Uma incógnita ao virar da esquina
DATA
19/06/2008 15:11:09
AUTOR
Jornal Médico
Uma incógnita ao virar da esquina

Em Março de 1998, o governo croata impôs um prazo de dez anos, para que todos os médicos de clínica geral a exercer no país passassem a trabalhar de acordo com as regras do sector privado.

 

Em Março de 1998, o governo croata impôs um prazo de dez anos, para que todos os médicos de clínica geral a exercer no país passassem a trabalhar de acordo com as regras do sector privado. No final deste ano… A regra será uma realidade. O que se segue? Petric Dragomir, presidente da Associação Croata de Medicina Familiar, não sabe. Para os médicos de família do pequeno país dos Balcãs… O futuro é uma incógnita

 

Jornal Médico de Família – Nos últimos anos, a Croácia foi palco de grandes mudanças. Passaram de um sistema socialista para uma democracia parlamentar. Atravessaram um período de guerra…Como é o que o sistema de saúde respondeu a todas essas alterações em períodos tão difíceis?

 

Petric Dragomir – A partir do momento em que se dissolveu o bloco socialista registou-se um movimento de independência das muitas nações que constituíam a antiga Jugoslávia. Os mais fortes quiseram dominar. Seguiu-se a guerra. O sistema de saúde da antiga Jugoslávia era composto por médicos civis e militares. A maioria era sérvia. Nós tínhamos muito poucos. No entanto, conseguimos organizar-nos perfeitamente e o nosso esforço de guerra traduziu-se em melhores resultados do que aqueles que os americanos obtiveram na guerra do Golfo. Não apenas no que diz respeito ao número de vidas salvas mas, também, à qualidade de vida.

Fomos para a frente de batalha. Ninguém se preocupou com o dinheiro.

Mas depois da guerra, em 1995, verificámos que muitas infra-estruturas tinham sido destruídas e não tínhamos médicos suficientes.

Fomos dos primeiros países a introduzir a especialização de Clínica Geral.

Temos uma tradição de boas ideias mas, infelizmente, não somos como os japoneses que, quando começam algo, acabam. Esse é, talvez, o nosso maior problema. Somos uma nação muito inventiva mas não somos consistentes no que toca a implementar as ideias até ao fim.

Por exemplo, neste momento, estamos a informatizar os Cuidados de Saúde Primários. Desde o dia 1 de Abril é obrigatório utilizar um dos sistemas informáticos aprovados pelo Governo. No início, vão surgir alguns problemas porque muitos médicos vão começar a trabalhar com computador pela primeira vez. A ideia é que todos os médicos tenham acesso a um dos vários programas escolhidos pelo Governo. Vamos ver como as coisas correm…

 

Essa é uma das estratégias do actual governo?

 

É uma das estratégias dos últimos governos. Esse é outro problema: mudamos de governo cada quatro anos e quem vem de novo acha que tudo o que foi feito anteriormente está errado. É incrível, mas iniciamos reformas a cada quatro anos…

 

Isso também acontece muito em Portugal…

 

Estamos a falar da continuidade de cuidados, de como resolver os problemas. Não é possível fazer tudo isso num período de tempo de quatro anos. Mesmo quando é o mesmo partido, muda o ministro. E na Croácia, muitas coisas dependem da personalidade da pessoa que está à frente do Ministério da Saúde.

 

E qual é o ponto da situação da reforma do sistema de saúde, iniciada em 1991, logo após a independência?

 

Depois da guerra, era preciso fazer algo. E rapidamente. Não tínhamos médicos suficientes, nem enfermeiros…. Começámos então a ser remunerados de acordo com um sistema de capitação. O ministro da Saúde fez os cálculos e determinou uma determinada importância por cada utente. Mas o Governo não tinha dinheiro. Teria sido muito mais honesto se começasse por nos pagar menos por cada utente e posteriormente, acertasse as contas connosco…

Entretanto, o sistema de capitação tornou-se um problema enorme. A bola está do lado do utente. É ele quem decide quem é um bom médico e quem não o é.

