Jornal Médico

“Há quem ache que dormir é uma perda de tempo”
DATA
30/12/2016 11:32:24
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“Há quem ache que dormir é uma perda de tempo”

Miguel Meira e Cruz, presidente da Associação Portuguesa de Cronobiologia e Medicina do Sono e Investigador no Laboratório de Função Autonómica do Grupo Cardiovascular da Universidade de Lisboa/Faculdade de Medicina de Lisboa.

“Deitar cedo e cedo erguer” é um provérbio português ao qual muitos pais recorreram ao longo de várias gerações com o objetivo de criar uma rotina nos mais novos. Estamo-nos a deitar cedo, a levantar tarde ou nem sequer dormimos?
Não estamos a deitar cedo, mas também não nos levantamos tarde. Com maior frequência do que o desejável, não dormimos o suficiente. E isto é grave na idade adulta, mas tem repercussões mais dramáticas nas idades pediátricas. Um estudo nacional que incidiu sobre adolescentes de várias regiões, divulgado em 2015, mostra que, aos 16 anos, a maior parte dos adolescentes se deita por volta das 23 horas. Acresce o facto de muitos se deitarem com o telemóvel ou o tablet ligado, mantendo o estado de vigília muito além do indicado, sobretudo neste grupo etário que ainda está em desenvolvimento. Para além de se deitarem tarde demais (o que é um erro, pois existem funções orgânicas reguladas pelo relógio biológico que têm um tempo certo para ocorrer, nomeadamente nas primeiras horas do sono noturno), acordam cedo para cumprir horários escolares. Isto determina um tempo de sono reduzido (se contarmos com o tempo que levam a adormecer com telemóveis, tablets e computadores), sete a oito horas, claramente insuficiente para estas idades. Nota-se no impacto que tem na função diurna (estado de alerta, atenção, memória, capacidade de aprendizagem, etc.). Embora existam outros estudos que, numa perspetiva global, demonstram a mesma tendência na população adulta, não devemos esquecer que, por exemplo, em idade pediátrica, o sistema nervoso central não atingiu ainda a sua maturidade plena. Se considerarmos a diversidade de funções reguladas por este sistema, que controla aspetos como a atenção e memória, assim como funções vitais (respiração, frequência cardíaca e pressão arterial), podemos compreender que, a médio e longo prazo, as consequências poderão ser de facto dramáticas.

Considera que os portugueses respeitam as suas necessidades de sono como parte integrante (e essencial) da sua saúde?
Não, de todo, o que é evidente em todos os escalões etários. O nosso mundo está cada vez mais a funcionar em modo de 24 horas on. O trabalho por turnos responde a questões de produtividade e rentabilidade, mas não favorece qualquer aspeto orgânico individual. Este é aliás um modelo de trabalho que gera imensos problemas, nomeadamente ao nível do sono. Mas o problema não se restringe a esta figura. Por necessidade financeira ou por outras vicissitudes, estamos mais tempo acordados do que deveríamos e há mesmo quem ache que dormir é uma perda de tempo, quando não imagina sequer o tempo que pode ganhar se dormir adequadamente. De facto, dormir adequadamente (em tempo, em forma e em espaço) tem inúmeros benefícios, largamente documentados para a saúde. Por outro lado, conhecemos bem as consequências da privação, fragmentação e restrição de sono.

Na sua opinião, estamos mais ou menos atentos aos distúrbios do sono? Porquê?
Estamos mais atentos e, sem dúvida, mais cientes dos mesmos. Nas últimas duas décadas, em Portugal, a ciência e a medicina do sono evoluíram muito e, apesar de insuficientes, existem hoje consultas de sono e centros distribuídos pelo país dedicados ao sono ou a cada uma das suas vertentes de forma individual (patologia respiratória, insónias, perturbações dos movimentos, etc.). Por outro lado, e permita-me a imodéstia, já que sou suspeito (porque fundei e presido à mesma), mas a Associação Portuguesa de Cronobiologia e Medicina do Sono, tem tido um papel fundamental na difusão do sono e da medicina do sono pelos portugueses. Temos feito um trabalho notável, muitas vezes sem apoios financeiros, que importam muito nestes desafios. A divulgação destinada ao público em geral tem sido uma prioridade constante desta equipa. Por outro lado, o desenvolvimento de cursos nesta área possibilita também que os clínicos e investigadores de outras disciplinas médicas consigam integrar a medicina do sono enquanto área fundamental de atuação, quer numa vertente profilática, quer numa perspetiva terapêutica muitas vezes coadjuvante de grande importância. Hoje é mais frequente que o clínico pergunte “dorme bem?”, e que possa assim destrinçar um conjunto de potenciais problemas associados à resposta “não”. E as pessoas também procuram mais, identificam sinais/sintomas e dirigem-se aos especialistas. Porém, para a prevalência que existe em determinadas perturbações do sono, e sabendo da gravidade das consequências das mesmas, precisamos de melhorar muito mais.

