Jornal Médico Grande Público

Olhares sobre a doença crónica
DATA
17/04/2008 08:29:13
AUTOR
Jornal Médico
Olhares sobre a doença crónica

Depois de um interregno de vários anos, o CS da Parede voltou a organizar as suas jornadas. Desta vez, com o objectivo de lançar novos olhares sobre as doenças crónicas

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Depois de um interregno de vários anos, o CS da Parede voltou a organizar as suas jornadas. Desta vez, com o objectivo de lançar novos olhares sobre as doenças crónicas. A iniciativa partiu dos internos do centro de saúde mas a participação estendeu-se a todos os sectores que integram a equipa da unidade. Vítor Ramos, médico de família da USF Marginal e professor da Escola Nacional de Saúde Pública, deu início às Jornadas com uma conferência sobre a gestão da doença crónica num contexto de reforma dos serviços de saúde. A capacitação dos cidadãos e a organização dos serviços em torno da pessoa e não da doença foi o tema central da sua intervenção

As doenças crónicas, de início impreciso e evolução prolongada, exigem a continuidade de cuidados e abordagens integradoras, centrados na pessoa, por oposição às abordagens redutoras, que focam apenas a doença, ou mesmo as abordagens sistémicas, que incidem sobre um cluster de problemas de saúde. Neste âmbito, Vítor Ramos defende que o esforço dos profissionais deverá ser dirigido à promoção da saúde, do bem-estar e da qualidade da vida humana. Ou seja, trata-se de "gerir as oportunidades", nomeadamente no que se refere a uma maior capacitação do doente e ao desenvolvimento de novos paradigmas nos cuidados de saúde, em vez de multiplicar serviços, tecnologias e consumos.

A complexa realidade da doença crónica "exige outros olhares ou modos de ver, sentir, agir e pensar", diz o médico. O paradigma patogénico é substituído por aquilo que denomina de paradigma salutogénico, ou seja, de explicação das causas da saúde e daquilo que nos mantém saudáveis, apesar de todos os riscos e ameaças.

Maior capacitação dos cidadãos domina paradigma salutogénico

Neste novo paradigma salutogénico, a promoção da saúde e a prevenção da doença compreende quatro níveis: literacia, capacitação e autonomia da pessoa/doente, integração de cuidados centrados na pessoa, regulação sistémica e dispositivos e competências de gestão da saúde populacional.

Muitos parâmetros da doença crónica "não dependem dos serviços, dos profissionais ou dos medicamentos mas, fundamentalmente, das pessoas", diz o médico, recordando o conhecido lema de Charles Mayo, fundador da Clínica Mayo, nos Estados Unidos: "o ideal é que as pessoas precisem cada vez menos de nós". E isso implica dotá-las de maior capacidade de gestão da sua saúde. Tal objectivo é difícil de alcançar com serviços baseados em organizações de grande dimensão ou excessivamente burocratizadas. Por isso, Vítor Ramos aposta no desenvolvimento de equipas multidisciplinares, flexíveis e ágeis, com capacidade para entrosar e responder, de forma efectiva, aos problemas dos cidadãos.

 

Transformações requerem ciência, estudo e experimentação

O processo de reforma que hoje decorre em Portugal é consentâneo com o que sucede em muitos outros países do mundo. A maioria dos sistemas de saúde, mesmo aqueles considerados bons, tentam introduzir, de forma constante, mecanismos de regulação, complexos e subtis.

Vítor Ramos apresenta o caso da Holanda como um exemplo. Nos anos 80, surgia o Plano Decker, de carácter sistémico e empresarial, da mão de um antigo responsável da Philips. Mas o mercado da saúde, extremamente imperfeito e complexo, ultrapassa o mundo empresarial. Daí que o modelo holandês tenha continuado a transformar-se, de forma constante, nos últimos 20 anos. Contém, hoje, algumas ideias de gestão de Decker, mas já não o plano inicial: "as transformações podem ser mais rápidas ou mais lentas mas nunca estão acabadas, devido à sofisticação dos mecanismos de regulação", explica o médico.

Por vezes, pode parecer que nunca acontece nada ou que está tudo na mesma, "mas temos que ser realistas: os sistemas de saúde são complexos, difíceis de mudar" e essas mudanças não resultam de uma qualquer ideia luminosa mas de um trabalho complicado que requer "ciência, estudo, experimentação" e que implica "erros, tentativas e correcções".

As grandes questões da reforma

Nesta transformação do sistema de saúde, o médico aponta oito pontos essenciais, para os quais é preciso encontrar respostas ajustadas e reguladas. A primeira questão diz respeito ao financiamento e contratualização das unidades de saúde que "tem que estar associado às pessoas e aos seus problemas e não às instituições e aos profissionais".

Este aspecto relaciona-se, por sua vez, com outra grande questão: "os benefícios e a gestão de cuidados devem estar centrados na pessoa e não na doença em si".

O terceiro ponto diz respeito à necessidade de aumentar a literacia em saúde e a capacitação do doente e da sua família na gestão da doença crónica. Não se trata de desresponsabilizar mas de o médico passar a ser visto como "um consultor, um recurso de apoio, um responsável cujo objectivo é promover a sua qualidade de vida".

Para isso, o médico defende cuidados de proximidade através do desenvolvimento de pequenas equipas multidisciplinares. "O desafio pode chamar-se unidades de saúde familiar ou o que quiserem". Desde que sigam a via de "maior proximidade e entrosamento, menos hierarquia burocrática e maior responsabilização".

O acesso e o papel dos cuidados secundários e terciários, a continuidade de cuidados e os cuidados continuados, integram igualmente o complexo puzzle da saúde. Tal como os sistemas informáticos, "centrados na pessoa" ou a gestão integrada de base populacional, através de processos de monitorização e avaliação que implicam a existência de indicadores, objectivos e resultados, nomeadamente ao nível da qualidade de vida dos cidadãos. Um ponto que constituirá, provavelmente, um dos principais desafios das futuras unidades de saúde pública dos agrupamentos de centros de saúde.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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