MF no driver’s seat
DATA
04/04/2008 09:17:03
AUTOR
Jornal Médico
MF no driver’s seat

Com o objectivo de "fazer bem à primeira e não numa sucessão de actos que consomem tempo e dinheiro", a governação clínica assume-se como uma nova cultura e uma forma inovadora de pensar as organizações de saúde

 

Com o objectivo de "fazer bem à primeira e não numa sucessão de actos que consomem tempo e dinheiro", a governação clínica assume-se como uma nova cultura e uma forma inovadora de pensar as organizações de saúde. Este conceito, desenvolvido no Reino Unido – e que se pretende imprimir à reforma em curso nos cuidados de saúde portugueses –, foi tema de uma conferência, proferida por Dennis Cox, no passado dia 25 de Março, no auditório do Centro de Saúde de Sete Rios, em Lisboa. O médico de família britânico e líder nacional da NHS Alliance para a Qualidade e Segurança veio a Portugal a convite da MCSP e a sua palestra destinou-se, muito particularmente, a coordenadores de USF e directores de centros de saúde. Leia-se… A potenciais coordenadores dos futuros ACES…

À semelhança das mudanças em curso no sistema de saúde português – concretamente nos cuidados de saúde primários (CSP) –, o Reino Unido tem vindo a desenvolver, desde há cerca de seis anos, uma reforma profunda no seu serviço nacional de saúde (NHS), num plano de implementação a 10 anos.

Em Portugal e face à experiência britânica, a reforma ainda agora vai no adro, mas pretende englobar alguns dos princípios desenvolvidos em terras de Sua Majestade, nomeadamente a governação clínica (GC).

Com vista a debater esta temática tão crucial para as mudanças em curso no nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS), a Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP) organizou uma conferência destinada a coordenadores de unidades de saúde familiar (USF) e directores de centros de saúde (CS), ou seja, potenciais coordenadores dos futuros Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES).

Dennis Cox, médico de família britânico e líder nacional da NHS Alliance para a Qualidade e Segurança foi o conferencista convidado para a sessão que decorreu, no passado dia 25 de Março, no auditório do CS de Sete Rios, em Lisboa.

O especialista elucidou os colegas portugueses sobre as mudanças em curso no NHS, apontando a GC como uma peça essencial em todo o processo de reforma. Mas, para que a GC resulte em melhoria contínua da qualidade, "o envolvimento dos profissionais é essencial", salientou.

Daí que no Reino Unido – e no âmbito do referido plano de reforma a 10 anos – os médicos de família (MF) sejam os "condutores".

E para explicar este conceito de MF no driver’s seat, Dennis Cox apresentou o seu próprio exemplo: "como presidente do comité executivo de profissionais do Primary Care Trust (PCT) de Cambridgeshire, uma zona rural de Inglaterra, sou responsável pela aquisição e gestão de cuidados de saúde – independentemente do nível de prestação – para uma população de 700 mil cidadãos, dispondo, para tal, de um budget anual de 700 milhões de libras – o equivalente a mil milhões de euros".

Não se pense, contudo, que a reforma em curso no NHS, desenhada pelo Governo britânico, tem sido pacífica e totalmente bem sucedida… Como qualquer processo de mudança, têm surgido problemas no terreno – que se prendem, essencialmente, com a questão dos incentivos financeiros – cujas implicações práticas os MF portugueses fizeram questão de conhecer.

Um papão chamado accountability

Salientando o papel dos clínicos gerais como gestores de recursos, o especialista britânico explicou que aspectos como "a capacitação do doente, a accountability, a notificação dos eventos adversos, os incentivos institucionais", entre outros, se revestem de um cariz imperativo quando falamos de GC.

Sendo a GC um sistema pelo qual as organizações são responsáveis pela melhoria contínua da qualidade nos seus serviços, garantindo altos padrões de qualidade mediante a criação de um ambiente no qual é possível a excelência clínica, "a liderança dos profissionais é fundamental – bem como a capacitação dos doentes – nos processos de tomada de decisão vinculados ao processo assistencial", acrescentou.

De acordo com Dennis Cox, a segurança do doente deve ser o objectivo principal da GC, significando o envolvimento, em parceria, de prestadores e utilizadores dos cuidados de saúde e um cenário onde o erro é encarado como um instrumento de aprendizagem individual e da organização.

"Quando falamos em CG, estamos a falar de formação contínua, auditoria clínica, responsabilidade e transparência (accountability), trabalho em equipa, efectividade, investigação e gestão do risco", frisou.

Segundo o clínico britânico, o mais difícil para os MF tem sido lidar com a accountability que advém do facto de estarem sentados no driver’s seat. Igualmente problemática é a questão da notificação dos eventos adversos, com os profissionais a demonstrarem ainda uma grande dificuldade em reconhecer e debater esta realidade inerente à prática clínica.

Vamos falar de incentivos!

Para uma governação clínica eficaz, é preciso que os profissionais tenham, à sua disposição, sistemas de informação (SI) também eles eficazes.

A utilização das novas tecnologias de informação e comunicação é, em si mesma, um dos aspectos mais cruciais da GC, frisou Dennis Cox.

Igualmente fundamental é a criação de incentivos para os profissionais envolvidos na reforma, um assunto que gera sempre alguma polémica, seja em Portugal ou no Reino Unido.

"Estamos a falar de incentivos institucionais nos CSP que podem ser utilizados para formação dos profissionais ou para melhorar as infra-estruturas e instalações físicas e não para enriquecer médicos e enfermeiros", esclareceu o médico britânico.

No final da conferência, a palavra passou para a assistência e as perguntas sucederam-se de forma incessante. Os MF portugueses quiseram saber mais pormenores sobre o funcionamento dos PCT e o dia-a-dia dos congéneres britânicos. Perceberam, pela explicação de Dennis Cox, que as diferenças relativamente a Portugal são inúmeras: o dinheiro está nos CSP, a referenciação ao hospital é "paga" pelo MF, o Governo ficou a perder com o contrato que realizou com os MF em termos de out-of-hour care, são muitos os clínicos gerais que trabalham em part-time, entre outros aspectos.

Os MF lusos compreenderam também quão essencial é o seu envolvimento nas mudanças em curso nos CSP. "Nos ACES, a governação clínica impõe-se como um nível de gestão essencial ao sucesso da reforma", concluiu o coordenador da MCSP, Luís Pisco.

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Editorial | António Luz Pereira
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