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Desculpem, mas eu li!... “Viva a poesia!”
DATA
18/09/2008 08:05:49
AUTOR
Jornal Médico
Desculpem, mas eu li!... “Viva a poesia!”

Muitas vezes, as viagens enchem-nos de sensações novas, abrindo os espíritos a experiências, reflexões ou despertares que, de outro modo, não o chegariam a ser...

 

Muitas vezes, as viagens enchem-nos de sensações novas, abrindo os espíritos a experiências, reflexões ou despertares que, de outro modo, não o chegariam a ser...

Ou como alguém se queixava, nunca queremos ser o que somos depois de algumas dessas viagens...

Os nossos dias e as fórmulas encontradas pelas universidades na troca de estudantes e partilhas de conhecimentos, constitui até um bom exemplo do que dizia.

A literatura está bem recheada de episódios, histórias e contos inspirados, quer nas deambulações dos seus autores, quer nas lições por eles apreendidas.

Lembro-me de Gandhi e do seu profundo amor pela vida:

- “Há mais que fazer na vida do que aumentar a sua velocidade.”

O que se ouve, se percebe apesar das diferenças linguísticas, o que se vê, quer olhando, quer observando, o que se cheira na panóplia de aromas e estranhos perfumes, o que se sente na individualidade e que todos marca nesse respeito pela intimidade, faz de cada percurso, de cada trajecto de descoberta, um marco nas nossas vidas.

Não no sentido em que a vida seja um problema que se não possa viver, mas porque, de facto, a vida se torna numa realidade que se tem de viver e que, como falava Séneca, quando bem usada, “a vida tem a duração suficiente”...

E cada marco, grava-nos na memória um traço ou um sulco que, conforme as cores e as tonalidades, se configura como um obelisco ou um padrão ao jeito dos utilizados ao tempo dos Descobrimentos, um obelisco ou um padrão que de certa forma nos abrirá um pouco mais aos outros e ao mundo!

Caminhamos para tempos de retorno ao trabalho e ao dia a dia.

As férias e a ociosidade ficaram para trás e os dias que se lhe seguem, são habitualmente, tão penosos, quanto desgastantes.

A quebra das rotinas apresenta a sua factura.

Os dias, na sua duração, parecem-nos maiores, embora a caminhada para o inverno os encurte em luminosidade e energia.

Mas a vida é assim mesmo, reserva-nos grandes e muitas surpresas, brindando-nos frequentemente com momentos, ora inesperados, ora ansiando.

Na verdade, em cada esquina da existência humana, esconde-se ou espera-nos um desafio ou a necessidade de um gesto, de uma escolha, de uma decisão, que, como sempre, independentemente de ser fácil ou difícil, nos impele e conduz para um novo caminho e destino.

E isso, por si só, por muito assustador que possa parecer, já justifica que continuemos vivos e livres e diferentes!

E por falar em liberdade, lembrei-me da velha discussão filosófica entre os limites que o homem criou ou estabeleceu e que, classicamente, envolvem as noções de liberdade e de propriedade.

Salvaguardada uma outra e mais profunda abordagem para outros escritos e contextos, quero-vos contar um episódio banal e centenas de vezes repetido, certamente.

Em viagem de férias, um casal seguia, ocupado, vigilante e dividido com dois filhos, pequenos e aguerridos, carregados de montes de sacos e saquinhos, com coisas dos catraios, comes e bebes e outras tralhas.

Os miúdos, um com talvez cinco anitos, seis no máximo, o outro com dois anos e pouco, tagarelavam sem cessar, numa primeira fase, entretidos também, o mais velho com um jogo entre os dedos brutalmente ágeis e uns olhitos pregados no microscópico ecrã e o mais pequeno com um biberão de água que parecia nunca mais acabar!

A viagem continuava indiferente ao cenário, quer dentro, quer fora do comboio.

Mas pairava no ar uma promessa, segura de, a todo o instante, torpedear o sossego de quantos por ali se sentavam.

O provável desatino dos pequenos era proporcional à extensão do percurso...

Com efeito, alguns minutos volvidos, ninguém já conseguia dormir, ler ou conversar!

Os tagarelas empurravam-se e berravam um com o outro!

O mais velho, gritava:

- “O papá é meu!”

E o puto, enraivecido, agredia-o e gritava mais alto:

- “Não! O papá, é meu!”

E o mais sabidola, seguia para o lugar em frente, o da mãe, agarrava-se ao braço dela, beijando-o por cima da manga da blusa estival e dizia, de novo:

- “A mamã é minha!”

O mais pequeno, fitava-o, lá saía aos trambolhões do colo do pai, a disparar consecutivamente:

- “Não! A mamã é minha!”, atirando-se a ela e esgadanhando o irmão, até este se voltar, uma vez mais, para o lado do pai...

Também na vida, temos momentos assim.

Gostamos de chatear o parceiro...

Ainda que nada, nem ninguém pertença a quem quer que seja!

Mas o pior, o pior, claramente é sentirmo-nos chateados por quem nos desassossega.

Lá dizia Fernando Pessoa:

- “Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta.”

Viva a Poesia!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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