Um sonho com mais de 20 anos
DATA
04/04/2008 09:07:36
AUTOR
Jornal Médico
Um sonho com mais de 20 anos

Com a abertura da USF D. Diniz, a sede do CS de Leiria deixou de ter utentes a descoberto. Para além desta mais-valia, a nova unidade representa a concretização de um sonho profissional

 

Com a abertura da USF D. Diniz, a sede do centro de saúde de Leiria deixou de ter utentes a descoberto. Para além desta mais-valia para os utentes e para os serviços de saúde, o projecto corresponde à concretização do sonho profissional dos três médicos mais velhos da USF. Para os mais novos, que os desafiaram a concretizá-lo, representa um salto em direcção a uma nova cultura organizacional assente no trabalho em equipa e na colaboração inter-pares

O desafio para a constituição da USF D. Diniz, do Centro de Saúde Gorjão Henriques, em Leiria, partiu de duas jovens médicas, ex-internas do actual coordenador da unidade de saúde familiar e director do Internato de Medicina Geral e Familiar (MGF) do distrito de Leiria durante muitos anos, José Manuel Borrego e Pires. As jovens médicas – Ana Rita Faustino e Natália Simões – tinham sido contratadas pela Sub-região de Saúde (SRS) para trabalhar nos centros de saúde Gorjão Henriques e Arnaldo Sampaio, em Leiria. A sua entrada na USF permitiu a incorporação total da lista de utentes sem médico de família do CS Gorjão Henriques e da Extensão de Saúde de Esposo, uma localidade situada na zona urbana de Leiria. Entre ambas, absorveram cerca de 3.300 utentes. Dito de outro modo, "a sede do centro de saúde deixou de ter utentes a descoberto", explica o coordenador da unidade.

Processo demorou nove meses

A equipa, constituída por cinco médicos, cinco enfermeiros e quatro administrativos, ficou responsável por uma população global da ordem dos 9.500 utentes.

A candidatura ao novo modelo organizacional dos cuidados de saúde primários (CSP) foi apresentada em 29 de Março de 2006 e a 29 de Julho desse mesmo ano era homologada pela Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro. A inauguração, essa, só ocorreria a 29 de Novembro. O processo demorou, pois, "nove meses justos", sublinha o coordenador, satisfeito por ter respondido ao desafio das suas ex-internas que, em conjunto com outros médicos da "velha guarda" do CS Gorjão Henriques – Celso Crespo e Paula Wilson - conseguiram viabilizar a constituição da USF.

Reconfiguração racional do espaço

Em termos de espaço, a proposta da candidatura da equipa da USF D. Diniz incidiu, desde o início, na ala contígua ao antigo Serviço de Atendimento Permanente (SAP), transformado em Consulta Aberta no início de 2007. Tratava-se de um espaço subaproveitado, ocupado apenas pela técnica do serviço social e pela psicóloga do centro de saúde.

As obras de reconfiguração deram ao edifício uma nova fisionomia, nomeadamente com a abertura de janelas que vieram juntar-se às que já existiam mas que, estranhamente colocadas rente ao tecto, davam à construção um aspecto hermético, pouco hospitaleiro e até agressivo.

No interior, a junção de dois corredores deu origem a um átrio junto da secretaria que, além de tornar aquele sector mais espaçoso, serve de ligação aos gabinetes médicos e de enfermagem. Um pouco mais adiante, uma sala de arrumos e duas casas de banho foram transformadas em salas de enfermagem com áreas bastante razoáveis.

Com estas alterações, a equipa passou a dispor de um espaço harmonioso e confortável e gabinetes para cada médico e enfermeiro. Destes, três pertencem ao quadro do centro de saúde e duas são contratadas.

Das quatro administrativas, três pertenciam igualmente aos quadros do CS e uma outra veio do serviço de aprovisionamento da Sub-região de Saúde de Leiria. Para além da secretaria, situada à esquerda da ampla sala de espera, a sua área de trabalho inclui um pequeno gabinete de retaguarda.

Um sonho com mais de 20 anos

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Apesar de terem sido as médicas mais jovens da USF o motor do projecto, este correspondia a um sonho antigo dos colegas seniores. Foram eles, aliás, que promoveram a primeira discussão no Centro de Saúde Gorjão Henriques sobre as unidades de saúde familiar. Nessa reunião estiveram presentes todos os médicos do centro de saúde. Na altura, colocou-se a hipótese de transformar o CS numa ou duas USF mas a maioria dos médicos não aderiu à ideia. "Só nós os três tínhamos interesse em avançar". Todavia, era um número demasiado pequeno para pensar sequer em apresentar a candidatura. Assim sendo, o desafio das ex-internas foi recebido por José Manuel Pires com alegria e também com "um grande sentido de responsabilidade".

