13º Congresso de MGF: cinco rotas para a descoberta
DATA
17/10/2008 11:27:03
AUTOR
Jornal Médico
13º Congresso de MGF: cinco rotas para a descoberta

Com o génio de Fernando Pessoa sempre presente - sobretudo o pensamento de uma língua que une e que é pátria - a Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral levou a bom porto cinco eventos científicos de projecção internacional

 

Com o génio de Fernando Pessoa sempre presente - sobretudo o pensamento de uma língua que une e que é pátria - a Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral levou a bom porto cinco eventos científicos de projecção internacional. Para além do 13º Congresso Nacional de Medicina Familiar, decorreram no Centro de Congressos do Estoril, entre os dias 27 e 30 de Setembro, o 3º Encontro Luso-Brasileiro de Medicina Geral, Familiar e Comunitária, o 2º Congresso da Região Ibérica da Confederação Ibero-americana de Medicina Familiar, o 7º Encontro Nacional de Internos e o 1º Encontro Luso-Brasileiro de Jovens Médicos de Família

Para uma ambiciosa ementa de cinco em um, a primeira em 25 anos de existência da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG) e mesmo da Medicina Familiar lusa, as expectativas eram elevadas. E não saíram goradas. Para as organizações intervenientes - APMCG, Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade e Confederação Ibero-americana de Medicina Familiar – WONCA – o número de participantes que rumaram até ao Estoril e a riqueza dos debates científicos, capazes de aproximar médicos de família dos dois lados do atlântico, falam por si.

No total, registou-se a presença de 548 congressistas, dos quais, quase metade, internos da especialidade. Do Brasil vieram meia centena de representantes da Medicina de Família e Comunidade.  

O mote de ligação entre os cinco eventos - N@vegar é Preciso -, não podia encerrar maior justiça, já que dos quatro dias de trabalhos ressaltou uma ideia fundamental: a MF, seja em Portugal, Brasil ou Espanha, só tem a ganhar quando se lança à descoberta de novos territórios. Na arte da navegação, foi sempre útil colher os ensinamentos dos mais aventurosos. Na MF, este resgate faz igualmente todo o sentido.

Séculos de comunhão entre Portugal e Brasil 

Figura de proa na abertura do 13º Congresso Nacional, 3º Encontro Luso-Brasileiro e 2º Congresso da Região Ibérica da CIMF- WONCA, a ministra da Saúde de Portugal, Ana Jorge, salientou o facto de o intercâmbio de experiências entre médicos de família de Portugal e do Brasil “constituir um estímulo para os colegas mais jovens”.

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Em paralelo, a governante destacou a circunstância dos ministérios da saúde português e brasileiro estarem a negociar um acordo de cooperação, na área da Medicina Familiar, de onde se destaca a promoção do intercâmbio de internos e orientadores de formação, assim como a investigação clínica em CSP. Trata-se de um passo que honra uma longa história de viagens transatlânticas, entre Portugal e o Brasil, protagonizadas por impulsionadores da Arte da Medicina. Exemplo maior, referenciado pela governante, o dos médicos e académicos que acompanharam a família real portuguesa exilada durante as invasões napoleónicas. Foram eles que ajudaram a implementar as primeiras faculdades de Medicina, em solo brasileiro, assumindo-se assim como actores de primeiro plano na actual comemoração dos 200 anos de Medicina que ligam os países irmãos.

Ministra apela a entusiasmo reformista 

Num momento em que Portugal vive uma das mais profundas reformas nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), Ana Jorge evocou as suas próprias experiências de proximidade com a população, nos tempos em que integrava projectos de cariz comunitário, desenvolvidos no âmbito do serviço médico à periferia: “numa época em que não existia MGF, ou centros de saúde, em que o direito à saúde não era ainda para todos, estávamos constituídos em grupo. E era em equipa que chegávamos até junto da população. Mais de 30 anos passados, são os bons resultados que conseguimos então que tentamos replicar com as actuais mudanças”.

