Porque é bom ser Clínico Geral (Porque somos tão bons)
DATA
18/09/2008 08:22:50
AUTOR
Jornal Médico
Porque é bom ser Clínico Geral (Porque somos tão bons)

Cada novo encontro é uma oportunidade de compreender aspectos diferentes das pessoas que nos procuram.

 

«A carta é um disparate. Quem escreve cartas são os farmacêuticos.»

Gogol

 

«Até a receita médica em cima da cabeceira lhe surgia como mais uma carta de amor. Era apenas por isso que ele não rasgava a desempregada prescrição.»

Mia Couto

 

Cada novo encontro é uma oportunidade de compreender aspectos diferentes das pessoas que nos procuram. Não percebo como é que se pode passar a vida toda a tratar a diabetes do Sr. Firmino ou a insuficiência cardíaca da D. Glória, tais personagens ganham fatalmente o nome de doença e acabam por nos aborrecer. Quanto a nós, há sempre um dia, na melhor das hipóteses mais do que um, em que o Sr. Firmino ou a D. Glória vão desfiar as contas dos seus rosários (o «rosário de amargura», como diz uma moda transmontana). Desperdiçar um precioso quarto de hora a falar de uma entidade tão impalpável como a diabetes, a hipertensão ou – pior um pouco – a hemoglobina glicosilada, é tão absurdo e inútil como passar o tempo a falar do Eduardo a alguém que está apaixonado pelo Guilherme ou pela Ermelinda, supondo que ainda haja Ermelindas dignas de paixão, espero que sim. Os doentes que mais percebem de diabetes são aqueles que vão mais ao médico por causa dela, ou seja, os que estão mais mal controlados e por isso mesmo têm mais descompensações. Os que estão neste grupo e não vão ao médico sabem tão pouco da sua doença – pelo menos desta – como os que lá não vão porque têm a diabetes bem controlada e por isso precisam menos do médico. Segue-se que a condição básica para saber controlar a diabetes é ir ao médico, e ainda assim é preciso que ele seja bom.

Do mesmo modo, as jovens que mais sabem sobre meios anticoncepcionais e sexo protegido são aquelas que mais fazem amor, protegido ou não, aquelas que mudam de parceiro e fazem experiências, algumas das quais com mau resultado, como era (talvez) de esperar. Por exemplo uma gravidez na adolescência. Sabem porque o assunto lhes interessa, porque o discutem acaloradamente, porque perguntam – poucas vezes ao médico, que está mais interessado na diabetes da mãe, ou nas medidas antropométricas da filha, que lhe ocupam o tal sagrado quarto de hora. Sabem menos de sexo aquelas que o praticam sem se atrever a perguntar, e as que acordam mais tarde para ele. Como na diabetes, sabe mais quem já teve mais precalços.

Uma jovem perguntou um dia ao namorado, estudante de Medicina, se corria o risco de engravidar tendo relações com ele nesse momento. É o melhor exemplo que conheço, digo o pior, de demonstração do significado da expressão «entregar o ouro ao bandido». Engravidou, pois claro, e a seguir zangou-se com o namorado na altura em que mais precisava dele. No entanto, aprendeu mais com este episódio do que com uma resma de sessões de «Educação para a Saúde» modelo sala de espera, sobre sexualidade. Escusava era de ter sido tanto à sua custa. Ou não escusava?

É quando nos propõem – e nós procuramos – um encontro puramente relacional, que as pessoas nos permitem «tratá-las» na doença. Esse verbo tão carregado de sentidos, infelizmente a cair em desuso, ainda me faz virar a cabeça quando ouço um colega, normalmente mais velho, começar uma daquelas histórias intermináveis que os médicos tanto gostam de contar, com a frase «tratei uma ocasião um doente», que podia perfeitamente estar na boca de Sherazade no princípio de umas Mil e Uma Noites Médicas.

As pessoas que nos procuram raramente, dizendo que não gostam de ir ao médico – alguns chegam a dizer «desculpe Dr, não é nada contra si» - exprimem dessa forma um medo arcaico, e daí também um desejo: o medo (e o desejo) do grande amor, da dependência absoluta, de uma relação que por uma vez seja absolutamente compensadora, «I’ll never fail you/ Depend upon me», diz uma canção da Billie Holiday, essa magnífica carente. «Confia em mim, nunca te vou abandonar», é isso que lá bem no fundo esperam ouvir. Os que reclamam explicitamente a presença constante do médico não têm medo de lá ir, porém transformam uma ausência de 2 semanas – por exemplo por ocasião das férias – num abandono de 3 meses, «ando há 3 meses a tentar marcar consulta para si». É certamente o que vou ouvir, ou pelo menos o que espero ouvir, no meu regresso das férias. Só assim conseguirei fazer diminuir um bocadinho a má consciência de ter tido 4 semanas de férias. Se 2 semanas correspondem a 3 meses, 4 semanas serão 6 meses, nesta subjectiva contabilidade da ausência?       

Doença Venosa

Isolamento social com apoio de proximidade e em segurança
Editorial | Jornal Médico
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O futuro tem hoje 5 dias! Inacreditável! Quem é que tem agenda para mais de 5 dias? A pandemia COVID-19 alterou profundamente a vida quotidiana, a prestação de cuidados de saúde e a organização dos serviços de saúde está totalmente alterada. O isolamento social é a orientação primordial de confrontação da pandemia. Mas é necessário promover o apoio de proximidade essencial e aprender a fazê-lo em segurança.

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