O calcanhar de Aquiles dos CSP
DATA
01/11/2008 07:48:40
AUTOR
Jornal Médico
O calcanhar de Aquiles dos CSP

E-counseling, registo médico electrónico e telemedicina. Três ferramentas cada vez mais utilizadas pelos médicos de família, algumas de uma forma ainda muito experimental e outras à base de doses, por vezes desmotivantes, de "carolice"...  

E-counseling, registo médico electrónico e telemedicina. Três ferramentas cada vez mais utilizadas pelos médicos de família, algumas de uma forma ainda muito experimental e outras à base de doses, por vezes desmotivantes, de "carolice"... As novas tecnologias de informação e comunicação - as chamadas TIC - têm vindo a enraizar-se na prática da Medicina Geral e Familiar, pelo que se impõe uma reflexão cuidada sobre o seu papel na relação médico/doente, na organização dos serviços e na prestação de cuidados. Foi o que fizeram os participantes na mesa-redonda sobre As TIC e o médico de família...

 

"Quantos de vocês utilizam o correio electrónico na comunicação com os vossos doentes?".

Poucos foram os braços no ar, em resposta à questão colocada por Yonah Yaphe, médico de família (MF) do Rabin Medical Centre, em Israel (actualmente a residir no nosso país), na sessão sobre As TIC e o MF, que decorreu no âmbito das XXIII Jornadas de Medicina Geral e Familiar (MGF) de Coimbra.

O e-counseling - utilizado por Yonah Yaphe há mais de quatro anos, no âmbito de um programa de assistência em Saúde a trabalhadores de uma empresa canadiana - ainda é uma prática muito pouco disseminada entre os MF portugueses.

O especialista, que já acompanhou cerca de 600 casos com base neste método, refere que o e-counseling provou ser "efectivo, seguro e económico", constituindo-se como uma opção especialmente útil em áreas como a depressão, a dependência de álcool e outras substâncias psicotrópicas, disfunções familiares, problemas parentais e de convívio com adolescentes, coabitação psicológica com a doença, informação sobre patologias, sintomas ou potenciais efeitos adversos da medicação.

Numa análise empírica desta experiência, o médico do Rabin Medical Centre apurou que as tecnologias da comunicação e informação (TIC) são particularmente úteis para os doentes isolados geograficamente. Ou para aqueles que têm dificuldades na fluência do discurso, afasia ou agorafobia, por exemplo, e que, por escrito, conseguem transmitir com maior precisão os seus problemas. A generalidade dos pacientes também refere ser reconfortante o facto de existirem registos escritos, ao contrário do que acontece numa consulta vulgar, cujos pormenores são muitas vezes esquecidos ao final de algum tempo.

No entanto, Yonah Yaphe salienta que este género de aconselhamento padece de limitações evidentes. A impossibilidade de captar as pistas da comunicação não verbal, a partir da linguagem corporal ou do vestuário usado pelo doente é uma delas. E importa salientar que estes são factores importantes nos casos de psicose ou de depressão, nomeadamente.

A realização da maior parte dos diagnósticos também se revela complexa, já para não falar no impedimento total de examinar o doente ou de instituir terapêuticas. Há ainda a considerar o desfasamento de tempo entre as mensagens trocadas, bem como as barreiras ético-legais e administrativas que ainda se levantam à utilização do e-counseling. No que toca a este último aspecto, estão em causa a formação específica dos profissionais, a garantia de qualidade, o pagamento desta actividade, jurisdição específica e os procedimentos necessários em casos de má prática.

Em jeito de conclusão, o especialista israelita explicou que esta é apenas mais uma ferramenta disponível e que jamais poderá substituir a visita ao médico de família. Ainda assim, a disseminação do seu uso pelo MF é desejável... Uma vez que, na grande maioria dos casos, e se o bom senso imperar, os benefícios superam os riscos.

 

RCE, SI e outras fontes de frustração...

 

Outra ferramenta importante para a prática de uma Medicina Geral e Familiar verdadeiramente do séc. XXI é o registo clínico electrónico (RCE).

Todavia, a realidade ainda anda muito longe deste cenário ideal e os sistemas de informação (SI) são, amiúde, um fonte de problemas e de frustrações diária para os profissionais dos cuidados de saúde primários (CSP).

Que o diga Daniel Pinto, interno de MGF na Unidade de Saúde Familiar (USF) S. Julião, em Oeiras, que lida diariamente com os constrangimentos que ainda assombram a utilização dos SI.

Desde a transição incompleta dos registos em papel para o formato digital, passando pela incapacidade de inserção de instrumentos de avaliação familiar como o genograma (muito utilizados na consulta de MGF), a inserção deficiente de fotos ou desenhos, até à não inclusão de exames não comparticipados... São inúmeras as limitações dos SI, lamentou o jovem médico.

"O custo ainda é elevado (implica investimento no desenvolvimento, hardware, licenças e formação dos utilizadores) e o beneficiário da poupança nem sempre é o mesmo que suporta os custos", lembrou Daniel Pinto, lamentando, igualmente, o facto de o desenvolvimento dos SI ser sobretudo "economicocêntrico", em vez de "médico-cêntrico".

Outro grande problema, no entender do interno, é a falta de padronização entre softwares. "SAM, VitaCare, Medicine One... São todos autistas; não se articulam entre si", referiu. O facto de o correio electrónico não estar integrado no sistema de RCE - "temos que estar com duas aplicações distintas abertas" - é outro entrave à utilização agilizada desta ferramenta, acrescentou.

As vantagens da utilização, essas, já são bem conhecidas, ainda que em teoria: são mais eficazes, mais seguros, melhoram os esquemas de decisão, permitem a partilha de informação, reduzem a ocorrência de erro médico, aumentam as boas práticas, entre outras.

Para o futuro, Daniel Pinto preconiza a necessidade de compatibilidade e comunicação entre os SI, destes se tornarem mais "médico-cêntricos" e os alertas clínicos mais inteligentes, e de o RCE permitir a inclusão do genograma, de texto livre por parte do médico e de ferramentas de apoio à decisão clínica.

Para isso, sustentou, é preciso haver "vontade e força política para obrigar as empresas fabricantes de software a incluírem nos sistemas as referidas funcionalidades".

Igualmente imprescindível é que se registem avanços concretos no plano da regulamentação. "Estou convencido que com a mudança de competências para a ACSS - que vai passar a certificar as aplicações, já a partir de Janeiro de 2009 - as coisas vão melhorar", concluiu o jovem médico.

E deixou um repto aos colegas: "os utilizadores destes sistemas de RCE e outras aplicações clínicas têm que colocar estes problemas e limitações por escrito e direccioná-las para quem de direito (os

Redimensionar as listas de utentes e rever a Carreira Médica é um imperativo
Editorial | Jornal Médico
Redimensionar as listas de utentes e rever a Carreira Médica é um imperativo

A dimensão das listas de utentes e a Carreira Médica são duas áreas que vão exigir, nos próximos tempos, uma reflexão e ação por parte dos médicos de família.

Mais lidas