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“No último ano e meio, convivemos com três ministros da Saúde”
DATA
02/05/2008 08:18:44
AUTOR
Jornal Médico
“No último ano e meio, convivemos com três ministros da Saúde”

Em entrevista exclusiva ao nosso jornal, Tamar Shanidze, porta-voz da Associação de Medicina Familiar da Geórgia, fala da especialidade no seu país, ainda marcada pela visão hospitalocêntrica da ex-URSS

 

A República da Geórgia tenta, a todo o custo, construir um sistema de saúde digno do século XXI. Nação caucasiana, independente desde 1991 e herdeira de um espólio ideológico e administrativo com origem na ex-União Soviética (onde reinava a cultura hospitalocêntrica), a Geórgia viu-se a braços com um modelo ultrapassado, que rapidamente transformou numa folha em branco. Os grandes desafios passam, sobretudo, por redefinir a malha das unidades prestadoras de cuidados e requalificar recursos. Há muito a fazer e em áreas vitais, como a da formação especializada dirigida aos médicos de família, uma peça que ainda falta à engrenagem georgiana. Tamar Shanidze, porta-voz da Associação de Medicina Familiar da Geórgia, acredita que, apesar do difícil clima político que tem assolado o seu país, é possível manter a Medicina Familiar como elemento dinâmico das reformas em curso 

Médico de Família – A Associação de Medicina Familiar da Geórgia, à semelhança do próprio país, é uma instituição ainda jovem. Quais as principais dificuldades que têm enfrentado? 

Tamar Shanidze – Tudo é difícil, quando não há antecedentes. Antes de mais, a especialidade de Medicina Familiar é ainda mal compreendida na Geórgia. O que não é surpreendente… A verdade é que mesmo nos países em que a especialidade se tem vindo a desenvolver ao longo das últimas décadas, persistem debates acesos sobre a designação, a abrangência e a natureza deste título de especialidade. Também na Geórgia, as funções que devem acompanhar o trabalho de um médico de família não estão ainda claramente traçadas, quer na mente da população, quer na de muitos profissionais. Isto apesar dos primeiros projectos ligados à Medicina Geral e Familiar (MGF) terem começado a despontar há aproximadamente dez anos. Por todas estas razões, não foi fácil iniciar a Associação de Medicina Familiar. 

Quantos associados têm? 

Cerca de 400, sendo que metade destes médicos receberam formação específica muito recentemente e não praticam ainda a MGF, como ela é entendida no Ocidente. É preciso esclarecer que, entre nós, os médicos que actuam ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP) fazem-no, de facto, em contexto de unidades ambulatórias na comunidade, ou em policlínicas, mas sem uma vertente muito expressiva ao nível da intervenção da Medicina Familiar, que ainda dá os primeiros passos no país. A verdade é que muitos não são verdadeiros médicos de família, mas antes médicos que atendem famílias. 

A base do vosso sistema de saúde, no que respeita aos CSP, está dividida em pequenas unidades de ambulatório (localizadas, maioritariamente, nas zonas rurais) e policlínicas, que servem sobretudo a população urbana, correcto? 

O sistema de saúde tem as suas raízes no modelo soviético que dependia muito das especialidades hospitalares. Assim, no passado, o que existia era um conjunto alargado de unidades de ambulatório, onde trabalhavam, lado a lado, médicos de várias especialidades, com ênfase para os internistas e para os pediatras (que estavam divididos por distritos). Nas policlínicas – mais vulgares em pólos urbanos – encontrávamos também cardiologistas, neurologistas, ginecologistas e outros especialistas hospitalares. Assim que a nação definiu uma estratégia centrada nos CSP, os médicos das unidades de ambulatório passaram a ser retreinados e recertificados, no sentido de adquirirem competências ao nível da MGF. Neste momento, decorre uma fase de formação em grande escala, com vista a preparar melhor estes médicos para os CSP. 

