Mário Salgueiro... Um náufrago no SNS
DATA
17/10/2008 10:11:57
AUTOR
Jornal Médico
Mário Salgueiro... Um náufrago no SNS

Estive mais de vinte e quatro horas, entupido, deitado a rebolar de dor em cima de uma maca. Já farto de sofrer, roubei uma agulha a uma enfermeira que passava por ali distraída, e com ela furei a minhoca. Sangrei por todos os buracos!

 

mario_salgueiro.jpgPerguntamos ao Sr. Pedro (hipertenso) se comia habitualmente muito sal?

- Eu? Comida feita com sal? Senhores doutores, há muitos anos que não como nada que tenha sido cozinhado com sal.

Aparentemente, o senhor Pedro não se deu por satisfeito ao ver o nosso ar incrédulo. Por isso prosseguiu como que a justificar-se:

- Tratei da minha mulher durante mais de 10 anos… Ela tinha as diabetes e eu os “diabretes”. Além disso ela tinha as artroses. Era um corpo morto! Nos últimos tempos do nosso casamento viveu acamada! Fui prisioneiro dela durante anos e anos. Ela não podia fazer de nada. Levava 4 injecções de insulina por dia. Eu é que lhas dava, dia e noite. Tive de aprender a dar injecções… até nas veias. Fiz-lhe de tudo… Dava-lhe banho. Punha pensos nas pernas, nos pés, nas escaras. Sei pôr um sorosito a correr numa veia! Até me pedem, ainda hoje, para ir desenrascar um vizinho.

Fui o cozinheiro dela, enquanto viveu! Vossemecês julgam que eu podia lá fazer comidas diferentes? O que era bom para ela era para mim. Tudo sem sal. Comida para diabéticos. Nada de doces. Tive de aprender sozinho.

- Senhor Pedro! Porque não pedia ajuda no Centro de Saúde? Há enfermeiros, pessoal para ir a casa levar refeições… Não tem família, senhor Pedro?

- Quantas vezes, pedi isso tudo… Por vezes aceitavam fazer um domicílio, mas depressa desistiam de ir a minha casa: sabe, eu moro lá em cima, naquele morro que está a ver daqui. Só as cabras lá vão… Família? Era só a minha esposa…

Depois de ela falecer, fiquei por ali abandonado. Vieram todos os males para mim: agora, tive um “calo” no pénis. Foi castigo de ter ido à aldeia das p…. Ali em Espanha, tudo por amor dela, que não me podia satisfazer… (A fronteira fica a escassos três quilómetros do pavilhão onde nos encontrávamos a fazer rastreio de doenças cardiovasculares. A empregada galega do restaurante, onde a nossa equipe do rastreio comia, já nos tinha dito na “galhofa” que todos os homens daquela terra atravessavam a fronteira a pé, para ir “abastecer-se” à dita aldeia espanhola.

- Com o “calo” mal tratado entupi de vez! Fui à urgência, a um sítio que chamam de SAP: Ele (o médico) é que não foi ao sítio certo. Rasgou-me toda a cabeça do pénis! Mas o mal estava mais para cima. (faz o gesto demonstrativo) Às tantas já nem pingava! Cheguei a meter-lhe uma agulha, daquelas grossas; das injecções. Finalmente, entupido de vez, voltei outra vez às urgências, ao tal SAP. Enfiaram-me numa ambulância. Mandaram-me para o hospital, lá em baixo, desta Serra! Nunca tive sorte na vida… Para meu mal, os médicos da bexiga estavam todos de férias.

Estive mais de vinte e quatro horas, entupido, deitado a rebolar de dor em cima de uma maca. Já farto de sofrer, roubei uma agulha a uma enfermeira que passava por ali distraída, e com ela furei a minhoca. Sangrei por todos os buracos!

Passadas muitas horas, veio um médico, que me diz muito irritado ao ver aquele espectáculo:

- Olhe como é que você se pôs!

- O Senhor Doutor é que me pôs assim, de tanto me fazer esperar!

Espetou-me uma agulha na barriga. A urina saiu como se fosse um chafariz. Vieram enfermeiras estagiárias, espantadas, para ver aquela desgraça.

Quando o médico, da bexiga, voltou de férias da praia, lá me operaram. Agora nem tenho minhoca. Na sala de operações disse ao anestesista antes de me cortarem:

- Não me importo que vossemecês me estraguem da cintura para baixo!

Eu sei, que se estão a fazer esforços honestos para reformar todo este sistema! Vejo com agrado e esperança governantes, altos dirigentes, médicos, enfermeiros sinceramente implicados nesta muito necessária luta para a reorganização dos cuidados primários. Espero mais tarde, não ouvir alguém a dizer: Foi preciso mudar tudo para ficar tudo na mesma!

Pelo menos, que todos os actores implicados, aprendam a usar a palavra humanização nesta revolução!

Mário Salgueiro

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Foto de Verónica S.

Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
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