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Mário Moura lança novo livro: Uma concepção global do adoecer humano
DATA
18/09/2008 08:09:18
AUTOR
Jornal Médico
Mário Moura lança novo livro: Uma concepção global do adoecer humano

“Nós, somos nós e as nossas circunstâncias”, postulava Ortega e Gasset. A ciência, em geral, e a Medicina Familiar, em particular, veio dar-lhe razão. Quando entra na consulta, o doente não vai só. Acompanha-o a sua história e é nela que se encontra, por vezes, a explicação do sintoma.

 

 

“Nós, somos nós e as nossas circunstâncias”, postulava Ortega e Gasset. A ciência, em geral, e a Medicina Familiar, em particular, veio dar-lhe razão. Quando entra na consulta, o doente não vai só. Acompanha-o a sua história e é nela que se encontra, por vezes, a explicação do sintoma. Esta concepção global da doença inspira o novo livro do médico de família Mário Moura, cujo lançamento terá lugar este mês, no XIII Congresso Nacional de Medicina Familiar, organizado pela Associação Portuguesa de Médicos de Família

 

O novo livro do médico de família Mário Moura, intitulado “Uma concepção global do adoecer humano – O doente co-autor da sua doença”, resulta de uma constatação fundamental da Medicina Familiar: para compreender a doença e os sintomas associados é necessário um conhecimento integral da história biográfica da pessoa. Essa história não surge de repente; vai-se construindo a pouco e pouco, na consulta, valorizando-se todos os problemas de natureza física, psicológica e relacional.

Mário Moura parte de uma série de casos clínicos concretos – pessoas com problemas digestivos, cardíacos, vertigens, amigdalites, hemorragias, doenças de pele – para, além do sintoma, se lançar na investigação dos antecedentes e características particulares do indivíduo: a maneira de ser, o ambiente familiar, o trabalho...

Segue-se uma intensa pesquisa bibliográfica e a opinião de muitos outros especialistas e saberes, como os das neurociências. Um estudo profundo das obras de António Damásio permite, por exemplo, o desenvolvimento da questão da conversão química das emoções, dos sentimentos e das faculdades elevadas da nossa mente. Algo com o qual Mário Moura se confronta, na consulta, desde há muitas décadas e que é patente nas histórias clínicas dos seus pacientes.

 

Nós e as nossas circunstâncias

“Nós, somos nós e as nossas circunstâncias”, postulava Ortega e Gasset. Ou seja, “o nosso limite não é o nosso corpo mas antes toda a envolvência familiar, profissional e social”, explica Mário Moura.

A infância tem, neste percurso, um papel determinante, daí que o livro inclua um capítulo dedicado à psicologia do feto. “A partir do período gestacional, tudo conta para a formação ou deformação da criança”, defende o médico. Desse modo, “nela ficará gravada a maior ou menor possibilidade de contrair a doença A, B ou C”.

O subtítulo do livro “O doente co-autor da sua doença” corresponde a essa constatação fundamental: além do património genético, “a pessoa traz consigo um determinado conjunto de alterações relacionais e emocionais, incluindo os fantasmas primordiais da infância, que irá condicionar a propensão para desenvolver determinadas doenças”.

Através de uma intensa pesquisa bibliográfica e da investigação de casos clínicos, o autor demonstra que esta concepção tem uma base científica. Não apenas destacada pela psicologia ou pela psiquiatria mas também pelas neurociências.

 

Muitos sintomas não têm explicação física

Segundo as estatísticas, mais de 70% das consultas de Medicina Familiar apresentam uma dependência total ou parcial dos problemas psico-afectivos e relacionais da vida da pessoa. Quando investigados segundo os métodos clássicos, casos há para os quais os médicos não conseguem encontrar uma causa. Os chamados “MUPS”, são mesmo tema de debate em revistas científicas. Na opinião de Mário Moura, trata-se, pura e simplesmente, de “casos insuficientemente investigados”.

Senão... Veja-se o caso de um indivíduo, empregado numa fábrica de cimentos de Setúbal, que apresenta uma dermatose gravíssima. À primeira vista, dir-se-ia tratar-se de uma reacção ao pó e ao cimento. O facto de a doença regredir quando o indivíduo está uns dias sem trabalhar, ainda mais reforça a hipótese de ser uma doença profissional. Todavia, os testes efectuados nos serviços de Dermatologia do Hospital de Setúbal e, posteriormente, em Lisboa, nada revelam.

Durante dois anos, a dermatose ora avança, ora recua. Mário Moura não desiste. A resposta estará escondida, algures, na história daquele homem. E investiga a fundo todas as pistas. Se não é uma reacção alérgica ao pó, o que será então?

Pasme-se! Era a personalidade do seu chefe e a maneira como ele o desconsiderava...

Hoje, o mesmo indivíduo, já reformado, tem uma empresa de camionagem e faz o transporte nas pedreiras da fábrica, local onde trabalhava anteriormente. Passa lá dentro mais tempo do que antigamente...mas sem o menor vestígio da dermatose que tanto o afligiu no passado...

 

Há muitos bons livros de Medicina…
Mas poucos ensinam a ser médico...

A questão de “O doente co-autor da sua doença” tem vindo a ser estudada por Mário Moura desde há muitos anos. Em 1983, já era o tema da conferência que proferiu na cidade do México a convite da Confederação Internacional de Medicina Familiar, de que foi vice-presidente. Mais recentemente, num congresso sobre Biossíntese, em Lisboa, no qual António Damásio também participou, foi aplaudido com entusiasmo.

O médico reconhece que esse interesse o incentivou a prosseguir as investigações.

É assim que, depois de muitos meses de trabalho, surge esta nova obra, cujo valor o prof. Jorge Galperín destaca, logo no prefácio: “Há muitos bons livros que ensinam Medicina mas poucos ensinam a ser médico. Este é um deles”.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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