Sobre o texto “Tiros nos pés”, mensagem do deputado João Semedo, do Bloco de Esquerda.
DATA
01/07/2008 10:51:44
AUTOR
Jornal Médico
Sobre o texto “Tiros nos pés”, mensagem do deputado João Semedo, do Bloco de Esquerda.

Primeiras, mas breves palavras, para registar e agradecer o relevo que dá à minha vida política e à intervenção do BE. Grato, também, pela atenção com que acompanha uma e outra. Infelizmente, atenção não significa discernimento...

 

Sobre o texto “Tiros nos pés”, recebemos, com pedido de publicação, a seguinte mensagem do deputado João Semedo, do Bloco de Esquerda.

 

Primeiras, mas breves palavras, para registar e agradecer o relevo que dá à minha vida política e à intervenção do BE. Grato, também, pela atenção com que acompanha uma e outra. Infelizmente, atenção não significa discernimento.

Eu sei que o Jornal Médico de Família é um jornal muito particular. Quem é o dono, quem manda, quem paga, quem lê, quem anuncia, enfim, tudo isto distingue o JMF dos jornais que habitualmente lemos.

Mas estas diferenças não devem significar nem desculpar menos respeito pelos valores da objectividade e pluralidade informativas.

Os leitores ficaram a conhecer a sua opinião. Mas não a minha. Por isso, desafio-o a publicar na íntegra os requerimentos que apresentei enquanto deputado à Assembleia da República sobre os assuntos a que se refere.

E, depois, deixemos os seus leitores julgar livremente quem “atira pedras”, quem faz “campanhas contra”, que “malta não se enxerga”, quem “conquista benefícios” e quem dispara “tiros nos pés”, tomando por empréstimo as suas expressões, que não cabem no meu vocabulário.

Por último, permito-me sublinhar uma diferença que nos distingue: eu, como qualquer outro deputado, devo defender o interesse público. É esse o principal compromisso de um deputado. É outro o compromisso do director do JMF: deve defender o interesse particular de quem serve e lhe paga. Esta diferença faz toda a diferença.

Os meus cumprimentos.

 João Semedo

 

Nota da Direcção:

 

Enviou-me o deputado João Semedo, para publicação, a nota que se transcreve nesta página. Sobre a mesma, surge-me relevante esclarecer o autor sobre algumas convicções que cultiva sobre o Jornal Médico de Família. Erradas…

1) Diz João Semedo: “Eu sei que o Jornal Médico de Família é um jornal muito particular. Quem é o dono, quem manda, quem paga, quem lê, quem anuncia, enfim, tudo isto distingue o JMF dos jornais que habitualmente lemos”.

a) É verdade. O nosso jornal, sobre todos os aspectos referidos é, no mínimo, um caso invulgar no universo da imprensa portuguesa. Se não, vejamos:

b) É propriedade da empresa VFBM, Comunicação, Lda. cujo capital social pertence, integralmente, a jornalistas profissionais, um dos quais, o seu director. O que é extremamente raro, como certamente o próprio deputado João Semedo reconhecerá. Olhando a imprensa portuguesa dita de referência – presumo que é a ela que o deputado João Semedo se refere quando fala de “jornais que habitualmente lemos”, facilmente poderemos verificar que a maioria dos títulos é detida – como negócio periférico – por grandes empresários da área da distribuição alimentar, banca, celulose, futebol…

c) Quem “manda” no JMF, como é óbvio, é o seu director. É da natureza das coisas ser assim... Até porque é o Director o responsável por tudo o que se publica; quem responde em juízo sempre que alguém decide accionar uma qualquer acção judicial contra o Jornal.