Adultos, jovens e crianças: o que indicam os dados estatísticos nesta área?
No estudo português de Meira e Cruz e colaboradores, apresentado em 2015, dirigido a uma amostra de escolas nacionais (incluindo ilhas), os resultados indicam que 12,5% dos jovens adolescentes (média de idades = 16,5 anos) dormiam menos de sete horas e apenas 20,3% tinha um tempo total de sono igual ou superior a nove horas. Curiosamente, neste estudo, 91% da população adolescente com excesso de peso dormia menos de sete horas. Ora, sabemos a importância do sono para o controlo metabólico e que dormir pouco desregula hormonas associadas à saciedade e apetite. Por outro lado, a obesidade é fator de risco para certas alterações do sono, como as apneias. Esta associação merece uma reflexão importante.

Quais são os principais sintomas de distúrbios do sono?
Diferem da classe etária em questão e do género (determinadas doenças do sono manifestam-se de forma distinta no homem e na mulher). Há, no entanto, uma coisa praticamente universal: a sonolência excessiva durante o dia que não é explicada por outro motivo. Reflete-se num adormecer em condições pouco convidativas (numa reunião, num contexto que requeira atenção como o trânsito, a conduzir, etc.). Depois, na dependência do motivo pelo qual o sono é perturbado, podemos ter o ressonar frequente e intenso, as pausas respiratórias (na apneia do sono), a urgência em mexer as pernas em repouso (característica das pernas inquietas), os movimentos regulares das pernas ou dos braços ou, o ranger de dentes em certas perturbações dos movimentos, a incapacidade de adormecer quando se vai para cama ou de voltar a adormecer após um despertar noturno (nas insónias), a tendência para se deitar e levantar mais tarde, com preservação do tempo de sono (ou seja, sem que durante o período de sono surjam alterações, o que sucede nas perturbações dos ritmos circadianos). Apesar de tudo isto, as perturbações respiratórias do sono e as insónias são, de facto, as queixas mais prevalentes, atingindo cerca de 30% da população, as primeiras com maior frequência nos homens, as segundas nas mulheres.

Quando devemos recorrer a um especialista?
Sempre que existe evidência de que alguma coisa no sono não é adequada, quando não temos mais nenhuma justificação para que haja este tipo de problemas. Obviamente, uma criança ou um adolescente que ressona, que acorda com a sensação de não ter dormido adequadamente, vai a dormitar para as aulas, não tem boas notas ou o aproveitamento que se espera apesar do estudo que tem – tudo isto são fatores que chamam a atenção. Isto é válido ao longo de toda a vida.

O que é que considera ser necessário para a resolução deste tipo de problemas e consequente melhoria da qualidade de vida?
A questão é preventiva e claramente educacional: tem de haver conhecimento de que o sono é fundamental à vida, porque se não dormirmos, efetivamente potenciamos um risco de morte. Falamos em termos de hábitos, de privação de sono voluntária, ou seja, o menosprezo pelo sono que nos faz ir para a cama à uma hora da manhã, sabendo que nos levantamos às sete para ir trabalhar. Também há doenças do sono como a apneia, as insónias ou a perturbação do movimento das pernas inquietas em que é preciso procurar ajuda qualificada dependente da situação específica.

Existe relação entre o sono e a qualidade da condução nas estradas portuguesas? Há dados que comprovem tendências?
Existe sim. Há múltiplos trabalhos que mostram que um tempo de sono inferior a seis horas aumenta consideravelmente o risco de acidente de viação e é claro que, para além do tempo de sono, o momento em que esses acidentes ocorrem mais depende do nosso estado biológico. Temos maior propensão para adormecer em certas alturas da noite: se falhamos esse momento em que devíamos estar a dormir e estamos em vigília, a conduzir, há maior propensão a ter acidentes. E os acidentes por privação de sono são normalmente mais graves que outros acidentes como por exemplo o consumo de álcool. A privação de sono potencia o efeito da alcoolémia.

Quais as profissões de maior risco no desencadeamento de distúrbios de sono?
Profissões expostas a stress e que estão ligadas a decisões importantes, de responsabilidade e também nas profissões em que determinam horários por turnos. São problemas distintos: uma favorece a insónias e outra tem a ver com a incapacidade de dormir por outros motivos.

A APCMS
A associação surgiu em 2012 com uma equipa multidisciplinar de especialistas com interesse particular na medicina do sono, estando aberta à entrada de qualquer tipo de associado. Celebram parcerias com escolas, universidades e têm desenvolvido um papel importante no esclarecimento da população, nomeadamente através da criação de panfletos sobre higiene do sono/cuidados preventivos e prevenção da sonolência no contexto rodoviário. Com inúmeros projetos de colaborações internacionais com Espanha, França, Itália, Cuba, México, Brasil e Rússia, têm ainda diversas publicações, participam em congressos, capítulos de livros e manuais, artigos e position papers. A associação é responsável pelo lançamento da Pós-Graduação em Cronobiologia e Medicina do Sono, reconhecida pela World Sleep Society.

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