O insustentável peso do disparate
DATA
02/07/2008 02:28:07
AUTOR
Jornal Médico
O insustentável peso do disparate

“ … com uma casa tão cheia de parvoíces, não queria abrir a boca para juntar mais alguma.” Graham Joyce – “Os factos da vida”

“ … com uma casa tão cheia de parvoíces, não queria abrir a boca para juntar mais alguma.”
Graham Joyce – “Os factos da vida”

 

Leu a carta, manuscrita com letra legível e razoável português, com a bochecha apoiada no punho direito, fechado, e o cotovelo apoiado na secretária. Dirigida ao director do Centro de Saúde, a familiar dum idoso acamado e muito dependente (presumia-se sem favor, que sujeito a demasiado sofrimento) solicitava um médico para este doente que há anos perdera o seu médico de família. Em baixo a anotação manuscrita e “à consideração do Dr.…”, assinada pelo director (*). Em jeito de súplica, pensou para si.

Pousou a carta, libertou a mão direita da função de pilar da cabeça e, em pronação, esticou os dedos sobre os vários impressos que jaziam nesse lado da secretária e foi-os espalhando com movimento lento: Lei n.º 49/2007 de 31 de Agosto de 2007- Normas para a detenção, criação e treino de animais perigosos ou potencialmente perigosos. Artigo 3.º, nº2 — Para a obtenção da licença referida no número anterior o detentor tem de ser maior de idade e deve entregar na junta de freguesia respectiva, alínea c) Atestado de capacidade física e psíquica para detenção de cães perigosos ou potencialmente perigosos, em termos a regulamentar pelo Governo (*) – “uma imbecilidade” suspirou. Fincou o cotovelo esquerdo no tampo, apontou o antebraço na vertical, esticou os segundo e terceiros dedos ao longo da face, o polegar em ângulo recto foi-se acomodar sob o queixo e os dois restantes, semi-flectidos, ficaram-se pelo mento. Decreto-Lei nº 542/79 DR Nº 300 I 31-12-1979 Estatuto dos Jardins-de-Infância Art. 22ª, nº4, alínea d) Declaração médica referindo que a criança não sofre de doença infecto-contagiosa e que a criança é ou não portadora de qualquer deficiência (*) – legitimado pela recente contestação da própria Sociedade Portuguesa de Pediatria qualificou-a com severidade: uma idiotice obsoleta. Atestado Médico para as funções de Sapador Florestal nos termos do artigo 2º do D.L. n.º 38/2006, de 20 de Fevereiro, a ser passado pelo médico de família. Obrigatoriamente, depreende-se. Pelo menos houvera o bom senso de incluir alguns parâmetros de avaliação, considerou. E os pré-requisitos para o ensino superior – uma chachada.

A mão mudou de lugar e foi esfregar a testa. Havia mais, muitos mais. Os olhos desviaram-se, como que atraídos pela estante dos livros, onde a lombada mais apelativa se evidenciou: “A Brincadeira” – Milan Kundera. A mão contornou a cabeça de frente para trás, quase despenteando os escassos cabelos e regressou à face para se imobilizar em frente à boca, os dedos todos juntos. Os médicos de família não abundam (virtualmente ninguém o nega), contudo a tutela não tem pejo em multiplicar o trabalho burocrático, misturando documentos de importância indubitável com simples patetices, numa orgia caótica própria dum filme dos irmãos Marx. Depois a sociedade civil secunda, com uma alegria frenética, este delírio do Estado: qualquer bicho careta se arroga o direito de exigir uma declaração médica por dá cá aquela palha. Atestados para taxistas, escuteiros, seguranças, etc., etc. ...

Da aparelhagem de som emergia a voz do coro dos anciãos de Catuli Carmina de Carl Orff: “O res ridícula! Immensa stultitia” (**).

As mãos encontraram-se, as polpas dos dedos tocaram-se e juntaram-se palma com palma, em posição de prece frente ao rosto. Os polegares quedaram-se sob o queixo e os indicadores subiram até ao nariz, cuja ponta elevaram discretamente. Os olhos prenderam-se por instantes na lombada seguinte: “A nave dos loucos” de Katherine Anne Porter. Efectivamente, em tempo de escassez de mão-de-obra, seria de esperar que concentrassem o labor dos médicos em tarefas de alto valor acrescentado (tratar doentes, por exemplo), nunca em procedimentos secundários ou de utilidade nula. Mas a rainha de copas insiste em inventar jogos fúteis.

Meditava sobre os papéis jazentes na secretária quando se apercebeu do paradoxo sinistro. Por um lado pediam-lhe (quase imploravam) que tomasse conta duma doente acamada. Por outro, impunham-lhe a emissão de declarações, a maioria delas idiotas.

Neste SNS, os papeluchos toscos tornaram-se mais importantes que as pessoas sem médico de família.

Ocorreu-lhe “A Náusea” de Sartre. Perderam a noção das prioridades e do decoro, concluiu.

Retirou os óculos com a mão esquerda e depois o antebraço trouxe-a até à secretária onde repousou. O indicador e polegar da direita, em pinça, apertaram levemente os lados do nariz ao nível dos olhos que se fecharam, com vigor, enrodilhando as pálpebras. A Sra. Ministra havia respondido com alguma ambiguidade ao protesto da FNAM sobre as transcrições – verdadeiro acto de racket burocrático. Revelou então o pendor para com o lóbi hospitalocêntrico. Se não, atente-se nesta pérola inserta na Circular Informativa nº 2 da ACSS: “a referência (?) para os centros de saúde deve ter lugar nos casos de haver benefício, em termos de comodidade, para o utente”. Comodidade para o doente? Comodidade é evitar-lhe uma ida desnecessária ao centro de saúde apenas para trocar um papel por outro e, claro está, cambiar os pagadores da factura.

Vagueou o olhar até se fincar num artigo de jornal que dava conta da preocupação da Sra. Ministra com a saída de médicos do SNS, mas augurando ao mesmo tempo o seu regresso.

Dos altifalantes, em tom imperativo o coro de Catuli proferia: “Audite ac videte!” (***) e ele matutou, com a liberalidade de linguagem própria de quem guarda os pensamentos adentro dos limites da abóbada craniana: “bem podes esperar sentada! Só se ensandecerem! O SNS faz lembrar um filme de Jean-Luc Godart ou do Fellini. E fitas destas só na tela”.

As mãos desistiram das deambulações crânio-faciais e encaminharam-se para os apoios da cadeira, onde se firmaram para o ajudar a levantar. Ainda olhou de soslaio para uma reprodução das “Tentações de Santo Antão” de Bosh, mas resolveu sair do escritório.

 

Acácio Gouveia

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(*) facto ou documento verídico

(**) “Oh coisa ridícula! Enorme disparate”

(***) “Ouçam e vejam”

 

MGF 2020-30: Desafios e oportunidades
Editorial | Gil Correia
MGF 2020-30: Desafios e oportunidades

Em março de 2020 vivemos a ilusão de que algumas semanas de confinamento nos libertariam para um futuro sem Covid-19. No resto do ano acreditámos que em 2021 a realidade voltaria. Mas, por definição, a crise é uma mudança de paradigma. O normal mudou. Importa que a Medicina Geral e Familiar se adapte e aproveite as oportunidades criadas. A Telemedicina, a desburocratização e um ambiente de informação, amigável flexível e unificado são áreas que me parecem fulcrais na projeção da MGF no futuro.

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