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O adeus aos ralis
DATA
13/03/2008 05:13:57
AUTOR
Jornal Médico
O adeus aos ralis

No Rali Casinos do Algarve, a última prova do Campeonato Nacional de Ralis 2007, Victor Calisto colocou um ponto na sua carreira nos automóveis, depois de 32 anos no activo.

No Rali Casinos do Algarve, a última prova do Campeonato Nacional de Ralis 2007, Victor Calisto colocou um ponto na sua carreira nos automóveis, depois de 32 anos no activo. Figura incontornável dos ralis nacionais, quer pela sua longevidade, quer pela regularidade, o médico de família diz que chegou mesmo a hora da despedida, depois de muitas vitórias na sua classe, com destaque especial para o 2º lugar do Troféu Citroën AX em 1993

 

Em 1977, depois de alguns brilharetes em rali papers, Victor Calisto decidiu participar no Campeonato Regional de Iniciados da Zona Sul. “Com o carro de todos os dias”, o Fiat 128, pois não havia dinheiro para mais. E mesmo assim, com muita relutância do progenitor, o senhor Augusto, preocupado com os resultados práticos desta doideira do filho.
Mas, “meio roll-bar à pressão nos Auto Escapes do Areeiro, uns Pirelli P3 mais ou menos em estado novo”, duas semanas de conversa com o pai – que acabou por aceder ao pedido do filho, mais por exaustão do que por convicção – e lá foi ele, “numa noite gélida de Inverno, até à Rampa de Porto de Mós…
O primeiro lugar da classe para o Fiat número 11, pintado de preto, deu-lhe a certeza de que “aquilo era canja”. Menos convencido ficou o senhor Augusto que decidiu esperá-lo na última curva. Possivelmente porque ficava próxima de Fátima “lá estava ele, rezando à sua maneira, para que a coisa não desse para o torto…”.

Imobilizou-se… por fim!
Motores a roncar, “coração a bater”, e lá vão saindo os participantes por ordem crescente do seu número de inscrição. “Chega a nossa vez… primeira, segunda, terceira, quarta, redução, travão e novamente a quarta…”.
 “A rampa cheia de público ajudava a subir a adrenalina, entre toque de travão e mudança”. O tempo nem se sentia, de tal modo era dominado pelo espaço – curvas e mais curvas – que se sucediam a ritmo alucinante.
Mas, de repente, a estrada tornou-se mais estreita. Victor Calisto ainda hoje recorda que, de repente, “a viatura pareceu tomar conta das operações” e a falta de experiência fez o resto. Quatro a cinco cambalhotas depois, o Fiat 128 estava todo espatifado.
Imobilizou-se… “por fim!”, com o tejadilho no chão e as rodas para cima. Victor Calisto demorou a sair, mas fê-lo pelo seu próprio pé, o que foi uma sorte porque, mesmo atrasado, conseguiu chegar ao encontro marcado com o senhor Augusto, naquela última curva antes de Fátima.
Muitas promessas foram ali trocadas. O pai, feliz porque o filho saíra bem do acidente, comprometeu-se a arranjar o carro. Victor Calisto, por seu lado, assegurou-lhe que nunca mais pensaria em corridas. E diga-se, em abono da verdade, que cumpriu a promessa… Durante os dois anos seguintes só estudou Medicina.

A dupla mais antiga da Europa
Mas o bichinho dos ralis não o largava. À medida que progredia no exercício da Medicina Geral e Familiar – e alargava a sua experiência com o Curso Superior de Medicina Legal – consolidava uma presença e uma história no mundo dos ralis em Portugal. “Como tirei o curso de Medicina e me considero um profissional competente, nos automóveis não tive a carreira que gostaria” mas deixou um nome difícil de apagar. O seu recorde de provas é tão grande que “dificilmente o segundo classificado nos apanha”. Passaram várias gerações de pilotos mas a Calisto Corse Equipe continuou, graças “à nossa teimosia, amor e paixão” pelos automóveis e pela competição.
Victor Calisto e o seu navegador constituíam a dupla mais antiga em actividade da Europa. Mas o desporto automóvel é muito exigente, não só em termos físicos como financeiros. “Tudo tem que ter um fim...” diz o médico, apesar de não saber ainda muito bem como vai gerir as saudades de tantos amigos que fez “num tempo diferente” em que todos os momentos livres eram destinados à competição.