 

Que número de utentes médio é preconizado pela Associação Croata de Medicina Familiar?

 

A nossa Associação defende que deve existir um número padrão. Nas pequenas vilas ou nas ilhas, por vezes, os médicos têm mais de dois mil utentes. Esse é considerado o limite. Ninguém o deverá ultrapassar.

As listas têm que ser suficientemente grandes para que os médicos consigam sobreviver. Consideramos que 1.700 é um número aceitável. Significa que o médico terá dinheiro suficiente para si próprio, para pagar à enfermeira, fazer formação, adquirir os instrumentos ou os medicamentos de que necessita.

Como pode o médico sobreviver com 1500 utentes? É impossível. O governo acha que devemos ser nós a encontrar os meios. Mas se não tivermos os meios suficientes para sobreviver, teremos que nos submeter a todas as imposições das companhias seguradoras ou do Governo…E esse não é o caminho correcto.

Compreenda…Tenho 54 anos…Obviamente que trabalhei como médico durante o regime socialista. Não era tudo mau, da mesma maneira que nem tudo era bom…Para mim, como professor universitário, dever-se-iam ter tido em conta as coisas positivas e mudar apenas as negativas. Mas os políticos gostam de mudar tudo e começar do zero!

Há cinco anos, pela primeira vez, decidiram introduzir, não apenas o pagamento por capitação, mas também uma taxa de serviço. É uma quantia pequena, mas representa um grande passo porque, pela primeira vez, os médicos que querem trabalhar melhor podem fazê-lo. Anteriormente, se quisesse dar uma vacina, por exemplo, tinha que ser eu a pagá-la.

 

Desde quando é que passaram a trabalhar de acordo com um sistema de prestação de serviços privado?

 

A partir de Março de 1998. Foi uma loucura! Os médicos não são diferentes dos jornalistas ou dos engenheiros. Nem todos são capazes de constituir a sua própria empresa. Têm que lidar com pagamentos, remunerações, recursos humanos…A maioria não quereria… Nós fomos obrigados a fazê-lo há dez anos.

 

É possível mudar o sistema?

 

Não sabemos. O novo ministro da Saúde afirmou recentemente que os Cuidados de Saúde Primários são “o problema do sistema”. Inventou milhões de euros para os hospitais, enquanto que o orçamento para os Cuidados de Saúde Primários continua a ser igual ao do ano passado. Tem que retirar aquele dinheiro de algum lado… E nós somos o resto do sistema. Ou seja, vamos ter que fazer mais por menos dinheiro e existe, naturalmente, a tentação de enviar cada vez mais pacientes para os Cuidados Secundários.

Há países da Europa em que as pessoas sabem desde o início que, se quiserem ser médicos de família, terão que exercer no privado. Quando escolhem a especialidade, já sabem como vão lidar com a situação. Na Croácia, fomos obrigados a isso. No prazo de um ano!

 

Essa medida tinha um prazo: dez anos. O que é que vai acontecer no final de 2008?

 

Não sabemos!

 

De acordo com o relatório do Observatório Europeu de Sistemas e Políticas da Saúde sobre a Croácia, até 2015 todos os clínicos gerais que actualmente trabalham nos cuidados de saúde primários terão que especializar-se em Medicina Familiar. Como está a decorrer o processo?

 

Penso que vamos conseguir atingir esse objectivo antes de 2015. Temos mais de cem orientadores de formação. Penso que até 2012 seremos capazes de proporcionar formação a todos os médicos que ainda não a possuem. Mas, mais uma vez, temos um problema: estamos a dar formação àqueles que têm 50 ou 60 anos…E os jovens recém-licenciados? O caso é que o Governo não quer tornar a especialização obrigatória para todos aqueles que pretendam trabalhar nos cuidados de saúde primários. Do ponto de vista da nossa Associação, o Internato deveria ser obrigatório. Mas não estamos a ter êxito.

 

Quanto dura o Internato? Os médicos recebem algum tipo de remuneração?

