Jornal Médico

Quotidiano exigente versus poucas horas dormidas: um duelo de titãs
DATA
30/12/2016 10:43:50
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Jornal Médico
Quotidiano exigente versus poucas horas dormidas: um duelo de titãs

Cair nos braços de Morfeu era tudo o que desejavam. De olhos abertos e esgotados, um milhão de portugueses começam e acabam os seus dias com uma sensação de cansaço extrema. Abordámos três profissionais com quotidianos exigentes para perceber hábitos, rotinas e adaptações.

Não ter tempo para dormir ou fazê-lo em horários desfasados não faz muito pela qualidade do nosso sono (e da vida). Carlos Pedrosa, taxista de 60 anos, trabalha das 3H00 às 15H00. Dorme seis horas diárias e sente-se bem com este ritmo. “Não uso despertador, aquilo está mais ou menos calibrado. Não acordo cansado nem com problemas energia.”
E porque sabemos que a alimentação está intimamente ligada com o ato de dormir, também quisemos saber mais sobre estas rotinas. “Como sempre um iogurte quando saio de manhã, tomo um pequeno-almoço às 9H30-10H00, almoço por volta das 15H00. Quando chego a casa bebo leite ou como um iogurte e ainda uma peça de fruta antes de dormir. Tenho uma alimentação variada”, assegura o taxista.
É fumador e, embora reconheça que já cumpriu horários de trabalho mais alargados, não lhe sobra muito tempo para a atividade física. “Sei que as caminhadas são indispensáveis e que é importante para a saúde percorrer dois ou três quilómetros por dia, mas não faço. Chego a casa, como qualquer coisa subtil para não ficar atulhado. Sei que não posso abusar. Como o suficiente para viver e me alimentar. Raramente consumo álcool e bebo quatro a cinco cafés por dia”, sublinha o entrevistado.

Sono influencia rendimento escolar e profissional

Armando Borges é professor de Educação Visual do 5.º e 6.º anos na Escola Básica Roque Gameiro, na Amadora, e já não seria a primeira vez que via algum dos seus alunos dormitar ou chegar atrasado (com sono) às aulas. “Na maior parte das vezes, os pais são cuidadosos e os jovens (entre os nove e o 15 anos) estão deitados às 21H00-22H00 horas. Dou aulas às 8H15 e não tenho tido muitos problemas, salvo algumas exceções em que os alunos têm pais que trabalham de noite. O problema é que muito deles vêm de manhã com sono porque estão acordados até tarde porque os pais não têm cuidado ou não estão em casa: [os alunos] ficam na internet e a ver televisão até às duas da manhã, por exemplo: o rendimento escolar sofre com isso e, muitas vezes, vão para a escola sem tomar o pequeno-almoço porque não têm em casa e a escola é que garante o mesmo. Já houve casos de alunos quase a desmaiar com fome, com dores de cabeça, etc.”, descreve.
O professor de 64 anos conhece alguns casos de distúrbios do sono diagnosticados de entre os seus alunos, particularmente na Educação Especial, onde leciona Teatro e Expressão Dramática. “Alguns vão completamente apáticos para a aula, adormecem, há casos pontuais mesmo fora do Ensino Especial. Depois, vão à psicóloga e abrem-se, dizendo que não dormem o suficiente, que estão até às cinco da manhã na internet porque os pais não tomam conta nem veem: mandam-nos para o quarto e eles fazem o que querem”, afirma Armando.
Torna-se inevitável reconhecer a sobrecarga e atividades, curriculares e extracurriculares, que os alunos sentem. E os adultos verificam. “Noto isso principalmente nos alunos que têm ATL (Atividades de Tempos Livres) depois, explicações e atividades desportivas como natação. Acabam por chegar a casa às oito da noite. Jantam e alguns vão logo para a cama, o que também é um erro, ou os pais deixam-nos ficar acordados até à meia-noite, uma hora da manhã, e não dormem o suficiente e têm pouco tempo para brincar”, explica.
As bocas mal alimentadas andam de mãos dadas com a falta de interesse na escola e o “abandono quase na totalidade da parentalidade”. “[Os pais] preocupam-se mais,
no fim do ano, em procurar os professores e arranjar desculpas. Durante o ano não dão muita importância.
Há exceções, claro.”
Tempo para descansar, para brincar e para navegar na internet. E, claro, o papel ativo dos pais na verificação do material, da caderneta do aluno e dos trabalhos de casa. E na disciplina dos horários de deitar e levantar, tendo por base uma relação próxima e transparente com a escola e os professores.
Não é só para os alunos que o dia a dia é exigente. Armando Pedrosa admite dormir pouco: “Tenho imensos problemas e só com comprimidos é que durmo, em média, cinco horas por noite. Não descanso o suficiente, pelo trabalho e pela responsabilidade: além de dar aulas temos outras obrigações”.
João Dias da Cunha, tem 28 anos e é médico interno do Serviço de Infeciologia do Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca, na Amadora, e não escapa ao ritmo acelerado. Cumpre os conhecidos “bancos” no Serviço de Observações Gerais, nas urgências hospitalares, nesses dias dorme quatro horas durante o dia após a sair do trabalho. “Sempre dormi pouco, cinco ou seis horas. Quando estudava já era assim.
Nesta fase do internato, os bancos já são mais leves porque os doentes já foram triados e é como se estivessem internados. No início da especialidade, quando fazia a verificação dos “verdes” e dos “amarelos” ao balcão, chegava a atender 30 a 40 doentes por banco”, garante acrescentando que “em dias normais de enfermaria vejo cinco pacientes”.

Lista dos principais distúrbios do sono:

Apneia;
Sonambulismo;
Sexomnia;
Transtorno alimentar noturno;
Pesadelo;
Terror noturno;
Distúrbio do comportamento do sono REN;
Síndrome das pernas inquietas;
Narcolepsia;
Insónia;
Bruxismo;
Síndrome da cabeça explosiva;
Paralisia do sono;
Enurese noturna.

Sabe quantas horas deve dormir?

Recém-nascidos: 14 - 17 horas;
1 aos 5 anos: 10 - 14 horas;
Dos 6 aos 13 anos: 9 - 11 horas;
Dos 14 aos 17 anos: 8 - 9 horas;
Dos 18 aos 64: 7 - 9 horas;
Mais de 65: 7 - 8 horas.

Conselhos para dormir melhor:

Evite refeições pesadas, tomar café ou consumir muitos líquidos antes de dormir;
Tente manter as suas rotinas diárias: horário de deitar e de levantar;
Doseie adequadamente as alterações aos seus horários e rotinas;
Equilibre as atividades do seu dia a dia (o trabalho, o descanso, o tempo para dormir, etc.);
Afaste os aparelhos eletrónicos do local onde dorme;
Escolha um livro com um tema do seu agrado e procure ler algumas páginas antes de dormir;
Esteja atento aos sintomas e procure um especialista que o possa aconselhar do ponto de vista terapêutico.

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