Havia sempre um amigo para levar o pneu sobressalente
A participação em ralis envolve muito trabalho. Durante anos, os carros eram preparados por si e pelos amigos com as condições mínimas para participar nas provas. Os patrocínios também eram poucos e, normalmente, vinham dos comerciantes da terra, “que já não me podiam ouvir…”. Seja como for, Victor Calisto sempre honrou os seus compromissos, ostentando e honrando os logótipos e a imagem de todos eles.
O primeiro campeonato a sério foi em 1985, com um Fiat Uno 55S, “um carro de todos os dias minimamente modificado para participar nas competições”.
Como os ralis decorrem em estradas florestais e só tinha uma viatura, “por vezes alugava um carro para fazer o reconhecimento do terreno”. Se, por azar, estragasse o seu, lá se ia o campeonato!
As coisas não eram fáceis para os independentes. o início, nem carro de assistência tinha. Mas havia sempre um amigo que levava o pneu sobressalente, o macaco e a caixa de ferramentas...

Ritual não deu resultado nos Açores
Dificilmente Victor Calisto esquecerá o ritual que antecede um rali. O dia anterior é dedicado a procedimentos de verificação das condições técnicas e dos documentos da viatura. São também inspeccionados os sistemas de segurança, incluindo fatos e capacetes, homologados pela Federação Internacional do Automóvel.
No dia da prova, por volta das sete da manhã, os carros entram no parque fechado, geralmente de minuto a minuto, dependendo da hora de partida.
A partir daí, ninguém lhes pode tocar.
Dada a ordem de partida, os carros começam a sair do parque, a intervalos de um minuto quando são provas de asfalto e cada dois minutos, quando são provas de terra. Por causa do pó, explica o médico.
Diante dos pilotos e navegadores estão os troços de ligação –  percursos que vão desde o início do rali até ao começo de uma prova especial de classificação. Aí, “corre-se contra o cronómetro”. Dez, quinze, vinte quilómetros… “Quem fizer o melhor tempo, ganha”.
De três em três provas de classificação, os carros são autorizados a entrar no parque de assistência. Ali, tudo se processa a uma velocidade alucinante. Os mecânicos só têm 20 minutos antes do carro voltar para a estrada.
Um rali de fim-de-semana, dos mais pequenos, integra entre 15 a 16 provas de classificação num total de aproximadamente 350 quilómetros. A prova termina ao final do dia. “A classificação resulta da soma de todos os tempos feitos nas provas especiais de classificação, adicionado às penalizações havidas nos percursos de ligação”.

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Para Victor Calisto, os ralis já poucos segredos têm. Mas há sempre a possibilidade de surgirem imprevistos. Por isso, antes de iniciar uma prova, o médico benze-se com a mão direita, dá uma pancada, também com a mão direita, na perna do navegador e mete a primeira velocidade três vezes antes de arrancar.
Normalmente, resulta. “Tivemos alguns problemas mas nunca nos aleijámos com gravidade”. Nem mesmo no Rali dos Açores, em 1997, onde espatifaram o carro contra as rochas. “Saímos fora da estrada, o carro deu várias cambalhotas e acabou com a frente metida entre as rochas”.

