USF Alfa Mouro: contra a obesidade infantil
DATA
31/07/2008 07:04:35
AUTOR
Jornal Médico
USF Alfa Mouro: contra a obesidade infantil

O projecto Criança Saudável – Saber correr e comer,  do CS de Saúde de Rio de Mouro em parceria com o Centro Lúdico local, está prestes a findar o segundo ano de actividade… Sob um clima de forte desmotivação…

 

Em Setembro de 2006, após a realização de um estudo de prevalência da obesidade em crianças nascidas em 1998 e inscritas no Centro de Saúde Dr. Joaquim Paulino, em Rio de Mouro – cujos resultados mostraram uma taxa de 15%, num total de 62 indivíduos – nasceu o projecto Criança Saudável – Saber correr e comer. Em parceria com o Centro Lúdico de Rio de Mouro, os profissionais do centro de saúde propuseram-se a diminuir a obesidade e os factores de risco associados, modificando os estilos de vida, através de orientação alimentar, actividades lúdico/pedagógicas e promoção do exercício físico. Prestes a findar o segundo ano, a equipa responsável pelo projecto – cujas médicas e enfermeira fazem agora parte da USF Alfa Mouro – vive uma fase de forte desmotivação… Não porque o seu trabalho se tenha revelado infrutífero… Muito pelo contrário! Os resultados “são excelentes”! Porém, os apoios são cada vez mais escassos, lamentam, temendo que a carolice não resista a mais um ano de combate a uma realidade que lhes bate diariamente à porta do consultório

Diminuir a obesidade e os factores de risco associados, modificar comportamentos com orientação alimentar adequada e promoção de actividade física através de acções lúdico/pedagógicas e ajudar a criar estilos de vida saudáveis na família, são os objectivos que alicerçam o projecto Criança Saudável – Saber correr e comer, desenvolvido em parceria pelo Centro de Saúde (CS) Dr. Joaquim Paulino e o Centro Lúdico de Rio de Mouro/Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra.
O desenvolvimento deste projecto teve início após serem conhecidos os resultados de um levantamento da prevalência da obesidade em crianças inscritas no CS de Rio de Mouro, nascidas em 1998, que revelou que num universo de 62 crianças, a prevalência de obesidade era de 15%.
“As conclusões do estudo foram apresentadas em reunião de serviço aos colegas do CS que não estiveram directamente envolvidos no trabalho de investigação. A ideia era a de que cada um encaminhasse para o Hospital os seus meninos obesos, uma vez que ainda não tínhamos o apoio da nutricionista no centro de saúde”, recorda Zélia Vaz, uma das médicas de família (MF) ligadas ao projecto desde a primeira hora.
Segundo a clínica, que integra, actualmente, a USF Alfa Mouro – “unidade que agora detém a responsabilidade do Criança Saudável – Saber correr e comer”, “a maioria dos colegas não interveio e das poucas crianças encaminhadas para consulta hospitalar, muitas acabaram por abandonar…”.
Foram ainda efectuadas outras formas de divulgação do estudo, nomeadamente no 10º Congresso Nacional de Medicina Familiar, no 10º Congresso Nacional de Obesidade e na revista Ser Saúde… Iniciativas que não surtiram o efeito desejado junto dos profissionais…
Falhadas essas primeiras intervenções, Zélia Vaz e a colega Maria José Verdasca sentiram necessidade de intervir directamente na comunidade e lembraram-se de que o Centro Lúdico de Rio de Mouro, a quem o CS já estava ligado em alguns projectos, poderia ser uma mais-valia no desenvolvimento de algum trabalho específico no âmbito do combate à obesidade infantil.
Foi assim que nasceu, em Setembro de 2006, o projecto Criança Saudável – Saber correr e comer, que haveria de entrar em funcionamento em Janeiro do ano seguinte, procurando trabalhar na área da prevenção secundária e na sensibilização dos problemas da obesidade, junto das crianças e suas famílias.

Intervenção precoce e dirigida

Às duas MF, enfermeira, animadora e educadora do Centro Lúdico que abraçaram este desafio foi necessário juntar uma peça-chave em qualquer projecto que tenha como base a questão dos problemas alimentares: uma nutricionista. “Tal foi conseguido com o apoio dos Laboratórios Abbott, por um período de um ano”, explicou Zélia Vaz, adiantando que “a permanência da nutricionista no projecto é uma luta constante, que não podemos perder, sob pena de todo o trabalho desabar”.
É sob esta indefinição constante e à base de “muita carolice” que a equipa de Rio de Mouro tem levado avante este projecto, que engloba, de momento, duas dezenas de crianças.
Das 62 crianças inicialmente avaliadas, 26 aderiram ao projecto. Destas, 20 (75% do sexo feminino e 25% do sexo masculino) mantêm o acompanhamento na consulta de nutrição e no Centro Lúdico.
A motivação não esmorece, garante a enfermeira Lucinda Silva: “os meninos que aderiram, continuam motivados. Estamos a finalizar o segundo ano e todos os sábados, eles marcam presença nas actividades do centro lúdico, apesar de a estrutura familiar nem sempre favorecer muito a assiduidade”.
A dinâmica do projecto, essa, é facilitadora da intervenção que se pretende, assentando nas vertentes da actividade lúdico/pedagógica, física, nutrição e saúde. O calendário das actividades acompanha o calendário escolar. A consulta de Nutrição decorre às segundas-feiras no CS e no Centro Lúdico, aos sábados, decorre um programa com várias actividades nas áreas da alimentação e da actividade física (algumas sessões contam com a participação dos pais). Há também espaço para algumas sessões teóricas, onde já foram abordados temas como a roda dos alimentos ou a digestão e onde as crianças recebem muita informação sobre os alimentos, como a importância do pequeno-almoço, a leitura e compreensão dos rótulos dos produtos alimentares, entre outros aspectos.
As actividades do final do ano ocorreram recentemente e incluíram um passeio pedestre por Colares, Praia Grande e Praia das Maçãs (a 10 de Maio) e a habitual sardinhada (a 14 de Junho).
Este ano, uma vez mais, o projecto do CS de Rio de Mouro esteve representado no Sintra Anima, uma iniciativa que junta as escolas do concelho de Sintra em actividades lúdicas e desportivas. As médicas e a enfermeira da USF Alfa Mouro, responsáveis pelo Criança Saudável – Saber correr e comer, tiveram a seu cargo a medição do Índice de Massa Corporal (IMC) das crianças. “Foi feito um registo diário para que esses resultados possam ser posteriormente analisados, trabalhados e deles resultem algumas conclusões sobre o estado de saúde das crianças do concelho”, explicou Maria José Verdasca.