 

Três anos. A questão é que, parte dessa formação pós-graduada tem que ser paga pelos próprios médicos, enquanto que, em todas as outras especialidades, o Internato é pago pelo Governo.

Pode parecer que não é muito: cerca de dois mil euros. Mas, tendo em conta os nossos salários, também não é assim tão pouco…

Sobretudo, a grande questão que se põe é: porque é que não existem critérios iguais? Se ninguém mais paga a formação específica, porquê nós?

Estamos a tentar mudar a forma como as coisas funcionam mas é difícil, dada a burocracia do sistema. Além disso, o novo ministro da Saúde tem ideias… Um pouco estranhas…

 

Estranhas, como?

 

Na era socialista, quando não se queria resolver um problema, criava-se uma comissão. Falavam, falavam…e não decidiam nada! Mas, por outro lado, ninguém é tão inteligente ao ponto de saber tudo. Temos que trabalhar em equipa. O actual ministro da Saúde pensa que não: ele é que decide e faz as reformas; nós devemos obedecer…Estamos todos à espera de ver o que se segue…

A Croácia pretende integrar União Europeia. Para o governo, neste momento, somos pouco importantes. Na realidade, a sua primeira preocupação incide sobre outras áreas que dão emprego a milhares de pessoas. Todavia, este é um momento crucial para nós. Não podemos ser postos de parte.

 

Quais são os principais reivindicações da vossa Associação?

 

O mais importante, não só na Croácia mas em toda a Europa, é que o Internato seja obrigatório para todos os médicos que pretendam trabalhar nos cuidados de saúde primários. Hoje, para ser médico de família não se requer nenhuma formação específica. Um médico hospitalar, por exemplo, pode decidir, depois de uma carreira de 30 anos nos Cuidados de Saúde Secundários, ir trabalhar nos CSP. Queremos uma especialização que nos garanta uma diferenciação em relação às outras especialidades.

Por outro lado, estamos muito preocupados com a situação financeira dos colegas, especialmente daqueles que trabalham na província. É uma situação muito estranha: somos privados, no sentido em que temos que pagar impostos, contas e ordenados mas, por outro lado, estamos inteiramente dependentes do pagamento por capitação. Se não posso influenciar os meus rendimentos, como posso gerir os meus resultados? Em suma, não somos realmente privados…

 

As crianças e os jovens são da responsabilidade de quem?

 

Esse é outro problema. Nos cuidados de saúde primários croatas, além de clínicos gerais, trabalham também pediatras e ginecologistas. É semelhante ao sistema eslovaco e checo.

Os clínicos gerais que são especialistas, como é o meu caso, são autorizados a ter crianças e jovens na consulta, se quiserem. Em contrapartida, aqueles que não têm a especialidade de Clínica Geral não o podem fazer.

Quanto aos ginecologistas, não há razão para integrarem os cuidados de saúde primários, mas é já uma tradição e será difícil mudá-la. Enquanto que, relativamente aos pediatras, não vejo problema algum, na medida em que depois de realizarmos a especialização, podemos ocupar-nos das crianças e dos jovens, em relação aos ginecologias, já não vejo a situação tão clara. Penso que continuarão a fazer parte dos cuidados de saúde primários.

 

Gostariam de voltar a trabalhar nos centros de saúde, como antigamente?

 

A tradição dos centros de saúde vem do socialismo e está associada a muita burocracia, com muita gente a controlar…No final da era socialista, a situação era inacreditável. Nos centros de saúde, havia um funcionário para cada médico. Eram mais os que controlavam do que os que prestavam cuidados de saúde…Agora, estamos a tentar introduzir aquilo que poderíamos denominar de “centros comunitários de práticas de grupo”. Os médicos, em conjunto com as enfermeiras, devem poder cuidar dos doentes e das suas famílias. Mas em situações concretas, como no caso de uma epidemia de gripe, por exemplo, o trabalho terá que ser coordenado.

É provável que, no futuro, os médicos voltem a trabalhar em grupo. No entanto, não lhes poderemos chamar “centros de saúde”… É que o nome traz-nos à memória tão más recordações!...

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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