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Entrevista com Dr. Alexandre Castro Caldas, Neurologista
DATA
29/12/2016 18:21:43
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Entrevista com Dr. Alexandre Castro Caldas, Neurologista

Apneia do sono. Insónia. Sonambulismo. Síndrome das pernas inquietas. A lista de distúrbios do sono é longa e a população portuguesa não escapa a esta descrição. O Jornal Médico Grande Público falou com Alexandre Castro Caldas, neurologista e diretor do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, sobre tempos de sono e formas de detetar estes distúrbios.

Que tipos de distúrbios do sono existem?
Hoje em dia é possível fazer o registo eletrofisiológico daquilo que se passa durante o sono, permitindo apurar vários aspetos ao longo da noite. Primeiro, é através do eletroencefalograma (EEG) que verificamos as modificações temporais dos vários estádios do sono ao longo da noite. É evidente que não é fácil fazer esta leitura porque não podemos saber sempre o que está a acontecer no cérebro. É ainda certo que há variações, que vão havendo vários ciclos ao longo da noite, em que as pessoas transitam do sono profundo para o superficial e que não devem acordar durante o sono, excetuando pessoas em idades mais avançadas. A duração do sono vai diminuindo com o tempo e a idade e as estruturas também se alteram. Este é o aspeto normal do EEG. Depois são registados os movimentos do sono e do corpo em simultâneo, assim como a respiração. As medidas do sono têm vindo a mudar ao longo dos anos e têm sido criadas várias formas de o medir. Hoje são aceites alguns aspetos, como a latência, em que uma pessoa demora a adormecer, até que aparece o primeiro ciclo de sono – REM (Movimento Rápido dos Olhos). Existem, portanto, vários períodos de medições que nos dão a estrutura normal do sono para uma determinada idade.

Quais são as mais frequentes?
A insónia, em que a pessoa tem alguma dificuldade em adormecer com as preocupações do dia ou por outras razões. Mas uma das situações mais graves é a privação do sono imposta por um ritmo de vida que não é apropriado com consequências na qualidade de vida dessas pessoas. É responsável por muitos acidentes: as pessoas adormecem ao volante depois de noites mal dormidas, o que acontece até com profissionais dos transportes, que fazem uma infinidade de turnos. É também uma das patologias mais fáceis de tratar: é preciso pôr as pessoas a dormir as horas que precisam.

E o sonambulismo, como se caracteriza?
É uma situação mais rara e difícil de descrever. O cérebro entra num registo de atividade aparentemente orientado, mas sem consciência plena daquilo que está a acontecer: a pessoa faz coisas aparentemente normais, mas não está em plena consciência nem resulta de uma atividade consciente com uma base biológica distinta. Em geral, é o parceiro que chama a atenção que as noites são más ou é o próprio que tem múltiplos “acordares”. Geralmente, as pessoas com apneia do sono acordam em sobressalto, de repente, com falta de ar e percebem o que isso é. Queixam-se disso e da falta de concentração e com o registo eletrofisiológico do sono isso torna-se evidente. Outras vezes é o próprio que afirma que, durante a noite, fica sem respirar durante um bocado e que, de repente, faz uma respiração profunda e até ruidosa, e acorda a pessoa que está ao lado.

Quais as consequências do sonambulismo?
Em geral, não existem complicações no dia seguinte. O sonâmbulo tem períodos em que anda a passear de noite por casa, mas no dia seguinte não tem memória nenhuma daquilo que se passou e a noite, aparentemente, foi recuperadora, tal como seria numa outra circunstância.

Existe tratamento para este problema?
Podem-se tentar alguns fármacos, mas não há um remédio próprio para o sonambulismo. Quando não sabemos o que são as causas é difícil dizer qual a terapêutica mais indicada.