Aos médicos de família portugueses presentes no Estoril, Ana Jorge pediu que assumam parte activa no processo de reforma dos CSP, em particular a partir das unidades de saúde familiar (USF): “contamos com o vosso empenho, para alcançar maior equidade no acesso à saúde. Esperemos que todos os médicos de família, quer os mais jovens, quer os menos jovens, possam integrar estas equipas e que a partilha da sua experiência (em congressos como estes), funcione como um estímulo a uma reforma mais rápida”. Ana Jorge garantiu estar contente com o facto de 200 mil portugueses passarem a ter médico de família, fruto da entrada em cena das USF: “este era o nosso grande objectivo; que mais cidadãos passassem a contar com o apoio de um MF. Por outro lado, estamos perante um modelo de organização inovador, quem sabe a chave do sucesso que está diante de nós”.

A ministra acentuou, também, que uma panóplia de outros serviços, para além das USF, necessita de surgir ou de ser reconfigurada “nos centros de saúde, para que os CSP possam cumprir a sua missão”. 

25 anos comemorados em grande 

Para o presidente da APMCG, Luís Pisco, as reuniões científicas realizadas no Estoril representaram mais um momento alto de 2008, ano em que a associação comemora duas décadas e meia de existência. Com particular destaque para “o estreitamento das relações entre a APMCG e a sua congénere brasileira”. Na óptica de Luís Pisco, os eventos serviram ainda para reforçar o prestígio da Associação, que é hoje respeitada inter-pares.

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Na sua intervenção, o presidente da APMCG destacou a produção editorial que surge associada aos eventos internacionais realizados no Estoril: “quatro livros, entre os quais um manual de metodologias de investigação em cuidados de saúde primários e orientações preventivas em importantes áreas, resultantes do trabalho de núcleos da APMCG”. No ano em que a associação completa um quarto de século, o seu principal representante frisou o bom momento de forma da Revista Portuguesa de Clínica Geral e do Jornal Médico de Família, líderes de audiência “nos dois universos em que se inserem”. No caso específico do jornal, Luís Pisco colocou ênfase na possibilidade da versão on-line contribuir para aprofundar relações entre os dois lados do Atlântico, já que a seguir a Lisboa e ao Porto, a região de São Paulo, no Brasil, é aquela que acumula maior número de visitantes.

O novo portal electrónico da APMCG mereceu também uma nota especial do presidente da APMCG, que assinalou o facto de este estar “finalmente, a funcionar em pleno, com uma área de acesso restrito dirigida a profissionais e outra, de acesso livre, vocacionada para a população em geral”. 

Alertas à navegação 

No arranque das actividades do 13º Congresso Nacional, Luís Pisco não quis deixar de recordar que o país vive uma época histórica, com o actual processo de reconfiguração dos CSP: “está em marcha aquela que poderá ser uma das mais marcantes reformas dos cuidados de saúde primários alguma vez realizadas no nosso país (…) que vai ao encontro daquilo que foi defendido, ao longo de décadas, pela APMCG”. Apesar dos bons ventos, o presidente da associação mostrou que há ainda algum grau de incerteza sobre os próximos tempos, ao pedir “ (…) clarificação sobre o rumo que se pretende seguir”. Do mesmo modo, afirmou estar confiante de que os “agrupamentos de centros de saúde tragam mais e melhor gestão, indo ao encontro das necessidades e expectativas dos profissionais e da população que servem”.

A audiência do Centro de Congressos do Estoril terá ficado particularmente agradada, quando Luís Pisco se referiu ao factor humano que está no centro da reforma. O presidente da APMCG relembrou que o número de profissionais nos CSP é diminuto, o que implica uma conduta protectora por parte das autoridades: “se temos poucos profissionais, temos de os tratar bem (…) criar boas condições de trabalho”.

CIMF apoia trocas intercontinentais

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Adolf Rubinstein, presidente da CIMF – WONCA, foi uma das individualidades que marcaram presença nas salas do Centro de Congressos do Estoril. O médico de família argentino, de visita a Portugal em representação de todos os colegas do espaço ibero-americano, não deixou de sublinhar quanto foi tocado pelo movimento associado à criação das unidades de saúde familiar (USF) no nosso país: “tive a oportunidade de conhecer a vossa ministra da Saúde em Fortaleza, durante a Cúpula Ibero-americana de MF. Aí, falou-se da criação das USF, que me deixaram muito impressionado”. Segundo Adolf Rubinstein, os eventos agora organizados em solo português surgiram em boa hora. Na cerimónia de abertura do 13º Congresso Nacional, o presidente da CIMF sublinhou que este tipo de iniciativas “é muito importante para impulsionar a colaboração entre os médicos de família de diferentes países”. 

