No Down Hill… é tudo ou nada
DATA
19/06/2008 13:17:35
AUTOR
Jornal Médico
No Down Hill… é tudo ou nada

Os pilotos saem a cada 30 segundos. O circuito é alucinante... . A prova de Down Hill dura entre dois e meio a quatro minutos. Para ganhar, o Médico de Família David Costa sabe que cada milésima de segundo conta

Reportagem_David Costa_01.jpg

Os pilotos saem a cada 30 segundos. O circuito é alucinante, a velocidade vertiginosa, os obstáculos impossíveis... No gate, tenta-se controlar a taquicardia que antecede a partida. A prova de Down Hill dura entre dois e meio a quatro minutos. Para ganhar, David Costa sabe que cada milésima de segundo conta. Pelo caminho, os aplausos e os gritos da multidão fazem subir a adrenalina ao máximo. Os saltos são espectaculares. Naquele percurso de três quilómetros… é tudo ou nada...

 

David Costa, médico de família da USF Lavra, do Centro de Saúde de Leça da Palmeira, da Unidade Local de Saúde (ULS) de Matosinhos, começou a fazer ciclismo de estrada e também de montanha desde muito jovem. Nos últimos anos, dedicou-se à modalidade de Down Hill, provas mais curtas e com uma exigência física menor, mas tão ou mais espectaculares que o BTT.

A fase do Down Hill começou em 1998. Correu com o irmão, o José Costa, para vários clubes, até que este o desafiou a criar uma equipa com gente lá da terra. Foi assim que surgiu a Associação Recreativa de Paradela – Concelho da Trofa, cujas vertentes principais são o futebol e o Down Hill. A equipa já vai com dez anos e muitos troféus arrecadados. Inclui elementos juniores (entre os 16 e os 18 anos) elite (até aos 39) e masters (após os 40).

O início não foi fácil, até porque é um desporto que requer um investimento importante. O preço de uma bicicleta de topo oscila entre cinco mil a 7.500 euros e as provas implicam muito desgaste e reposição de material. “Estamos a falar de terrenos muito acidentados, com muitas quedas, condicionadas pelas características do terreno”, explica o médico. Uma bicicleta pode durar várias temporadas mas, por ano, é preciso contar com um mínimo de 500 euros para correntes e pneus. Se o problema for a suspensão, são mais 1.500...e os travões ficam à volta de 600...

Acresce ainda os fatos de protecção dos pilotos, muito semelhantes aos do motocross. Nisso, a Federação Portuguesa de Ciclismo é muito rigorosa: capacete integral, óculos, safety jacket (que engloba protecção dos ombros, cotovelos, antebraços, peito, coluna e cinta), joelheiras e calças do tipo motocross que, embora não sejam obrigatórias, são de tecido resistente à fricção.

Numa competição o que não falta são quedas. Nalguns casos, verdadeiramente espectaculares. Apesar disso, na opinião do piloto, “o Down Hill é, talvez, na área do ciclismo, a modalidade em que há menos quedas graves”.

Nas provas participam, em média, cerca de 400 pilotos. Aos sábados fazem descidas em treinos livres. Aos domingos de manhã realizam duas descidas em treino limitado e à tarde, duas descidas por prova. Isso significa entre quatro a cinco milhares de passagens e uma média de 400 a 500 quedas, “sem exagero”.

No início, cai-se menos. “Somos mais cautelosos...não arriscamos tanto mas, a partir do terceiro ano, o caso muda de figura”.

Na categoria de masters, a média volta a diminuir. Mesmo assim, de vez em quando, “apareço lá em casa com umas costelas partidas, rotura de ligamentos ou um capacete desfeito”. Durante a prova, ou na fase de preparação, é muito difícil não cair, “mesmo para os mais velhos, onde para os quais a técnica começa a substituir o gosto pelo risco intenso”.

 

Muita adrenalina encosta abaixo

 

Reportagem_David Costa_02.jpgNo Down Hill, os pilotos correm em campo aberto. Quanto muito, há uma delimitação da trajectória mas, de resto, o terreno não é objecto de preparação especial e, “por paradoxal que pareça, está bastante melhor antes de se começar a descer. Com a passagem dos pilotos, 10 a 12 vezes num fim-de-semana, acaba extremamente degradado”. Mas isso não interessa. O que conta é a dificuldade, a quota de inclinação, os obstáculos...que, por vezes, implicam saltos de três metros de altura sobre ribeiros e estradas com quatro a cinco metros de largo. “Para quem nos observa, é uma modalidade aliciante, muito semelhante às passagens dos rallies”.