E a apneia do sono?
Corresponde a uma paragem da respiração durante um período superior ao que seria de esperar. Todos nós temos paragens da respiração pequenas, mas se ultrapassam determinado tempo já representam uma perturbação. Pode resultar da obstrução dos canais por onde passa o ar quando as pessoas estão a dormir. Podem ainda haver problemas relacionados com o próprio ritmo e isso pode originar períodos de paragem respiratória durante algum tempo, dado que o cérebro, em determinados períodos, trava movimentos também. Isto altera grandemente a estrutura do sono: tudo aquilo que está a acontecer durante a noite, ou que o cérebro devia estar a fazer enquanto a pessoa dorme, fica perturbado por essa interferência. Faz com que o dia seja mau, as pessoas comecem a ter problemas de memória, de concentração e atenção, dificuldades no trabalho, etc.. Hoje podemos corrigir isto com técnicas e aparelhos que ajudam à respiração durante a noite e as pessoas melhoram muitíssimo quando a noite passa a ser regularizada. Há movimentos mais simples, os conhecidos movimentos periódicos do sono, em que a pessoa dá pontapés, murros, atira o candeeiro ao chão, dá umas palmadas sem querer ao parceiro. É um sono agitado: os aspetos motores deviam ser desligados e não desligam e, por isso, a pessoa está a sonhar e a fazer movimentos que não devia.

Quais são as causas desta doença?
A apneia do sono tem a ver com a obesidade, com o facto de a pessoa fazer dietas bizarras ou beber álcool em demasia à noite, ou, quando são problemas obstrutivos no aparelho respiratório, ou ainda um erro de programação do sono. Não tem muito a ver com o que se passa durante o dia, isso não interfere na apneia do sono.

Um paciente com diagnóstico de apneia do sono pode desenvolver outro tipo de complicações? Quais? Existem estatísticas que comprovem?
O que está provado é que, do ponto de vista do dia, quando as pessoas têm apneia do sono ao longo de vários tempos (o diagnóstico é bastante tardio), o paciente já está a perder o rendimento do trabalho, tem problemas de memória/concentração, e faz o diagnóstico porque levanta a suspeita. Muitas vezes, a discrição do paciente é suficiente para pedir o registo do sono e descobre-se que é uma apneia, por causa das queixas que a pessoa tem durante o dia, e isso desaparece, melhora imenso com a terapêutica.

De que forma é que a utilização de aparelhos eletrónicos pode despoletar um aumento do número de casos de distúrbios do sono?
Não sei se foi feito algum estudo epidemiológico. De qualquer maneira, é muito difícil porque não temos registo do sono de todas as pessoas. É uma discussão sem fim. Está demonstrado que grande parte das crianças ou adolescentes têm muito mais privação do sono porque ficam até muito tarde a ver televisão ou a passear com os seus aparelhos eletrónicos, adormecem tarde e depois têm de acordar cedo para ir para as aulas e, portanto, dormem horas a menos.

Que mudanças de hábitos seriam necessárias, no caso dos mais jovens, para prevenir o aparecimento deste tipo de problemas?
O principal é que as pessoas estejam atentas e não façam grandes refeições à noite e, se têm de se levantar cedo, não se podem deitar tarde. Têm de pensar que, embora cada pessoa tenha o seu ritmo, nós sabemos mais ou menos, conforme a idade, aquilo que as pessoas precisam de dormir. É um bocado disparate dizer que uma pessoa de 80 anos deve dormir nove horas, até porque não precisa, quatro ou cinco horas são suficientes. É um sono repartido porque dormem uma sesta depois de almoço. Mas um jovem de 30 anos deve dormir sete ou oito horas por noite, e muitas pessoas em Portugal dormem cinco horas e às vezes menos. Há pessoas que acordam para ir para o trabalho a horas incríveis.

Em que medida é que o ritmo de vida das grandes cidades pode ser mais prejudicial do que um estilo de vida mais rural no desencadear este tipo de doenças?
É um pouco difícil de classificar.
O que se passa nas grandes cidades é que as pessoas que vivem fora da cidade lutam todos os dias. Vemos na televisão que, às sete da manhã, já há filas na ponte para vir para Lisboa: as pessoas têm de se levantar muitíssimo cedo. Quando voltam a casa ao fim do dia também têm uma fila enorme de automóveis e chegam tardíssimo a casa. Portanto, quase de certeza que essas pessoas têm privação do sono porque estão a dormir muito menos do que aquilo que precisam. Não é tanto o stress de viver na cidade: as pessoas podem organizar-se e ter uma vida muito tranquila na cidade na mesma.

Acompanha recorrentemente pessoas com distúrbios do sono? Quais são as principais queixas?
Sim, são queixas frequentes de uma clínica neurológica. As mais habituais são, de facto, a insónia e a falta de rendimento. As pessoas pensam que estão a perder competências e capacidades por outras razões e o exame diagnostica o defeito do sono através do registo do mesmo. Mas o mais frequente é, de facto, a insónia.

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