Medicina concilia diferenças culturais
DATA
19/11/2008 05:06:52
AUTOR
Jornal Médico
Medicina concilia diferenças culturais

A fronteira entre a prática da Medicina Familiar e a pesquisa antropológica e sociológica é muito ténue. É que ser médico de família é estar imerso numa matriz cultural complexa, que obriga a compreender o binómio indivíduo/sociedade, para se alcançar a eficácia terapêutica

 
 
A fronteira entre a prática da Medicina Familiar e a pesquisa antropológica e sociológica é muito ténue. É que ser médico de família é estar imerso numa matriz cultural complexa, que obriga a compreender o binómio indivíduo/sociedade, para se alcançar a eficácia terapêutica
 
“Uma só doença pode afectar duas pessoas de forma, por vezes, radicalmente diversa, como se tivesse a capacidade de se ramificar em patologias autónomas. Tudo por causa do background cultural, que é variável”, assegura Cecil Helman, especialista em antropologia médica. É, pois, fundamental, conhecer a fundo as crenças dos doentes, antes de traçar planos para qualquer tratamento ou acção preventiva.
A receita universal para resolver desafios clínicos é uma ilusão, na medida em que o doente não é uma tábua rasa, mas antes um agente modelador da evolução da sua própria saúde. Cecil Helman ilustra – ao tomar como exemplo uma das condições mais vulgares entre a população mundial – como o médico caminha em terreno movediço: “determinados indivíduos, quando questionados sobre o que representa para eles a HTA, afirmam que ela é o resultado da acumulação excessiva de tensões emocionais. Trata-se de uma assunção comum em várias culturas”. O doente, na avaliação que faz do seu problema, incorpora quase sempre interpretações sobre o mundo natural e o mundo sobrenatural. Este ponto de vista estilhaçado, que o deixa muitas vezes confuso e perdido, não pode ser ignorado pelo profissional de saúde, sob pena de ambos caírem num processo de comunicação infértil.

Aventura das linguagens não-verbais
Todos os médicos de família sabem, por experiência, que a narrativa do doente emerge lentamente, ao longo de uma ou várias consultas. Esta narrativa abarca, não só a linguagem verbal, mas também pistas de comportamento e até espirituais. “Para nos tornarmos bons médicos de família em grandes cidades europeias (afinal ricos repositórios multiculturais), é essencial que sejamos multilingues. Isto é, que tenhamos a capacidade de ir além da linguagem verbal que nos é transmitida”, esclarece o médico sul-africano.
O simbolismo da doença e das suas manifestações é um ponto crucial na agenda do médico, sempre que tenta lançar pontes em direcção ao doente. Sobretudo, quando os antecedentes étnicos e culturais divergem entre os dois, de forma drástica.
Cecil Helman relembra, por exemplo, que cada cultura desenvolve significados simbólicos para determinados tipos de mal-estar, ao eleger uma parte do corpo como veículo para as suas queixas: “cada grupo pode escolher um órgão específico para corporizar o seu lamento. Por exemplo, um doente paquistanês pode chegar junto de nós e dizer que o seu rim está a sofrer, o que significará que se sente deprimido, já que na sua cultura, o rim está associado aos distúrbios de humor e à tristeza”.
Verifica-se, assim, que o corpo é mais do que um instrumento mecânico, já que se enche, nestas circunstâncias, de uma intensa carga simbólica.
Para além de ser necessário contornar estes simbolismos, sem os procurar destruir, o médico de família é confrontado, ainda, com a necessidade de ultrapassar o desconhecimento que muitos doentes revelam acerca da sua anatomia e de aspectos fisiológicos elementares.
Durante décadas, a comunidade médica não prestou a devida atenção a este problema, até ser despertada por duras evidências.
Num estudo realizado no Reino Unido, no qual se pedia que os cidadãos explicassem graficamente como funcionava o seu corpo, “67% dos inquiridos retratava o estômago como um órgão que ocupa toda a cavidade abdominal, enquanto 22% estavam convencidos de que o coração preenchia a região torácica”.

