Autarca investe contra médicos veteranos
DATA
19/06/2008 14:33:00
AUTOR
Jornal Médico
Autarca investe contra médicos veteranos

O presidente da junta de freguesia, diz que tudo vai mal. O director da unidade contesta, e até arrisca  que a polémica instalada reflecte, apenas e só, alguma dose de impaciência pré-eleitoral

 

O presidente da Junta de Freguesia de Coja, João Rodrigues Oliveira, escreveu uma carta à ministra da Saúde, com conhecimento ao primeiro-ministro e líderes das bancadas parlamentares na Assembleia da República, relatando o que considera ser uma situação insuportável, vivida naquela extensão do Centro de Saúde de Arganil. De acordo com declarações prestadas pelo autarca ao Diário de Coimbra, há utentes que se deslocam às três da madrugada para a extensão, para garantir consulta. Já para o director do Centro de Saúde de Arganil não restam dúvidas de que a população está satisfeita. Carlos Maia Teixeira afirma que tudo tem sido feito, ao nível de instalações, transportes e organização funcional, no sentido de oferecer às gentes de Coja os cuidados a que têm direito. O director da unidade arrisca até que a polémica instalada reflecte, apenas e só, alguma dose de impaciência pré-eleitoral

 

Embora o presidente da Junta de Freguesia de Coja admita, sem grandes reservas, que a qualidade dos serviços clínicos prestados naquela localidade do distrito de Coimbra é positiva, não deixa de reprovar a forma como é gerido o agendamento das consultas na extensão de saúde local. João Oliveira garante mesmo que no início de cada mês se concentram dezenas de utentes à porta da extensão, pelas 08h00 da manhã. 

“Podem-nos dizer que há falta de médicos – e até pode ser verdade – mas em nosso entender trata-se de um problema de gestão”, assegurou João Oliveira ao Diário de Coimbra.

O responsável pela junta de freguesia garantiu ainda que as marcações de consultas são realizadas uma vez por mês, no primeiro dia útil, um processo que considera de eficácia duvidosa. João Oliveira avalia a situação actual como uma “calamidade social”, argumento que baste para que a junta de freguesia tenha tomado medidas extraordinárias. Nomeadamente, com recurso à construção de um espaço anexo à extensão, utilizado pelos utentes enquanto esperam pela abertura de portas. Na missiva endereçada a Ana Jorge, o autarca chega mesmo a oferecer-se para gerir a unidade de saúde, uma vez que considera que a junta teria melhores condições para rentabilizar os meios disponibilizados pela administração central.

 

Director do CS de Arganil estranha agitação

 

Contactado pelo nosso jornal, o director do CS de Arganil – Carlos Maia Teixeira – refere que não existem fundamentos de qualquer espécie para estes reparos, mostrando-se surpreendido com o tempo escolhido para este ataque virulento: “os dois colegas que trabalham em Coja estão na povoação há 29 e 25 anos, sendo imensamente respeitados pela população. Durante todo este tempo, o colega a que o senhor presidente da junta se refere sempre efectuou agendamento programado no primeiro dia útil de cada mês, para o mês seguinte, a que acrescem as muitas consultas do dia. Até agora, tal facto nunca tinha sido suscitado qualquer problema”. Assim, no entender do director da unidade, tudo não passa de um “exagero”, vindo de alguém que pressente eleições no horizonte e que “não tem obra para mostrar. Trata-se de procura de visibilidade, pura e simples, à custa de dois colegas cujo trabalho honrado não merecia esta provocação”.

Sobre a metodologia de agendamento mensal escolhida por um dos médicos de Coja, Carlos Maia Teixeira relembra que o seu colega acumula múltiplas responsabilidades, assumindo, não só a realização das ditas consultas programadas não urgentes, como consultas do dia, trabalho ao nível do Projecto de Intervenção Precoce, uma consulta de Telemedicina centrada na especialidade de Endocrinologia e ainda deveres no campo formativo. “Com todas estas responsabilidades em cima, é fantástico que ainda consiga dar resposta a todos os seus doentes. Acresce ainda que muitas pessoas, oriundas de outras extensões, se deslocam até Coja precisamente porque preferem ser consultadas por ele”, realça Carlos Maia Teixeira.

 

Autocarro traz e leva doentes

 

O director do CS de Arganil acredita que o autarca de Coja lançou uma cortina de fumo para esconder o que se torna evidente: “tentou pegar nesta questão do agendamento, e no facto de alguns grandes consumidores de consultas se levantarem mais cedo, porque não tem argumentos alternativos. A Extensão de Coja é exemplar a nível nacional, apresentando neste momento condições de trabalho e de acolhimento excepcionais. Chega a ser ridículo que se tenha construído um telheiro ao lado, provavelmente sem qualquer tipo de licença”.

Carlos Maia Teixeira lembra que ambos os médicos que trabalham em Coja possuem 1500 utentes em lista, garantindo períodos de consulta de segunda a sexta-feira. Não existem, aliás, utentes a descoberto na região.

O responsável da unidade recorda ainda outros benefícios gerados para a população: “arrancámos com um serviço pioneiro, logo em 1997. De facto, não serão muitos os locais do país em que se disponibiliza um autocarro para trazer as pessoas à extensão e depois levá-las a casa, como sucede hoje em Coja”.

De acordo com Carlos Maia Teixeira, o trabalho realizado pela sua direcção está à vista de todos e merece o devido respeito: “onde está instalado o único Serviço de Urgência Básica do distrito de Coimbra? Em Arganil. Onde se têm feito investimentos fundamentais em áreas como a radiologia, internamento ou laboratório de análises clínicas. Aqui, precisamente. Onde estão disponíveis diversas consultas de telemedicina e um programa inovador que permite seguir doentes com DPOC no centro de saúde? Nada disto parece ter sido observado pelo senhor presidente da junta”.

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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