É que esta nova forma organizacional corresponde a uma ambição que o coordenador acalenta há mais de 20 anos. No dia da inauguração da USF - que reuniu representantes da ARS, da Missão para os Cuidados de Saúde Primários, da Equipa Regional de Apoio da Zona Centro e da Igreja, com a presença do bispo de Leiria – uma das suas ex-internas disse-lhe: "finalmente, conseguiu realizar o seu sonho!". E de facto, "a independência técnica, que nos permite trabalhar em equipa e com relativa autonomia", foi sempre uma das suas principais aspirações. Aliás, José Borrego Pires considera que "um dos grandes problemas da Medicina Familiar em Portugal reside no facto de ter fomentado um trabalho individual e solitário que impediu a implementação de uma cultura organizacional própria dos centros de saúde. Há excepções, evidentemente, mas são raros os casos dos centros de saúde que realizam reuniões clínicas, discutem os problemas técnicos, os protocolos de actuação ou possuem uma cultura de avaliação inter-pares". No entanto, todos estes aspectos "são essenciais para o processo de evolução das equipas".

Equipa inicia processo de consolidação

Uma semana depois de iniciarem actividade, os profissionais juntaram-se para uma primeira reunião semanal da USF. Para todos, a ocasião foi quase tão especial como o momento da inauguração porque traduz, de facto, uma nova postura e a introdução de métodos de trabalho inovadores nos cuidados de saúde primários.

Em conjunto, a equipa reflectiu sobre a qualidade da prestação da unidade de saúde familiar, procurando soluções para os pequenos problemas do dia-a-dia, sobretudo ao nível da organização dos serviços. Com entusiasmo contido, o grupo dava início aos trabalhos, consciente de que iniciava um novo ciclo em que os interesses globais da unidade de saúde familiar e dos utentes são soberanos.

A primeira reunião constituiu igualmente um passo importante no processo de consolidação interna da equipa. Todos sabem qual é o seu papel e o que se espera deles. "Evidentemente que ainda não estamos a trabalhar a cem por cento mas cada um sabe, com grande exactidão, o que deve fazer", diz o coordenador.

Trabalho em equipa permite uma medicina mais racional

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Para José Manuel Pires, o grande ganho das USF é a sua autonomia técnica, na medida em que permite realizar uma medicina com mais qualidade e também mais racional. Nesse aspecto, o coordenador sublinha a importância da implementação de normas de orientação clínica, recordando que, antigamente, "quando um médico fazia um diagnóstico de pneumonia, por exemplo, ouvia a história do paciente, fazia a auscultação e, de vez em quando, pedia um Rx para confirmação. Essa radiografia custava cerca de 2,5 euros. Hoje, chega-se ao ponto de pedir uma TAC, cujo preço ronda os 200 euros...". A questão dos antibióticos é outro ponto sensível. "Enquanto que uns têm um custo diário de 50 cêntimos, outros rondam os cinco euros...".

Na opinião do coordenador, os médicos têm que ser conscientes destes dados porque "se não racionalizarmos a prescrição, a curto ou médio prazo vão-nos limitar o acesso aos meios auxiliares de diagnóstico e a determinados tipos de tratamento". Isso só não acontecerá "se trabalharmos em equipa, seguindo normas de orientação clínica específicas para determinadas patologias". Este é um desafio a que a USF respondeu de imediato, tanto mais que corresponde ao desejo dos profissionais de praticar uma medicina de qualidade, racional e consequentemente, mais barata. A força da equipa manifesta-se uma vez mais: "o médico já não trabalha sozinho. Em caso de dúvida, tem a possibilidade de pedir conselho aos colegas, num processo de ajuda inter-pares e de consultadoria interna".

Intersubstituição está assegurada

A equipa da USF D. Diniz é relativamente pequena e o coordenador está consciente desse facto: "estamos muito dependentes uns dos outros e a relação corre o risco de se tornar demasiado possessiva". O ideal, na sua opinião, são equipas de sete médicos mas isso não é possível na USF D. Diniz, "pelo menos a curto prazo".

Assim, a USF organiza-se em torno dos seus 14 elementos para dar resposta, em tempo útil, aos 9.500 utentes inscritos na unidade.

Os horários médicos asseguram a presença de quatro clínicos todas as manhãs, de segunda a sexta-feira, e de três no período da tarde. A intersubstituição ocorre em períodos determinados do dia. Nomeadamente, ao início da manhã, durante a hora de almoço e ao fim da tarde, entre as 17 e as 20 horas, reforçando a consulta pós-laboral.

Renovação profissional aos 50 anos

A equipa avança com o Modelo A mas com o objectivo de evoluir rapidamente para o Modelo B. O desempenho global da USF determinará essa evolução. Nesse sentido, o coordenador enfatiza a necessidade de a equipa avançar com passos seguros, consolidando a carteira de serviços contratualizada com a Administração Regional de Saúde, de que faz parte a Consulta de Alcoologia. Esta já era assegurada pelo coordenador da unidade de saúde familiar desde há vários anos e, tal como antes, está aberta a todos os utentes do concelho de Leiria.

Aos 50 anos, José Manuel Pires, apesar das suas múltiplas responsabilidades – nomeadamente na formação de jovens médicos de família – afirma que, "se não fosse o projecto da USF sentir-me-ia como que adormecido". Isto porque as unidades de saúde familiar aliam a uma nova cultura organizacional um processo interessantíssimo de renovação profissional que faz com que "os velhotes" agarrem na Medicina Familiar com "ânimo redobrado" depois de décadas de trabalho solitário.

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Editorial | António Luz Pereira
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