tratá-lo mal???

A grande ilusão da época informática, com o enorme risco de se vir a descobrir tarde demais quanto um bom sono nos fez falta.

QUAIS OS ALERTAS?

Dormir menos do que se precisa faz sempre mal, mas dormir demais ou estar muito tempo na cama também;

Ter grandes variações nos horários de dormir e de acordar, ou grandes oscilações entre a semana e o fim de semana fazem igualmente mal;

Deitar tarde demais, ficar a trabalhar pela noite fora ou fazer diretas com frequência é muito negativo;

O ressonar é um problema em qualquer idade e para ambos os sexos; l Parar de respirar a dormir é um alerta para apneia do sono;

Ter movimentos estranhos ou repetitivos, cair da cama, gritar a dormir, andar a dormir ou magoar-se a si próprio ou a outrem durante o sono exige que se saiba porquê e que se trate;

Os sonhos muito frequentes ou muito maus devem ser tratados;

Dormir pouco, acordar muitas vezes ou ter dificuldade em acordar de manhã ou sentir-se cansado: se surgem sistematicamente são sintomas de insónia, que deve ser tratada;

Adormecer com muita facilidade e de forma involuntária a ver TV, conversar, guiar, trabalhar, etc. são em princípio sinais de um problema no sono;

Não esqueça que o travesseiro é bom conselheiro e que um bom sono é um sonho atingível.

 

Referência: "Alma sã em corpo são" in Paiva T. Bom Sono, Boa Vida. Edição Oficina do Livro, Leya, 2015.

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