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Trabalhamos cada vez mais
DATA
22/04/2008 04:47:13
AUTOR
Jornal Médico
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Como é ser Médico de Família na Noruega? Gisle Roksund, presidente do Colégio Norueguês de Clínica Geral – Norsk forening for allmennmedisin, falou ao nosso jornal sobre a realidade vivida no seu país

O Colégio Norueguês de Clínica Geral – Norsk forening for allmennmedisin – é uma organização profissional preocupada, essencialmente, com a evolução dos padrões de qualidade no exercício da Medicina Familiar. Procura também promover investigação sólida na área dos cuidados de saúde primários e garantir um futuro tranquilo, no que respeita ao recrutamento de novos médicos para a classe. Esta é, aliás, uma das suas preocupações centrais, uma vez que nos últimos anos o número de especialistas formados na Noruega tem vindo a decrescer, sem que tenha sido possível contrariar tal tendência com o sucesso esperado. À frente deste colégio – actualmente com 4400 membros e integrado no seio da Associação Médica Norueguesa – está Gisle Roksund. Ao nosso jornal, o chairman do Colégio Norueguês comentou a actual situação da Medicina Geral e Familiar naquele vasto território (grande o suficiente para conter quatro vezes Portugal e ainda deixar algum espaço livre), no qual reside aproximadamente, o equivalente a metade da população portuguesa. Em particular destaque, a terrível luta que os clínicos gerais travam na Noruega, à medida que as suas hostes crescem a um ritmo parcimonioso, bem distante do movimento imparável dos especialistas hospitalares

Médico de Família – Na Noruega, são os municípios que assumem a responsabilidade pelo acesso dos cidadãos a um médico de família. Historicamente, tem sido essa a opção. Os clínicos gerais continuam a sentir-se confortáveis com este modelo?

 

Gisle Roksund – Trata-se de uma tradição antiga, o elo aos municípios. Para compreendê-lo, é necessário ter uma imagem correcta da nação. A Noruega compreende uma extensão de território bastante extensa, com grandes zonas rurais e longas distâncias para cobrir entre cidades. Neste contexto, o clínico geral vive no município, conhece a comunidade e acumula funções ao nível da Saúde Pública local. Assim sendo, os municípios assumem uma enorme importância na gestão dos cuidados de saúde primários, o que vem, aliás, sustentar muitas das ideias contidas na Declaração de Alma-Ata, assinada há 30 anos. Podemos dizer que os alicerces históricos do sistema de saúde norueguês acabam por estar, de uma forma agradável (pelo menos para mim), ligados aos pensamentos que percorreram Alma-Ata. Trata-se de uma excelente base de partida para a actividade do clínico geral.

Dito isto, tenho de reconhecer que este papel combinado, ou duplo, que é atribuído ao médico de família norueguês, em que se é simultaneamente clínico geral e responsável pela Saúde Pública, está a ser esticado até aos seus limites.

Porquê? Os médicos não conseguem suportar o peso das duas tarefas?

É particularmente difícil. Nas grandes cidades, observamos que estas duas funções clínicas estão já separadas, em muitos casos, o que significa que esta parte da tradição se encontra sobre enorme tensão.

Os clínicos gerais noruegueses recebem a sua remuneração por intermédio de um mecanismo híbrido, com parte do seu rendimento a ser pago pelo município (em regime de capitação), parte pelo Ministério da Saúde (através de pagamento directo por serviço) e ainda outra parte com contribuições directas dos doentes…

Sim, cerca de 30% da nossa remuneração é entregue pelos municípios, em regime de capitação. O paciente paga um valor, por cada consulta, o mesmo sucedendo com a administração central do sistema de saúde.

É um sistema que poderá intrigar (ou confundir) alguns dos seus colegas de outros países europeus…

Entendo perfeitamente que tal possa acontecer, mas na realidade é algo com que nos habituamos a trabalhar e é, na sua base, bastante simples e justo.

Como analisa actualmente a repartição de recursos entre cuidados primários e secundários, no seu país?

O acontecimento mais marcante no sistema de saúde norueguês, nos últimos 20 anos, é o enorme incremento do número de especialistas hospitalares, ou especialistas de órgãos, como às vezes são conhecidos. De facto, o número de médicos que trabalham em hospitais duplicou, de seis mil para cerca de 16 mil, nas últimas duas décadas. Enquanto isso, o número de clínicos gerais subiu de apenas 3 para 4 mil. Em termos práticos, pode-se afirmar que os cuidados secundários explodiram, ao mesmo tempo que os cuidados médicos prestados por clínicos gerais praticamente estagnaram.

E que repercussões sentem, devido a este desequilíbrio?

 

Não sentimos que existe menos trabalho, garanto-lhe. Pelo contrário, os clínicos gerais noruegueses trabalham cada vez mais. A explicação está no facto de, na Noruega, o clínico geral desempenhar o papel de gatekeeper do sistema, controlando efectivamente o acesso do doente aos cuidados hospitalares.

Mas, afinal, o que motivou esse crescimento desproporcionado? Foi a população que forçou uma maior oferta hospitalar?

Não, penso que foram sobretudo interesses financeiros, das diversas partes envolvidas. Nos últimos sete anos, dos 440 novos médicos formados anualmente, perto de 400 entraram para os hospitais, ficando os CSP com apenas 40. Assim, a pequena dimensão relativa dos cuidados de saúde primários, por analogia com o universo hospitalar, torna-se uma fonte de problemas e de incómodos.

Mas sente que os médicos em formação resistem à opção Clínica Geral?

É complicado entrar na Clínica Geral, neste momento, uma vez que as pessoas sentem que não existe uma expansão real deste nível de prestação de cuidados. Em contraposição, olham para os hospitais e descobrem essa expansão, o que acaba por influenciar a sua escolha.

Contudo, o mais importante é perceber que estes desenvolvimentos originam um grande dispêndio de recursos, ao mesmo tempo que tornam mais ineficaz o sistema de saúde, como um todo.

O que me está a dizer é que um jovem médico de família norueguês não tem a vida facilitada, no início do seu percurso, ao nível dos apoios?

Claramente. O Colégio – e a associação em que se integra – estão a trabalhar de forma árdua com as autoridades e os políticos, no sentido de inverter esta tendência, porque sentimos que os médicos de família estão numa espécie de aperto. Pode parecer, a quem está de fora, que os clínicos gerais na Noruega são muitos e dotados de independência, mas a verdade é que o tamanho da máquina hospitalar é muito maior, o que contribui para que os clínicos gerais sintam que o seu espaço natural está a encurtar.

Sempre que se aborda a questão do atendimento médico em território norueguês, em particular o centrado na Medicina Familiar, vem à tona a questão do isolamento. Os seus colegas que trabalham em comunidades mais remotas sentem-se desamparados?

Em alguns locais, podem cair nessa sensação de isolamento com bastante facilidade. A missão de criar redes profissionais que os apoiem, nas áreas mais distantes e rurais, é gigantesca. Estamos, como é óbvio, a trabalhar com afinco nesse campo.

A Telemedicina tem sido uma saída para contornar o problema…

Sim, a Telemedicina tem sido utilizada com bons resultados, assim como outros meios. Em determinados locais, são usados helicópteros e barcos, preparados especificamente para funcionar como ambulâncias. Há que ser criativo.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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