Adolfo Rubinstein, presidente da CIMF
DATA
19/11/2008 05:17:24
AUTOR
Jornal Médico
Adolfo Rubinstein, presidente da CIMF

Na América Latina o grau de desenvolvimento da Medicina Familiar e Comunitária é muito diverso. Depende, essencialmente, das características socioeconómicas, políticas, étnicas e culturais dos diferentes países. Segundo Adolfo Rubinstein, presidente da Confederação Ibero-Americana de Medicina Familiar, o pior é que, na maioria dos casos, trinta anos depois da Conferência de Alma Ata, ainda não existe uma visão clara da necessidade de organizar os sistemas de saúde com base nos cuidados de saúde primários

 

Na América Latina o grau de desenvolvimento da Medicina Familiar e Comunitária é muito diverso. Depende, essencialmente, das características socioeconómicas, políticas, étnicas e culturais dos diferentes países. Segundo Adolfo Rubinstein, presidente da Confederação Ibero-Americana de Medicina Familiar, o pior é que, na maioria dos casos, trinta anos depois da Conferência de Alma Ata, ainda não existe uma visão clara da necessidade de organizar os sistemas de saúde com base nos cuidados de saúde primários

Jornal Médico de Família - Qual é o posicionamento da Confederação Ibero-Americana de Médicos de Família (CIMF) na WONCA Mundial?
Adolfo Rubinstein – A CIMF foi criada em 1982, ou seja, já tem mais de 25 anos. Até 2004, a WONCA, enquanto organização mundial dos médicos de família, não possuía um grupo representativo dos países latino-americanos.
A CIMF, que entretanto se tinha tornado uma organização internacional que englobava todas as sociedades dos países latino-americanos, além de Espanha e Portugal, iniciou as negociações com a WONCA no final dos anos 90. Dessas negociações resultou a incorporação da CIMF como sexta região mundial da WONCA. Desde 2004, a WONCA Ibero-Americana engloba todas as sociedades de Medicina Familiar da América Latina, assim como Espanha e Portugal.
O papel de Espanha e Portugal é muito importante, na medida em que têm uma dupla vinculação à WONCA Europa e à WONCA Ibero-Americana. Constituem uma espécie de ponte entre a Europa e a América Latina.

Como começou o movimento de formação da CIMF?
No início chamava-se Centro Internacional de Medicina Familiar. Tratava-se, fundamentalmente, de um grupo de apoio para o desenvolvimento da Medicina Familiar na América Latina e também em Espanha e Portugal. Repare-se que estamos a falar do início dos anos 80, quando a especialidade ainda não existia.
A partir de 1996, transformou-se numa organização de sociedades. Já não era um grupo que impulsionava o desenvolvimento da Medicina Familiar, mas uma organização com representação institucional. O passo seguinte foi a sua incorporação na WONCA Mundial.

Qual é o papel da Confederação na Wonca Mundial?
Na minha qualidade de presidente regional da WONCA Ibero-Americana, tenho assento no conselho executivo mundial e participo em todas as instâncias da WONCA.
Essencialmente, o que se pretende é que haja uma voz que represente a realidade de países menos desenvolvidos. Como todas as organizações mundiais, em geral, a WONCA tem um forte domínio anglo-saxónico. É importante que latinos e hispanos estejam presentes para falar das realidades dos seus países.

O conceito de Medicina Familiar surgiu com Alma Ata. Mas quando começou, de facto, a desenvolver-se na América Latina?
Na Argentina, por exemplo, o verdadeiro desenvolvimento da Medicina Familiar teve lugar nos últimos dez anos.
A América Latina é um continente muito heterogéneo no que diz respeito às suas realidades socioeconómicas, políticas, étnicas e culturais e isso tem repercussões ao nível do desenvolvimento da Medicina Familiar e Comunitária.
Existem países, como Cuba ou Costa Rica, onde a especialidade está muito desenvolvida e outros onde se encontra em franco crescimento, como é o caso do Brasil.

E qual é o ponto da situação na Argentina?
Na Argentina, o principal problema é que o sistema de saúde é muito fragmentado. A Segurança Social cobre cerca de 60% da população. Surge, em segundo lugar, um sector provincial, que abrange aproximadamente 30% e, por último, o sector privado, com 10%.
Cada um destes subsectores encontra-se, por sua vez, muito fragmentado.
A Segurança Social, por exemplo, tem mais de 300 obras sociais. Isso faz com que seja mais difícil articular políticas nacionais. Apesar de, em cada um dos subsectores, a Medicina Familiar e Comunitária estar em crescimento, não existe uma decisão política unívoca relativamente à criação de um sistema nacional de saúde.
Naturalmente que teria que ser diferente do modelo português, espanhol ou inglês porque o desenvolvimento do sector da Saúde, na Argentina, seguiu um percurso diferente. Mas seria desejável que houvesse uma melhor articulação e integração entre todos os sectores.

Quais são, em geral, as expectativas de desenvolvimento da especialidade de MGF nos 18 países latino-americanos representados na CIMF?
Não há, em geral, decisões políticas claras sobre o desenvolvimento da especialidade de Medicina Familiar e Comunitária. Na Confederação Ibero-Americana de Médicos de Família trabalhamos muito, com todos os países, no sentido de homogeneizar e harmonizar os objectivos da formação dos internos de Medicina Familiar. Em média, o internato dura três anos e, fundamentalmente, os programas estão bastante orientados para a aquisição de competências nos cuidados de saúde primários, ou seja, os objectivos nucleares da especialidade são muito claros.
Todavia, as realidades são muito diversas. Em termos gerais, diria que a realidade e a situação dos médicos de família latino-americanos não é nada favorável. Na maioria das vezes, trabalham sozinhos e em muitos países ainda não existe uma visão clara da necessidade de organizar os sistemas com base nos cuidados de saúde primários.

Conhece a realidade portuguesa? Como avalia a reforma em curso nos nossos cuidados de saúde primários?
A criação das unidades de saúde familiar é uma iniciativa extremamente importante. Revela uma transformação do sistema nacional de saúde, mais orientado para os cuidados de saúde primários. Penso que recolhe algumas experiências do Brasil, como o Programa de Saúde da Família, que começou a ser desenvolvido há alguns anos atrás.
A reforma portuguesa é, de facto, muito importante, e possui características inovadoras muito interessantes.

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Editorial | Jornal Médico
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