Manuel da Cruz Ferreira... Assim não, colega.
DATA
21/10/2008 04:48:05
AUTOR
Jornal Médico
Manuel da Cruz Ferreira... Assim não, colega.

(...) Não aceito que os muitos milhares de euros dos meus impostos sejam distribuídos a quem não merece


 

1. Assim não, colega.

A D. Maria C.B., 82 A., internada num lar de idosos, na área da SRS de Lisboa, em 2007, fez as seguintes análises “de rotina”, com credencial do SNS passado pelo médico do Lar (29/08/07):

a) Hemograma + Vs. b) QUÍMICA: Glicémia, Hemoglobina A1c, Colesterol Total,  HDL Col., LDL Col., Triglicéridos, Ureia, Creatinina, Ác. Láctico, TGO, TGP, GamaGT, F.Alcalina, DHL, CK, CK-MB, Magnésio, Cálcio, Fósforo, Ionograma, Bilirrubinas, Proteinograma, UrinaII. C) ENDÓCRINAS: T3, T4, TSH, Paratormona, Acth. D) SEROLOGIA: PCR, Waler Rose, Ac anti H. Pylori. E) IMUNOLÓGICAS: Ac anti-tiroideus, Ac anti-nucleares. F) MARCADORES TUMORAIS: CEA, CA 125, CA 19.9, Alfafetoproteina.

Pois bem: valores alterados? Ligeiro aumento do colesterol (217) e dos triglicéridos (233). Restantes: normais.

Problemas de Saúde da doente? AIT há anos, sem sequelas; uma intervenção cirúrgica a nódulos tiroideus, sem repercussão funcional, e a um nevo da face; osteoartrose não incapacitante e ansiedade. Veio à minha consulta, trazida pelo filho, por tosse arrastada, por receio de “pneumonia”, que não se confirmou. Trazia consigo o dossier clínico que a auxiliar do lar simpaticamente facultou, o que tornou possível a presente reflexão com os leitores do MF.

Folheando as páginas do dito, vi mais impressos de análises, que comecei a registar na minha ficha clínica. Pois então: no dia 16/11/07 (menos de 3 meses depois) esta idosa, aparentemente sem qualquer justificação clínica, fez mais 41 análises (no mesmo laboratório, claro), a saber: todas as 39 acima referidas mais duas: Vit. B12 e Ác. Fólico.

Agora vamos a contas. Fiquei a matutar uns dias nesta coisa, pedi números a quem sabe e concluí: cada série destas análises custa “em regime de privado” 999, 30 Euros. Para a ARS, que consegue baixar a fasquia devido à “economia de escala”, fica em cerca de metade. Portanto: nas duas séries esta utente custou ao erário público cerca de 1000 Euros. E quanto terão custado os outros residentes, ano após ano?

Se fosse beneficiária da ADSE, por exemplo, não isenta, é claro que a família fiscalizaria as contas no fim do mês e contestaria a despesa. E qualquer seguradora exigiria uma justificação plausível, que não há.

Quem paga tudo sem contestar? Só o Estado, com o nosso dinheiro.

Razão tem Miguel Sousa Tavares (“Expresso, 22/12/07): “Em termos de cidadania há duas espécies de portugueses: os que vivem a pagar ao Estado e os que vivem a tirar ao Estado. E o resto é conversa de comendadores ou de benfeitores”.

E porquê esta minha indignação e por que decidi trazer isto a público, após vários meses de hesitação com os rascunhos guardados na gaveta?

Porque esta história configura um comportamento anti-ético, que me choca como médico e como cidadão.

Porque não aceito que os muitos milhares de euros dos meus impostos sejam distribuídos a quem não merece.

E porque simplesmente me considero com direito pessoal à revolta, porque, por exemplo, trabalhei num bom lar de idosos nos últimos 7 anos, com bons resultados clínicos, e sabem qual foi a média de gastos anual em análises dos 45 residentes do Lar?