No Down Hill os atletas sucedem-se cada 30 segundos, a uma velocidade que pode ultrapassar os 90 Kms/hora. “E caem muitas vezes, o que também é interessante para o público”.

A prova “é feita no limite”. Cronometrada com células fotoeléctricas (idênticas às que são utilizadas nas provas de automobilismo) cada milésimo de segundo conta.

 

Taquicardia no gate

 

Ao longo dos anos, David Costa foi alterando a sua maneira de abordar as provas. Houve um tempo em que era uma ansiedade que não se aguentava: “ficamos presos no gate até ao momento da saída. Aí, é meio minuto para nos prepararmos e baixar os óculos. Depois da partida, é preciso dar o máximo...”. Quando era mais novo na modalidade, “ cometia muitas vezes o erro de fazer uma saída com muita força e pouca cabeça”. Ora, “quando cometemos um erro e caímos, perdemos a concentração e é certo e sabido que, logo a seguir, iremos cair mais vezes”.

Agora, as coisas já são diferentes: “a idade também conta.

Já não sinto aquela ansiedade tão grande da partida, analiso melhor as provas e protejo-me mais, até porque faço isto, sobretudo, para me divertir”. Apesar disso, o esforço é intenso. Exige muita força de braços e pernas, equilíbrio, técnica e agilidade na condução. “Aliás, foi também o prazer da condução que me puxou para o Down Hill”.

 

Debaixo de um Citroen AX

 

Há descidas que deixam marca: “há cerca de dez anos, em Sabrosa, numa pista entre eucaliptos, pedras soltas e buracos, atingimos 93 Km/hora”. E quando as coisas correm mal, à posteriori até podem ter graça, mas na altura dói! Se bem que não haja conhecimento de sequelas permanentes, é um desporto que implica perigo, embora “menor que no ciclismo de estrada, onde o indivíduo é projectado contra o alcatrão”.

No Down Hill, à semelhança do motocross, “o piloto derrapa e bate contra vários obstáculos, mas vai perdendo energia na queda”.

Foi o que aconteceu a David Costa, há uns anos, na Madeira: “tínhamos que saltar de um monte para outro. No meio, estava a estrada nacional. Alguns pilotos nem lhe tocavam. Agarravam a outra encosta directamente. Quando chegou a minha vez, recordo que havia um polícia e um bombeiro, junto de uma barraca de farturas, a controlar o trânsito. Não me devem ter visto, senão não teriam mandado avançar aquele Citroen AX...Já vinha no ar quando me apercebi do carro. Esbarrei contra o pára-choques, parti-lhe os faróis, passei por baixo...Uma senhora saiu de lá de dentro aos gritos...E eu, sem um arranhão!...”.

Ele há cada coisa! Outra vez, na Lousã, onde a terra é de xisto e de argila, em vez de descerem, os pilotos deslizavam...envolvidos pelo nevoeiro. Na Penha, em Guimarães, os pilotos atravessam a estrada sem lhe tocarem, em saltos de dois a três metros de altura e, na Madeira, os terrenos são igualmente propícios a provas espectaculares.

O problema é se o cálculo da trajectória corre mal. E há ainda situações em que, ou se passa de bicicleta...ou não se passa! Como daquela vez, em Sesimbra – já para lá vão uns oito anos – em que um colega, com receio de estragar a bicicleta nova, decidiu passar a pé. Só que o terreno tinha uma inclinação tal que caiu de imediato. Acabou com uma luxação no ombro. “Foi uma das lesões mais graves da prova e com a bicicleta na mão!”.

 

Associação já tem dois campeões nacionais

 

Muitos dos fins-de-semana dos pilotos são passados em treinos ou na Taça Nacional, que envolve sete a oito provas em várias zonas do país. Já o Campeonato, resolve-se com uma única prova. David Costa e o irmão fazem parte do grupo dos pioneiros. “Interessei-me pelo Down Hill pelo facto de decorrer na montanha e não na estrada, onde há histórias de acidentes gravíssimos, com atropelamentos e mortes, além de poder despender as minhas energias em sítios mais calmos”.

A Associação conta com alguns apoios, o que diminui o investimento dos atletas. É o caso da Câmara Municipal da Trofa e de algumas empresas da zona. Sem contar com a colaboração dos carolas da Associação e o arraial, em honra de São Pedro, o patrono de Paradela. “Realizam-se algumas actividades lúdicas e montam-se umas barraquinhas de comes e bebes, cujo lucro reverte para o clube”.