Comportamentos estranhos têm explicação
Do extenso rol de contactos que manteve com múltiplas culturas, Cecil Helman é capaz de extrair episódios que demonstram como a cultura influencia, em doses substanciais, o comportamento dos doentes. Entre eles, o que envolve as mulheres de algumas sociedades do Médio Oriente: “as mulheres, nesta parte do globo, têm razões muito próprias para resistir ao uso da pílula. O uso deste método é menor do que na Europa, ou na América, porque a menstruação torna-se menos intensa e as mulheres temem não expurgar aquilo que consideram ser mau sangue. Na sua visão tradicional, o organismo liberta-se deste sangue porque ele é prejudicial, o que significa que perante os efeitos da pílula, ou em fase de menopausa, estas mulheres enchem-se de dúvidas”.
Tal como se revela necessário desenvolver um diálogo ajustado a estas referências culturais, também em relação à própria maturação e experiência de vida do doente é devida alguma cautela. Cecil Helman defende que o médico deve recorrer a estratégias centradas no fim que pretende atingir: “dizer a um rapaz de 15 anos que não pode fumar, porque terá elevadas hipóteses de morrer daí a trinta anos, é quase insignificante. Para este adolescente, uma escala temporal de trinta anos é completamente intangível. É preciso transmitir-lhe um impacto claro e imediato e não um alerta à distância. O mesmo se passa com pessoas muito pobres, que vivem apenas o dia-a-dia, num contexto de enorme insegurança”.

Regresso a valores seguros
Por todas as razões atrás descritas, o antropólogo sul-africano acredita que estão criadas as condições para um novo cenário, em que o médico de família “se torna um cientista social aplicado, para além de um clínico”. Neste contexto, a classe médica não deve assustar-se com aparentes recuos, em particular com o resgate de velhos hábitos. Na opinião de Cecil Helman, as medicinas não convencionais fazem hoje uso de práticas que a geração do seu pai via como intrínsecas à função, e que entretanto foram descartadas como pouco rigorosas: “no âmbito deste tipo de medicinas, gasta-se por vezes mais tempo com os doentes, estes são tocados e geram-se consultas cordiais e afectuosas. Por outro lado, quem intervém nesta área não convencional compreende o efeito placebo e vê-o como algo de positivo, de útil, na relação terapêutica”.
Assim, o antropólogo médico afirma que é importante dar meia volta, e “reaprender com estas medicinas não convencionais algumas coisas elementares, que temos vindo a esquecer”.
Mas a César o que é de César, ao povo o que é do povo. Cecil Helman julga que um médico confrontado com questões que nada têm, na sua base, de patológico, tem a responsabilidade de apoiar quem o procura em estado de angústia: “tive alguns casos em que os doentes, durante as consultas, se queixavam de feitiçaria e maus-olhados. Nesses momentos, encaminhava-os para quem, dentro das comunidades, lidava com estas crenças enraizadas. Há que tratar o que é estritamente cultural no âmbito cultural”.
 
Um homem de muitas curas
Cecil Helman construiu a sua carreira académica a partir de um pressuposto simples: os preconceitos não têm lugar no estudo das estratégias humanas para alcançar o bem-estar. Figura de renome no campo da antropologia médica, observou de perto e ao longo de décadas, múltiplas formas de cuidados aceites cientificamente, mas também tradições ancestrais de regeneração do corpo e da mente. Constituem, hoje, marcos, as investigações que conduziu no continente africano e na América do Sul, centradas no papel de curandeiros, assim como o trabalho científico realizado em torno de inúmeros sistemas de cuidados de saúde primários. Nascido na Cidade do Cabo (África do Sul), Cecil Helman teve no seu pai – ele próprio médico de família – a primeira referência profissional. Já depois de ter abraçado a Medicina como profissão, mudou-se para o Reino Unido, onde se especializou em Antropologia, pelo University College.
Trabalhou durante 27 anos como médico de família no serviço nacional de saúde britânico, na região de Londres, acumulando essa função com responsabilidades académicas e de investigação. Pelo meio, encontrou ainda tempo e energia para se tornar escritor (já se abalançou quer à prosa, quer à poesia). Um dos seus títulos mais recentes, a colecção de memórias “Xamã Suburbano: Crónicas na Linha da Frente da Medicina”, foi muito bem recebido pela crítica no Reino Unido, sendo inclusive escolhido como livro da semana pela BBC e adaptado a série radiofónica. É, todavia, a sua obra académica “Cultura, Saúde e Doença” que maior prestígio lhe granjeou fora das ilhas britânicas. Actualmente, é leitura recomendada num largo número de escolas de saúde e faculdades de medicina europeias e americanas. De destacar, ainda, as inúmeras publicações em jornais científicos, como o British Journal of General Practice, o British Medical Journal ou o Lancet.

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Editorial | Jornal Médico
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