Dois terços fizeram anualmente as 10 análises de rotina que todos conhecemos (hematológicas e químicas), que custam ao Estado menos de 30 euros (trinta). E cerca de 1/3 do total terá feito outras, conforme as patologias (PSA para os homens com <85 A, hemoglobina glicada para alguns diabéticos, análises de função tiroideia em 2 ou 3 casos, etc., etc.), e mesmo para estes, a despesa terá acrescentado 20 a 25 Euros por cada.

Pergunta: o código de barras foi inventado para quê?

R: Para (des)enfeitar as requisições de análises e receituário do SNS.

 

2. Assim não, senhores farmacêuticos “de oficina”.

Cada vez mais vem à baila, nas nossas conversas entre pares e com os delegados de informação médica (DIM) que ainda nos visitam, o desagrado com as trocas que o nosso receituário sofre nas “Farmácias Portuguesas” (ah, a força do marketing do guru João Cordeiro...).

Parte destas trocas acontecem porque muitos de nós claudicámos perante a última alteração ao receituário e não fomos suficientemente firmes a exigir respeito pela nossa decisão e não cruzamos as receitas. Claro que a força organizada de quem sabe gerir negócios impôs-se, e hoje “eles” trocam o que podem e o que não devem, incluindo receitas com a “cruzinha”, sem qualquer cerimónia e total impunidade.

É hoje voz corrente que recebem bónus de laboratórios genéricos (cujos delegados só visitam farmácias, não médicos) da ordem dos 300 a 500% sobre as vendas. Pergunta: se é verdade, qual o circuito destas embalagens? Como chegam ali? E o tal código de barras?

Veja-se a notícia do último “Médico de Família”, suplemento “Molécula”, pág. 1 e 2: “Em 2007 mais de 2,5 milhões de doses de produtos da Sanofi-Aventis pirateados foram descobertos em todo o mundo”.

Alguns DIM de Laboratórios, que mantêm a ÉTICA, assistiram atónitos à descida das suas vendas para zero. Alguns ousaram trocar impressões com farmacêuticos com quem “em tempos” tiveram relações cordiais e ouviram respostas do género: “O que é que espera? Vocês não dão nada”.

E esta, dum “mauzão”: “Daquela porta para dentro mando eu, e troco tudo o que puder”.

 

3. E assim? (Correia de Campos dixit) 

O ex-ex-futuro Ministro C. Campos, expert indiscutível das coisas da Saúde, e que mexeu com mérito e de forma corajosa em dossiers difíceis, publicou há dias mais um livro e não resistiu a mais uma boutade, numa entrevista ao 24 Horas:

“Se tiver um acidente na rua, peço por tudo que me levem a uma urgência pública”. Sr. Professor: faltam estudos que comprovem a sua tese. Haverá bom e mau nos dois campos, resta quantificar percentagens, não acha?

Ou terá sido por necessidade de fazer jura de fidelidade ao SNS, para esquecer a tal frase de há anos que, nesta mesma entrevista, reconheceu ter sido “infeliz”: “Nunca fui nem nunca irei a um SAP” (que, curiosamente, foi o mote para a minha rentrée destas crónicas, há dois Outonos atrás).

O Sr. Professor perdeu uma oportunidade de apelar, isso sim, à necessidade da sã concorrência Público/Privado, que concorrerá certamente para a melhoria de ambos (além de ter sido indelicado mais uma vez para com o alvo errado). O SNS, em risco de ruptura, deveria estar agradecido por milhares de utentes seus procurarem as actuais urgências privadas das grandes cidades, com sobrecarga financeira das suas depauperadas bolsas. Vão lá porquê?

Espero que, daqui por alguns meses, sua excelência não se sinta na obrigação de achar infeliz esta frase: ou porque acabou mesmo de lá ir parar (cruzes...) ao malfadado Privado e até gostou; ou porque foi à tal “urgência maravilhosa”, e por azar não foi reconhecido como VIP e a triagem de Manchester o catalogou de nível 3 e ficou verde de esperar quatro a seis horas para ser atendido. É a vida, como dizia o outro “ex”.

Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
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