Aguentar o carro até ao final para cumprir os contratos

Apesar de ser um desporto perigoso, a verdade é que “também nunca demos muita oportunidade aos bate-chapas”. Entre outros motivos porque, com orçamentos tão curtos, se alguma coisa corresse mal, o campeonato ficava irremediavelmente comprometido.
Depois de uma primeira fase muito amadora, em que a presença nos campeonatos dependia da boa vontade e colaboração dos amigos, a Calisto Corse Equipe semiprofissionalizou-se. Começaram a surgir alguns patrocinadores e contratos para cumprir. “Ficar sem automóvel significava não poder cumprir determinada parte do calendário. Não nos podíamos arriscar a sofrer penalidades porque o orçamento não era tão grande como isso”. A sobrevivência da equipa dependia da habilidade do piloto: andar o mais depressa possível mas com cuidado para não estragar muito o carro.
Com o passar do tempo, Victor Calisto fez-se rodear de uma estrutura quase profissional. “Fomos evoluindo e, nos últimos anos, já tínhamos um carro para treinar, outro para correr, um atrelado e duas viaturas de assistência”.
Os carros passaram a ser transformados, reparados e assistidos na Inside Motor, Lda oficina que o próprio médico montou, em conjunto com um sócio que é também parte integrante da equipa que o acompanhava.
“Com todas as exigências da Federação Internacional do Automóvel, não só ao nível da segurança como na preparação dos automóveis, quem estava minimamente preparado, ou seja, quem possuía uma estrutura de apoio, continuou a correr. Os outros tiveram que desistir”.
Este ano, das cerca de 150 equipas participantes no Campeonato Nacional de Ralis, só a Calisto Corse Equipe e outra conseguiram chegar ao fim, em todas as provas. “Isso implica não só uma estrutura organizada e uma boa preparação do automóvel como algum conhecimento e know-how no sentido de conseguir levar o carro até ao final sem grandes percalços”.

Orçamento de 75 mil euros por campeonato
Neste seu percurso, a família apoiou-o sempre. É verdade que o pai Augusto preferia ficar a ouvir o relato de futebol estirado no sofá – uma actividade não só menos perigosa como mais barata, argumentava – mas sempre com o pensamento naquelas estradas e no filho, ao volante do carro. Entre 1991 e 1994, a mulher foi sua navegadora. O nascimento de um filho aconselharia o casal a deixar de desafiar a estrada lado a lado. Todavia, continuou sempre a animá-lo. E muitas eram “as noites sem dormir”, as negativas dos eventuais patrocinadores, as portas que se fechavam e “as certezas que passavam a não ser...”
“Numa competição existem carros de várias cilindradas e de várias classes. Batemo-nos sempre para ganhar a nossa classe”, explica o médico. Mas os prémios monetários são praticamente inexistentes. O primeiro classificado de uma prova como o Rali de Portugal recebe 2.500 euros. Não chega para pagar a inscrição, que ronda os três mil euros. “As organizações gastam muito dinheiro com a organização dos ralis. Não têm hipótese de dar bons prémios. Os pilotos que ganham dinheiro com os automóveis são aqueles que estão ligados às equipas de fábrica”. A diferença entre os orçamentos destas equipas e dos independentes é enorme: cerca de 30 vezes mais. No último ano, “o nosso rondou os 75 mil euros – em dinheiro e material – e já não nos podemos queixar”.

Não há volta a dar!

Nestes 32 anos, mesmo com orçamentos pequenos, a Calisto Corse Equipe conseguiu “uma forma diferente de estar por dentro do desporto automóvel”.
Como, normalmente, os resultados desportivos que obtinha não que lhe assegurava tempo de antena, Victor Calisto notabilizou-se não só pela sua resistência como por uma excelente imagem da equipa, sem descurar todas oportunidades que, em termos de marketing e publicidade, pudessem dar melhor retorno ao investimento realizado pelos sponsors. Era, além do mais, a equipa mais bem vestida do campeonato. “Fazíamos roupa personalizada para toda a equipa, com os logótipos dos patrocinadores bordados nos fatos. Andávamos sempre num brinquinho”, afirma o médico, já com alguma nostalgia.
A retirada de Victor Calisto foi notícia em todos os jornais desportivos nacionais. Na verdade, ainda há muita gente que duvida desta decisão “definitiva e inalterável”. Mas, para Victor Calisto, “não há volta a dar!”.

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