Benchmarking é a grande prioridade
DATA
22/04/2008 04:40:51
AUTOR
Jornal Médico
Benchmarking é a grande prioridade

Cerca de quatro dezenas de dirigente de associações e colégios europeus de MGF estiveram em Portugal, com o intuito de partilhar boas práticas e debater questões relacionadas com a organização interna das estruturas que representam

 

Cerca de quatro dezenas de dirigentes de várias associações e colégios europeus de Medicina Geral e Familiar estiveram recentemente reunidos, em Lisboa, com o intuito de partilhar boas práticas e debater questões relacionadas com a organização interna das estruturas que representam. A Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral foi a anfitriã desta iniciativa pioneira, que contou com o apoio da WONCA Europa. Aspectos como o financiamento, a relação com os stakeholders (políticos, media e indústria farmacêutica), os serviços prestados aos associados, a organização de eventos e a publicação de material informativo serviram de mote à discussão, que se dividiu por quatro grupos de trabalho. Deste brainstorming resultaram algumas sugestões interessantes, apresentadas no final da sessão de trabalho

Partilhar e comparar, trabalhando em conjunto. Foi este o mote da 1ª Reunião de Associações de Medicina Geral e Familiar (MGF), onde estiveram presentes

42 dirigentes associativos, oriundos de 22 países da região europeia da WONCA, a Associação Mundial dos Médicos de Família.

O evento, organizado no âmbito do 25º aniversário da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG), decorreu a 5 de Abril, no Hotel Olissippo Oriente, em Lisboa, e contou com a presença do presidente da WONCA Europa, o esloveno Igor Svab.

"Identificar boas práticas organizacionais a nível europeu e disseminá-las por todas as associações europeias, nomeadamente entre as que têm menor capacidade organizativa" constituiu o grande desiderato deste encontro pioneiro, explicou ao nosso jornal o presidente da APMCG, Luís Pisco.

"Cada associação europeia tem conhecimentos e experiências em diferentes áreas, que não são utilizadas de forma planeada e em benefício das suas congéneres com défice de desenvolvimento. Uma cooperação similar entre as associações – o chamado benchmarking – é prioritária", sustentou o médico de família português.

"E como é que nunca nos tínhamos lembrado disto?", questionou-se Igor Svab, visivelmente satisfeito com as motivações desta reunião e consciente da sua pertinência. "É fundamental que nos sentemos à mesma mesa a debater este tipo de questões. Espero, sinceramente, que este tipo de iniciativa se possa repetir, com alguma frequência", adiantou o dirigente da WONCA Europa a este propósito.

"As 22 organizações presentes neste encontro – Portugal, Espanha, Áustria, Bélgica, Croácia, Dinamarca, Inglaterra, Finlândia, França, Geórgia, Alemanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Noruega, Polónia, Sérvia, Eslováquia, Eslovénia, Suíça e Turquia – desenvolvem um vastíssimo conjunto de actividades. É fundamental que estas associações sejam bem geridas e estáveis, para que possam desenvolver actividades em áreas cruciais como o ensino, a qualidade e a investigação, entre outras", adiantou Luís Pisco.

Sensível à questão organizacional, a APMCG assumiu esta iniciativa pioneira no âmbito das comemorações do seu 25º aniversário e no seguimento da reforma em curso nos cuidados de saúde primários (CSP) portugueses, também coordenada por Luís Pisco. Este evento representa, assim, um passo em frente no desenvolvimento dos CSP, em prol dos seus profissionais e dos seus utentes.

RX às áreas estratégicas

Conseguir que as associações e colégios europeus estejam bem organizados, a funcionar em rede, e preparados para os desafios, de ordem diversa, com que a Medicina Geral e Familiar se debate actualmente na Europa, é um objectivo partilhado pelos dirigentes que se reuniram, no passado dia 5, em Lisboa.

De forma a potenciar o benchmarking entre as organizações de MGF, no que toca às suas áreas estratégicas de intervenção, os 42 representantes das associações dividiram-se por quatro grupos de trabalho e discussão.

No primeiro grupo, os temas propostos para debate foram a organização de eventos e a publicação de material informativo. As questões relacionadas com o staff (selecção, recrutamento e manutenção) e com os serviços providenciados aos associados foram discutidas no seio do segundo grupo.

O financiamento foi a temática em destaque num grupo de discussão apenas participado por espanhóis, portugueses e croatas. No quarto e último grupo debateu-se a relação das organizações de MGF com os políticos, os media, a indústria farmacêutica e o público em geral. Deste brainstorming resultaram algumas sugestões, apresentadas no final da sessão de trabalho.

A organização de eventos, bem como cursos a nível regional e local são comuns à maioria das sociedades, sendo no entanto evidentes as discrepâncias em termos de condições económicas, entre as diferentes associações. Quanto à educação médica contínua, o Reino Unido e a Noruega são exemplos de países onde esta já é obrigatória, uma tendência que também deverá ser seguida noutros países europeus.

A publicação de jornais e revistas científicas e educacionais é outra área onde a maioria das associações europeias de MGF têm vindo a desenvolver trabalho. A este nível, os médicos de família (MF) reunidos no Hotel Olissippo Oriente identificaram o dilema entre liberdade editorial e uma necessidade de controlo por parte das estruturas. Salientaram, igualmente, aquele que consideram ser um dos maiores desafios da profissão: a definição de normas de orientação clínica para a MGF.

Sou associado porque…

O que podem as associações e colégios de MGF fazer pelos seus associados foi a questão que serviu de base à reflexão do segundo grupo, que contou com a participação, entre outros países, da Holanda, Sérvia, Irlanda e Turquia.

Da discussão emergiu uma resposta com contornos interessantes: "sou associado porque a organização me oferece condições para ser um bom médico de família, apoia-me no exercício da minha profissão".

Face a esta constatação, o grupo propõe que as associações de MF devem estar especialmente atentas aos profissionais mais jovens, sem nunca descurar, no entanto, os diversos degraus da carreira, mantendo um papel central e de qualidade em áreas tão cruciais quanto o Ensino e a Investigação.

Relativamente ao staff destas associações, a grande maioria dos representantes europeus defende a sua profissionalização, em oposição a um modelo voluntarista, que ainda vigora em alguns casos. Ficou ainda claro que o trabalho associativo realizado por MF deve ser remunerado.

Ser transparente e ter uma "certa atitude"

O quarto grupo de reflexão dedicou-se aos aspectos emergentes da relação entre as associações de MGF e os diversos stakeholders. Os dirigentes da Grécia, Suíça, Alemanha, Reino Unido, Geórgia, Turquia, Eslovénia, entre outros, reforçaram a necessidade de a WONCA se constituir como a "organização-mãe" e voz representativa de todas as associações face ao exterior.

Ficou ainda claro, para todos, que o associativismo é indispensável a uma boa formação e uma prática de excelência na Medicina Geral e Familiar.

Em jeito de conclusão, os dirigentes reunidos em Lisboa apontaram a urgência da elaboração de um template único – uma espécie de ficha técnica das organizações – que permita o benchmarking entre as estruturas que, sendo semelhantes a vários níveis, apresentam diferenças que importa registar. Uma tarefa que vai começar, desde já, a ser empreendida.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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