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Pequenas crónicas de um voluntário… A corda do sino
DATA
18/09/2008 08:20:02
AUTOR
Jornal Médico
Pequenas crónicas de um voluntário… A corda do sino

Desde sempre, fico deprimido ao ouvir o toque de “sinal” nos sinos da minha aldeia. É o anúncio da morte: se for de um homem são três badaladas no sino grande, seguidas de várias badaladas dobradas e cadenciadas. Se anunciar morte de mulher são só duas badaladas

 

Desde sempre, fico deprimido ao ouvir o toque de “sinal” nos sinos da minha aldeia.

É o anúncio da morte: se for de um homem são três badaladas no sino grande, seguidas de várias badaladas dobradas e cadenciadas. Se anunciar morte de mulher são só duas badaladas. É um dia triste, culminando com o toque a dobrar cadenciado para chamar o povo para o enterro.

O toque de “sinal” significava, para mim, duas verdades insofismáveis: a primeira era a do falecimento de um dos meus clientes, a outra, a obrigatoriedade de fazer uma visita domiciliária urgente ao Senhor Rodrigo:

Para estragar ainda mais o dia, um cliente meu, o senhor Rodrigo, rijo e saudável, não podia ouvir esse toque. Entrava sempre em pânico, certo que os Céus anunciavam a sua morte. Enfiava-se na cama. Mandava procurarem-me por tudo quanto era sítio. Não descansava enquanto eu não aparecia a correr para o consultar e declarar solenemente:

- Oiça bem senhor Rodrigo! O Senhor está vivo e recomenda-se. A prova é que está a ouvir o sino a tocar.

Aprendi esse truque na guerra. Quando o inimigo nos atacava e ouvia tiros, procurava tranquilizar-me, tolamente, pensando que se se podia ouvir os estrondos, era porque estava vivo!

Acabei por solucionar o problema do senhor Rodrigo, convencendo-o do perigo de se meter no leito, pois era por demais sabido que 99% das mortes aconteciam na cama.

Fiquei a saber muito mais sobre toques de sinos neste rastreio que fizemos algures no Norte:

Chamavam-lhe, sem cerimónias, de “Padre” Luís. Aparenta 80 anos!

 Na verdade é apenas o sacristão desta paróquia. Já deu nas vistas, pois gira sem parar à volta das mesas onde estamos, a realizar os diferentes rastreios. A meu ver, está é de olho nas “belas” e jovens enfermeiras voluntárias que ali fazem alegremente as colheitas de sangue!

É um homem baixo, muito rechonchudo, de pernas curvadas como um cowboy. Parece um anão, tanto as pernas lhe diminuem a estatura.

Ainda é, apesar da idade, segundo me garantem, o “Pastor” destas ovelhas. Veio na companhia delas ao nosso rastreio.

Tímido ou envergonhado, aproxima-se da minha mesa. Implora, depois de se certificar não estar mais ninguém a ouvir:

- Por favor não digam a ninguém da minha tensão alta!

Pede-nos segredo, como se aqueles valores tão altos da T.A. colesterol, trigliceridos e da glicemia fossem um pecado seu.

Ironicamente, não deixo de pensar: “um homem tão baixo, com valores tão elevados!

– Se elas sabem (faz um gesto envolvendo toda a assembleia, em rastreio) tramam-me!

Faz rapidamente e imperceptivelmente o sinal da Cruz nos lábios recortados por uma barba mal aparada…

- Elas nem vão deixar-me mais comer chouriça à vontade de Deus! Já pouco me posso movimentar. Saiba o Senhor Doutor: Tiraram-me o emprego de tocar os sinos.

O meu interlocutor sempre foi o sacristão daquela paróquia. Sobrevive, depois de já ter enterrado uma boa meia dúzia de Párocos e um sem conta de paroquianos! Os poucos párocos, uma profissão em vias de extinção como a dos médicos, instalam-se agora longe desta vila deixando o pequeno rebanho aos cuidados do “Padre Luís”.

A “Comissão Fabriqueira” da paróquia deixa-o dormir na sacristia, em troca da guarda e conservação da Igreja. Nos seus curtos deveres tem ainda a obrigação de tocar os sinos quando a ocasião aparece.

Adora tocar os sinos anunciando a Missa do Domingo quando vem algum Padre de fora oficiar: é um toque alegre de festa iniciado com uma badalada no sino grande, seguida de toque repenicado no sino pequeno. Quando morre uma criança há festa nos Céus. Então o toque é igual e alegre como o da Missa, confidencia-me com um sorriso cínico.

Para seu sustento, um grupo de paroquianas à vez, fornece-lhe uma sopa diária. Até uns tempos atrás, subia “num amém” as escadas da torre para ir lá acima puxar as cordas do sino! Depois mandaram vir um técnico do Porto que tirou as cordas e montou uns altifalantes, accionados por três campainhas numa caixa de plástico! Era só carregar nos botões.

- Nunca me entendi com essas modernices. Engano-me sempre com os botões. Foi assim que há dias troquei os malditos botões e toquei a “finados” no casamento da filha do merceeiro. O homem, sem piedade nenhuma, cortou a minha ração de chouriça… Agora até essa caixa de plástico me tiraram. Deram-me, em troca, um telecomando! Até posso tocar o sino deitado na minha cama. Ele há coisas do diabo senhores doutores”!

 

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

Fernando Pessoa

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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