E aqui, importa também esclarecer outra dúvida, implícita no texto de João Semedo. O facto do JMF ser órgão oficial da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG), não belisca a sua independência. Nunca recebemos, da actual ou das anteriores direcções da APMCG, qualquer indicação sobre os conteúdos editoriais. Nem tal poderia acontecer, uma vez que esse tipo de pressão – ou qualquer outro – seria incompatível com os deveres ético-deontológicos do exercício do jornalismo.

d) Quem paga o JMF são os anunciantes e os assinantes. Principalmente os primeiros. Infelizmente é assim. Mas é assim, quer para o JMF, quer para os demais órgãos de comunicação social portugueses, generalistas e especializados.

e) Os leitores do JMF integram um universo com grupos perfeitamente identificáveis. Os nossos leitores são, maioritariamente, médicos de família. Mas também temos políticos (o BE recebe todas as quinzenas, religiosamente, um exemplar do nosso jornal), jornalistas, alunos de cursos de saúde, responsáveis do sector…

Infelizmente temos uma audiência limitada, mercê de uma lei estúpida – que nunca vi o senhor Deputado João Semedo, ou qualquer outro, pôr em causa - que impede que os jornais e revistas médicos sejam distribuídos ao público em geral.

f) Quem anuncia no JMF são, quase só, empresas da indústria farmacêutica. É assim no JMF, como o é no Lancet, no BMJ, no Tempo Medicina, no JAAC…

Infelizmente, fruto do que pensamos ser uma estratégia de destruição da imprensa médica, temos cada vez menos publicidade. Se nada mudar, perspectiva-se, mesmo, o fim da maioria dos editores médicos.

É evidente que sempre se poderá alegar que podemos recorrer a outros anunciantes, que investem milhões em publicidade na imprensa dita generalista, principalmente nos tais jornais de referência a que o deputado João Semedo se refere na sua missiva. Sei lá… Assim de repente, estava-me a lembrar dos reclamos do Prof. Bambo, o tal que garante curar tudo, da SIDA ao mau-olhado, passando pelas finanças. Ou ainda das cervejeiras, do Whisky ou do tinto regional. Ou mesmo das armas de fogo de pequeno e grande calibre… Temos evitado. Opções...

Não quero com este arrazoado insinuar que somos melhores, ou piores… Mas que somos um caso raro, lá isso somos. Nisso, senhor deputado, tem toda a razão.

2) Segundo João Semedo:

“Os leitores ficaram a conhecer a sua opinião. Mas não a minha. Por isso, desafio-o a publicar na íntegra os requerimentos que apresentei enquanto deputado à Assembleia da República sobre os assuntos a que se refere”.

Faltava mais nada. Publicamos, isso sim, notícias sobre as iniciativas do Bloco de Esquerda (BE) que se nos afigurem relevantes para os nossos leitores. E temos publicado muitas. Uma pesquisa – a título de curiosidade – sobre a prevalência de informação sobre as iniciativas do BE, permitiu-me mesmo constatar que o BE é o partido político que mais vezes é referido no nosso jornal.

3) Diz ainda o deputado João Semedo.

“Por último, permito-me sublinhar uma diferença que nos distingue: eu, como qualquer outro deputado, devo defender o interesse público. É esse o principal compromisso de um deputado. É outro o compromisso do director do JMF: deve defender o interesse particular de quem serve e lhe paga. Esta diferença faz toda a diferença.”

É evidente que não respondo ao insulto que ressalta do sublinhado. Não me insulta quem quer, mas quem pode, e o deputado João Semedo não integra, certamente, este último grupo.

Mas tem razão quando diz que é sua obrigação defender o interesse público, enquanto deputado – é obrigação de todos nós, claro está, mas é obrigação muito particular dos deputados eleitos e dos demais políticos. E é precisamente por isso que estranho o conteúdo da missiva. É que transparece da mesma a ideia de que o senhor deputado ficou abespinhado porque num texto de opinião critiquei a forma como pôs em causa uma iniciativa organizada por uma das mais prestigiadas universidades portuguesas e pela mais importante associação de especialidade médica nacional e patrocinada por um laboratório farmacêutico.     

Pois bem, senhor deputado. Goste ou não, é meu direito questioná-lo. E enquanto deputado, é sua obrigação responder às questões que lhe colocar. A todas!

 

Miguel Múrias Mauritti
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