Apoios e “menos carolice”… Precisam-se!

Prestes a terminar este segundo ano de Criança Saudável – Saber correr e comer, a equipa responsável pelo projecto vive um momento de grande desmotivação… Não porque o seu trabalho se tenha revelado infrutífero… Muito pelo contrário! Os resultados “são excelentes” (ver caixa). Porém, os apoios são cada vez mais escassos, lamentam, temendo que a carolice não seja suficiente para fazer frente a uma realidade que lhes bate diariamente à porta do consultório.
“O futuro está um pouco tremido… Gostávamos de continuar sem tanta carolice, só com um bocadinho… que também faz falta”, vaticina Zélia Vaz, lembrando todas as horas (de semana e aos fins-de-semana), voluntariamente dispendidas na organização das mais diversas actividades realizadas no âmbito do projecto.
“Não há reconhecimento por parte dos serviços… Temos muito poucos apoios… A maior parte das actividades são sustentadas pelo nosso próprio bolso… Mesmo tendo nós demonstrado, com base em evidência científica, as vantagens deste tipo de intervenção”, lamenta, com pessimismo, a MF de Rio de Mouro.
“Valerá ou não a pena esta carolice?”, questionam os membros da equipa. “Seremos capazes de continuar no ano que vem?”, interrogam-se médicas, enfermeiras e restantes profissionais, perante os escolhos que se adivinham: falta de apoios, possível saída da nutricionista, incapacidade do Centro Lúdico de responder às solicitações específicas deste projecto…
Uma série de pontos de interrogação que angustiam esta equipa de saúde, que não é capaz de virar as costas a um problema tão preocupante como o é o da obesidade infantil. Mais não seja porque, todos os dias, ela lhes bate à porta da USF.
Mesmo a nadar em incertezas, a equipa continua a ser capaz de sonhar… “Gostaríamos de acompanhar este grupo de crianças por mais um ano e reiniciar o projecto com um segundo grupo no ano seguinte. Estamos, neste momento, a realizar um novo estudo de prevalência da obesidade no nosso CS. E os dados preliminares revelam uma taxa em muito semelhante ao primeiro estudo”, revelou ao nosso jornal Maria José Verdasca.
“A ideia era a de que os miúdos que agora terminam o projecto pudessem apoiar a integração dos que entram de novo, saindo com alguma autoridade nesta área”, adiantou. Outra ideia, assente na plena consciência de que as crianças até aqui acompanhadas não podem ser abandonadas, é a de se tentar, junto da Câmara Municipal de Sintra, “que estes meninos possam ter uma jóia facilitada nas inscrições para alguns desportos, nomeadamente a natação”, acrescenta a enfermeira Lucinda Silva.

Resultados animadores

Das 62 crianças inicialmente estudadas, apenas 26 aderiram ao projecto. Destas, 20 mantêm o acompanhamento na consulta de Nutrição no CS e no Centro Lúdico de rio de Mouro.
Relativamente ao peso: 12 crianças perderam peso, uma manteve o peso mas perdeu massa gorda (MG) e sete ganharam peso (dos quais dois diminuíram a MG e cinco aumentaram).
No que toca ao percentil de Índice de Massa Corporal (IMC), nove crianças baixaram de intervalo de percentil, sendo que esta variação foi mais frequente nas raparigas.
No que respeita a variações de MG por sexo, das 15 raparigas, 10 perderam MG (uma média de 2,08 kg); dos cinco rapazes, todos perderam MG (uma média de 2,12 kg).
Verificaram-se, ainda, mudanças evidentes no consumo de guloseimas, só permitidas em dias especiais. “As batatas fritas deram lugar às saladas e legumes e alguns escolheram um dia específico da semana para comerem os alimentos maus. Aprenderam que os Chocapic não são cereais!”, referem as autoras do estudo.
Ao longo do tempo, também se verificou que os pais e familiares procuraram corrigir erros na alimentação e praticar actividade física, algumas vezes por semana.

Os testemunhos que contam!

As frases citadas pelas crianças, na entrevista de avaliação do projecto Criança Saudável – Saber correr e comer ilustram a forma como os mais pequenos aderiram aos objectivos que lhes foram propostos pela equipa de Saúde. Muito particularmente, sobre a forma como levaram pais e outros familiares a adoptar estilos de vida mais saudáveis.

João: “Em minha casa deixámos de comer muitos petiscos! Fazemo-los, mas com legumes e saladas! Sinto-me melhor agora, já não tenho falta de ar!”.

Pedro Tiago: “Gostei muito de participar neste projecto porque aprendi a comer! Aprendi a cuidar da minha saúde!”.

Ana Marta: “Aprendi muitas coisas novas aqui. Gostei de fazer a roda dos alimentos!”.

Daniela: “Aprendi a fazer pão! A minha mãe também já emagreceu!”.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.