Mesmo assim, as coisas não andam nada fáceis. Contrariamente àquilo que aconteceu durante muitos anos, a Federação Portuguesa de Ciclismo passou a cobrar uma taxa de inscrição de 15 euros por atleta. Tendo em conta que a Associação, em representação do concelho de Trofa, tem uma média de 10 pilotos a correr nas nove provas da Taça e do Campeonato, é preciso aviar muitas bifanas...

Mas, contas feitas, o saldo não é nada mau: a Associação já tem no seu palmarés um terceiro lugar no campeonato nacional; uma campeã nacional de juniores e um campeão nacional de masters, além de ter vencido, por várias vezes, o campeonato regional do Minho.

Nos campeonatos, vêem-se algumas mulheres. Entre 10 a 15, o que David Costa considera “fantástico”. A Associação Recreativa de Paradela também costuma ter sempre um elemento feminino, geralmente da classe dos juniores. Habitualmente, depois dos 18 anos desistem. David Costa adianta uma hipótese: não se devem achar nada bonitas, cheias de arranhões e nódoas negras, além de que as provas implicam uma logística complicada aos fins-de-semana. “As equipas pobres, como a nossa, saem na Sexta-feira à noite, em caravanas. Mas há outras, já com alguma estrutura profissional e apoio das marcas, que saem à terça-feira”.

No caso da Associação Recreativa de Paradela, só uma vez, “que me lembre”, saíram à Quinta-feira. Foi em 2005, no Campeonato Nacional. “Tínhamos um master com possibilidade de vencer e decidimos sair mais cedo para preparar a prova”. O percurso era um pouco mais longo – cerca de 6 mil metros. “Fotografámos toda a pista e analisámos cada uma das passagens mas foi a única vez que tivemos tanto tempo para nos prepararmos e trocar impressões uns com os outros”. Perderam por dois segundos e isso ainda “custou mais” porque, naquela ocasião, envolveu mais preparação e análise do terreno.

 

Juniores querem arriscar e brilhar

 

Regra geral, a equipa reúne-se no Sábado à noite, depois do jantar, e discute as melhores estratégias para ultrapassar os obstáculos. “Muitos dos nossos desportistas são estudantes e, por vezes, é difícil fazer compreender a um rapaz de 18 anos, cheio de força, ávido de aplausos, que a única coisa que conta é o relógio, à partida e à chegada”.

Querem arriscar e brilhar. “Compreendo-os perfeitamente porque já passei por isso – embora não tivesse propriamente 18 anos”, diz o médico. Mas, “ao fazermos manobras mais arriscadas e mais espectaculares, perdemos rapidez. Não vale a pena ficarmos à espera dos aplausos e dos gritos porque perdemos tempo e o que conta é a eficácia”.

Neste desporto, “há duas ideias fundamentais, tal como na Medicina: a eficácia e a relação custo/benefício. Quando existe um obstáculo que implica muito perigo, o nosso conselho é que o façam sem arriscar porque, na Segunda-feira seguinte, eles têm que voltar para as aulas e nós temos que ir trabalhar”.

 

Pais e filhos a correrem juntos

 

Para além do desporto em si, a modalidade de Down Hill tem uma característica interessante: na mesma pista correm pilotos de várias gerações. “Ainda não encontrei avós e netos mas há pais que levam os filhos consigo desde pequenos e agora já correm lado a lado”. No caso de David Costa, ainda é cedo. O filho tem apenas sete anos e a idade mínima para participar é 16. Mas acompanha-o “desde que largou as fraldas”. Aliás, é muito normal que os pilotos levem a família. Talvez por isso, o ambiente é de grande camaradagem, mesmo entre equipas rivais. “Trocamos impressões e ajudamo-nos uns aos outros, num clima de competição bastante saudável”.

Todos se preparam para a prova. E todos sabem que vai ser dura. Por isso, “no momento da saída, já tenho decidido o que vou fazer. Inventar ou mudar de atitude a meio da pista dá quase sempre mau resultado”.

É tal qual como na vida, diz o médico: “fazer coisas para as quais não se está devidamente preparado, normalmente não resulta. Sei que vou andar três ou quatro minutos no máximo da frequência cardíaca, de esforço e de concentração. Gostaria de fazer tudo bem, mas sei que, provavelmente, isso não irá acontecer.

Da próxima vez, tento fazer melhor...”.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

Mais lidas