Brasil valoriza contactos com Portugal 

A directora do Departamento de Atenção Primária do Ministério da Saúde Brasileiro, Claunara Mendonça - que representou em Portugal o ministro da saúde brasileiro (José Gomes Temporão) -, pensa são ser fortuita a actual “união de interesses e de posições entre Brasil e Portugal”. Esta responsável observa muitas similitudes entre os dois países, nas competências que desenvolveram ou pretendem desenvolver em contexto de CSP, a que se juntam os laços culturais e linguísticos. Um leque de argumentos que permitiram o êxito do 3º Encontro Luso-Brasileiro. Mas segundo Claunara Mendonça, a discussão não deve ficar limitada a estas duas nações: “teremos de assumir um compromisso, no sentido de incluir neste nosso diálogo os demais países de língua portuguesa”.

Inez Padula Anderson, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) e actual directora científica daquela organização, mostrou um enorme agrado em participar activamente no 3º Encontro Luso-Brasileiro de Medicina Geral, Familiar e Comunitária. Segundo esta responsável, o evento ficou ligado, desde o início, à revitalização da MF em terras de Vera Cruz: “não me esquecerei que o 1º Encontro Luso-Brasileiro marcou a história da SBMFC. Foi nessa ocasião que a sociedade brasileira renasceu, o que demonstra um pouco que a história dos dois países continua interligada e que as nossas raízes ainda estão bem próximas”.   

Para Inez Anderson, o reencontro ocorrido no Estoril despertou velhas solidariedades e pontos de vista convergentes entre médicos de família portugueses, brasileiros e espanhóis, que em conjunto continuam a “lutar contra um movimento internacional que aposta na super-especialização, na tecnologia avançada e focalizada. De facto, as políticas em prol dos CSP fortalecem muitos discursos e pensamentos, mas no momento de actuar, a tecnologia continua a recolher a maior fatia das atenções, em investimentos, formação e em outras áreas”, alertou a médica brasileira.

Denominador comum na MF

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O presidente da Sociedade Espanhola de Medicina de Família e Comunitária (semFYC), Luís Aguilera, recordou, durante a abertura do 2º Congresso da Região Ibérica da CIMF- WONCA, que quando as sociedades científicas se reúnem, descobrem sempre o denominador comum da MF: “o compromisso com as pessoas que servimos é uma constante, que surge em todos os encontros que celebramos”. Este compromisso estende-se, segundo o líder da semFYC, “ao desenvolvimento dos sistemas de saúde, à excelência na prática clínica e à constituição da especialidade com uma referência social, capaz de dar conselhos e actuar na prevenção e promoção da saúde”.

Ministra procura tranquilizar internos 

Em declarações proferidas à imprensa, após a abertura do 13º Congresso Nacional, Ana Jorge refutou qualquer saturação no SNS, no que respeita à integração de internos de Medicina Geral e Familiar (MGF) nos centros de saúde e unidades de saúde familiar (USF). “Não temos, de forma alguma, internos a mais. Aliás, temos aumentado no país o número de internos, todos os anos, para que mais médicos possam fazer a especialidade", afirmou a ministra da Saúde.

Embora tenha reconhecido dificuldades pontuais, a governante não aceita que se diga que o SNS é incapaz de rentabilizar os activos médicos em que o Estado investiu: "são reais, algumas questões e problemas. Julgo, porém, que não pudemos interpretar tal facto como falta de capacidade por parte do SNS”.

A actual inquilina da João Crisóstomo comentava assim um assunto que dominou a agenda mediática no dia inaugural do Congresso, na sequência de dúvidas suscitadas pelo coordenador do Internato de MGF da Zona Centro. Rui Nogueira defendera, na véspera, que o Ministério começa a sentir dificuldades para colocar internos nas unidades de saúde, em algumas regiões do país.  

Já sobre o lançamento do livro “USF Objectivo: 100”, Ana Jorge considerou que a obra terá, entre outros méritos, o de eliminar fantasmas persistentes: “o livro dá a entender o que estas unidades podem vir a trazer de bom, quer para utentes, quer para os próprios profissionais. No fundo, contribui-se também para esbater receios que algumas pessoas poderiam ter, quando pensam em aderir ao modelo USF”.

A ministra considera ainda que “a reflexão sobre o modelo organizativo, presente no livro, pode servir para melhorar a prática clínica, mesmo para quem não está integrado numa USF”.

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Editorial | Jornal Médico
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