Mas a maioria dos profissionais que estão a treinar novas competências, exerciam no âmbito de especialidades estritamente hospitalares, como Cardiologia, Gastrenterologia, ou outras? 

A maioria dos médicos incluídos nos programas de requalificação já trabalhava em meio de ambulatório. Existe, inclusive, uma lista de especialidades à qual o médico deve pertencer, para poder integrar o programa de formação em MGF. Os cardiologistas, internistas, pediatras e nefrologistas, por exemplo, podem ser objecto de formação com vista a entrarem na MGF. Porém, nesta etapa, alguns especialistas estão excluídos dessa hipótese, nomeadamente os cirurgiões. 

Que tipo de standards foram definidos para esta formação de arranque? 

É delicado falar, neste momento, de standards e de boa qualidade formativa, quando necessitamos de alcançar metas extremamente ambiciosas, num curto espaço de tempo. O compromisso assumido tem, como objectivo fundamental, a existência de um MF para cada 2000 habitantes, até 2011. O que significa que necessitaríamos de formar, até lá, perto de 3000 especialistas. Nos últimos dois anos treinámos perto de 500 MF, no âmbito deste programa especial de requalificação, mas ainda estamos muito longe do número final desejado. Estes médicos são requalificados em contexto de exercício profissional, enquanto trabalham em unidades de ambulatório. Para este enorme esforço contámos, sobretudo, com apoio financeiro de fundos da União Europeia, de um empréstimo do Banco Mundial, assim como com doações de inúmeros países, entre os quais os EUA. 

Ao injectarem estes recursos humanos na MGF, depois de um refrescar de competências, não temem descompensações no sistema? Os profissionais de saúde chegam para as encomendas? 

As nossas grandes policlínicas, que actuavam ao nível ambulatório, tinham médicos a mais no seu staff. Aliás, muitos médicos tinham vindo a perder o seu posto de trabalho nestas instituições, pelo que o problema que menciona não se coloca. 

O Reino Unido tem sido um dos vossos parceiros privilegiados, ajudando a esboçar o programa de formação da especialidade de MGF, agora já para os médicos recém-graduados… 

Sim, através do Department for International Development (DFID), o Reino Unido ajudou, decisivamente, a criar o primeiro currículo de MGF na Geórgia, para todos os médicos recém-graduados que desejam escolher a MGF como saída profissional. Em paralelo, estão a ser gerados os programas de residência clínica em MGF, com a duração de três anos, que terão certamente um nível de sofisticação técnica e pedagógica, nunca antes visto no país. 

Diria, então, que os médicos que terminam os seus cursos na Geórgia têm razões para se sentir atraídos pela MGF? 

O hospital continua a ser muito atractivo para os jovens médicos, em grande medida devido ao factor monetário. Mas é um panorama que esperamos se venha a alterar nos próximos anos. Trata-se, aliás, de um dos papéis que a nossa associação e outros organismos profissionais ou grupos de interesses ligados aos CSP necessitam de desempenhar: a promoção dos valores da especialidade. Temos de conquistar maior influência na decisão dos profissionais. Temos de ser capazes de persuadir os médicos e estudantes de Medicina de que os CSP são importantes, que necessitamos deles para tarefas indispensáveis à evolução da sociedade.  

O que nos pode dizer acerca da reforma dos serviços, propriamente ditos.Não é de esperar que os médicos, agora formados na especialidade de MGF, venham a ocupar as tradicionais policlínicas ou unidades rurais de ambulatório? 

Em muitos casos, as instalações físicas serão as mesmas, mas a tendência é a de uma gradual transformação das policlínicas em Centros de Medicina Familiar. Estes estão organizados de forma diferente, elegendo o MF como figura central. 

Mas já existem centros destes espalhados pelo território? 

Sim, já existem alguns Centros de Medicina Familiar, que nesta fase acumulam também responsabilidades enquanto centros formativos. A fatia de leão do treino que tenho vindo a referir decorre, precisamente, nestas instituições. 

E quanto à iniciativa privada? Nesta fase de transição surgiram empresas ou consultórios privados com interesses na área da Medicina Familiar? 

No período soviético toda a oferta de saúde era gratuita e não existiam agentes privados na Geórgia, nesta ou em qualquer outra área da economia. Por isso, a população não está preparada, de todo, para aceitar uma oferta no campo da prestação directa de cuidados, a troco de pagamento. Por outro lado, os investidores privados mostram apenas interesse, para já, em domínios como os meios de diagnóstico, que podem gerar, nesta fase, receitas relativamente elevadas. Contudo, as orientações e estratégias políticas estão a mudar a grande velocidade, o que gera desestabilização, incerteza. Muitos dos actores económicos preferem esperar para ver. Comenta-se, por exemplo, a possibilidade de se privatizar um número não especificado de novos Centros de Medicina Familiar, ou de centros ambulatórios localizados fora das grandes cidades. Do mesmo modo, também já correram rumores sobre a possibilidade de se financiarem os médicos que trabalham em áreas rurais, no sentido destes instalarem consultórios próprios, junto do seu domicílio. Actualmente, porém, é ainda problemático consultar um médico fora do sistema público, pelo simples facto de que existem muito poucos. 

Abordou o acesso universal e gratuito, oferecido durante o regime soviético. As coisas são agora um pouco diferentes… 

Sim, para a maioria dos cuidados prestados espera-se que o doente pague um determinado valor pelo serviço. O Estado responsabiliza-se pelo pagamento dos serviços apenas em casos específicos, que envolvem patologias muito prevalentes ou grupos de risco, como os doentes cardiovasculares ou os diabéticos. Determinados cuidados prestados à população infantil ou idosa também estão isentos de pagamento. 

O financiamento do sistema de saúde será, suponho, uma preocupação premente? 

Um dos desenvolvimentos mais importantes para o nosso sistema de saúde envolve, precisamente, a criação de um modelo misto de seguro de saúde (com componentes privada e pública) que permita abarcar toda a população. Antigamente, a companhia de seguros pública financiava todos os prestadores de cuidados na Geórgia e todas as despesas de saúde dos cidadãos, mas agora parece inevitável que se abram as portas à entrada de companhias privadas de seguros. No futuro, é provável que o Estado apenas assuma responsabilidade pela prestação de cuidados a grupos vulneráveis, até porque está a ser implementado um programa de combate à pobreza, com forte impacto social no país, esperando-se que através dele a maioria da população consiga obter recursos suficientes para ganhar alguma autonomia nesta matéria. 

Mas a população encara bem essa eventual necessidade de recorrer ao próprio bolso? 

É claro que a maior parte das pessoas olha para esta hipótese com muita desconfiança. De qualquer modo, é preciso notar que os quadros médios e superiores (aliás, todos os georgianos que têm um rendimento acima da média) já estão cobertos por seguros privados. Seja a nível individual, seja por pertencerem a uma empresa que está segurada. O que vai ser complicado é generalizar este modelo a todo o país e a quase todas as classes socioeconómicas. 

Para toda esta dinâmica de reorganização, não é com certeza proveitosa a agitação política e social que a Geórgia tem vivido. Há bem pouco tempo ouvíamos ecos de governos que implodiam, golpes de estado iminentes e receios de uma guerra civil… 

Dou-lhe um exemplo que ilustra bem o que representa a instabilidade na República da Geórgia: no último ano e meio, convivemos com três ministros da Saúde. Isto diz muito da actual situação do país! 

E no meio de todo esse caos, considera que os CSP e o sistema de saúde, como um todo, continuam a ser uma prioridade para os governos? Não serão um elemento decorativo para manifestos políticos? 

Não me parece. Os CSP têm sido declarados, ao mais alto nível, como uma prioridade estratégica, independentemente das políticas sectoriais serem revistas a toda a hora e dos ministros se sucederem.  

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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