Dádiva norueguesa impulsionou centros de saúde
DATA
19/11/2008 06:23:02
AUTOR
Jornal Médico
Dádiva norueguesa impulsionou centros de saúde

Quase três décadas passadas após a abertura do primeiro centro de saúde financiado com dinheiro norueguês, no distrito de Vila Real, uma delegação daquele país nórdico esteve em Trás-os-Montes. A convite da Administração Regional de Saúde de Norte, os médicos e académicos vindos da Escandinávia tiveram a oportunidade de rever velhos amigos, confirmar a evolução dos investimentos... E perceber que a aposta transmontana valeu a pena

 

Quase três décadas passadas após a abertura do primeiro centro de saúde financiado com dinheiro norueguês, no distrito de Vila Real, uma delegação daquele país nórdico esteve em Trás-os-Montes. A convite da Administração Regional de Saúde de Norte, os médicos e académicos vindos da Escandinávia tiveram a oportunidade de rever velhos amigos, confirmar a evolução dos investimentos... E perceber que a aposta transmontana valeu a pena

 Corria o ano de 1980 e o mês de Outubro. Em Ribeira de Pena, concelho de Vila Real, o período pós-revolucionário era menos agitado do que nas regiões urbanas e litorais de Portugal, mas o atraso socioeconómico particularmente grave. Neste cenário peculiar, em que a calma imperava contra os sinais do tempo, a população despertou para um dia muito diferente. O novo centro de saúde (CS), acabado de construir com o apoio da Agência Norueguesa para a Cooperação no Desenvolvimento (ou NORAD) e do reino norueguês, abria portas. Todos estavam convidados para conhecer o espaço e não se fizeram rogados. A enchente ficou na memória colectiva e ainda hoje desperta memórias fortes, em todos quantos viveram aquele dia único.
Para recordar a jornada, uma comitiva de representantes noruegueses veio ao distrito de Vila Real. Para além do CS de Ribeira de Pena, passaram também pelo CS de Vila Pouca de Aguiar, inaugurado em 1982. No balanço final, percebeu-se que os portugueses sabem tirar o melhor partido da ajuda que recebem, em quase todos os campos. Mesmo que aqui e ali se descubram desperdícios.

Avanços lusos são reconhecidos
Dag Bruusgaard, director do Departamento de Clínica Geral e Medicina Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade de Oslo (e médico de família a tempo parcial) esteve, pela primeira vez, no distrito de Vila Real em 1982. Desde então, ele e outros colegas ligados ao projecto suportado pela NORAD passaram várias vezes pelos locais onde o dinheiro norueguês foi investido. Ao nosso jornal, o médico norueguês confirma que encontrou agora um país muito diferente, por comparação com a década de 80: “recordo-me que a envolvência dos centros de saúde e das vilas era muito pobre na altura. Agora, tem um aspecto mais desenvolvido e arrumado”. O mesmo representante garante que ao visitar, em 2008, os CS de Ribeira de Pena e Vila Pouca de Aguiar fica com a nítida impressão de que o nosso país conseguiu dar um salto qualitativo, ao nível dos cuidados de saúde primários: “fico feliz por perceber que estas unidades contribuíram para manter vivo o espírito de Alma-Ata e da Clínica Geral, tal como foi estimulado pela cooperação luso-norueguesa”. Aos responsáveis locais, Dag Bruusgaard garantiu que a comitiva norueguesa iria regressar satisfeita, “por encontrar CS tão bem geridos”.
Ainda assim, Dag Bruusgaard confessou à nossa reportagem que diversos investimentos efectuados – exclusivamente com base em solicitações portuguesas – não conheceram o sucesso antevisto: “é verdade que determinados equipamentos, como as cadeiras para Medicina Dentária, acabaram por não ser usadas como deveriam”. Questionado sobre se Portugal conseguiu encurtar as distâncias em relação à Noruega, no que respeita à prestação de CSP, o catedrático norueguês garantiu que o panorama actual é mais equilibrado. Contudo, Dag Bruusgaard encontra ainda diferenças significativas entre as duas nações: “na Noruega, há um laboratório disponível para cada consultório de Clínica Geral. Isto pode significar que recorremos mais a meios de diagnóstico. Queríamos, aliás, ter colocado essa capacidade instalada nos CS de Vila Real, mas apercebemo-nos de que não seria utilizada com grande regularidade”.

Cooperação deixa boas amizades
No total, foram cinco os CS da região de Vila Real construídos com recurso a dinheiro escandinavo, para além de várias extensões de saúde. Boticas, Montalegre, Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar e Santa Marta de Penaguião foram os locais escolhidos pela NORAD, nos idos anos 80, para concentrar investimentos em infra-estruturas de saúde. O Hospital de Vila Real também foi contemplado, assim como a Escola de Enfermagem ali implantada. Segundo nos declarou Alcino Maciel, presidente do conselho directivo da Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, o modelo de prestação de cuidados norueguês acabou, através deste projecto, por contaminar a oferta de saúde em território nacional: “o conceito de proximidade já era, no final da década de 1970, defendido pelos professores e médicos de Clínica Geral que integravam a iniciativa da Noruega. A cultura de preparar enfermeiros que pudessem permanecer junto das comunidades, com os médicos, sempre foi lá salvaguardada e isto ajuda a explicar o investimento que fizeram na Escola de Enfermagem de Vila Real”. O presidente da ARS do Norte não esquece que na época em que foram construídos estes CS, “Vila Real era dos distritos com priores indicadores de saúde no país” e que a NORAD, decidida a intervir “onde o investimento fazia mais falta à população”, escolheu esta área em detrimento de outras mais favorecidas (Coimbra confiava num apoio norueguês para a construção dos Hospitais Universitários).
Alcino Maciel destaca, também, os laços de afecto gerados entre médicos dos dois países, à medida que o sonho crescia. Assim como o facto “da carreira de Clínica Geral, entre nós, ter sido incentivada pelos académicos noruegueses que cá estiveram na década de 1980”. Para manter a chama da amizade acesa, entre o grupo que agora visitou os CS de Vila Real encontrámos personalidades como Nuno Grande (na fase em que as unidades transmontanas surgiram, embrenhava-se no desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, onde se preparava uma nova geração de médicos de família) e Albino Aroso, ex-secretário de Estado de Saúde.

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Festa espantou corações nórdicos
João Pereira era o presidente da Câmara Municipal de Ribeira de Pena, à época da inauguração do novo CS, construído com a ajuda vinda do Norte da Europa.”Foi uma festa de arromba e os noruegueses ficaram deslumbrados. Não estavam habituados a ver tanta gente, quando se estreavam instalações. Convidamos toda a população, que compareceu em massa. Foi um ver se te avias! Parecia uma praga de gafanhotos e a comida desapareceu”. O autarca assegura que ainda hoje, quando fazem visitas particulares à região, os responsáveis noruegueses comentam esses momentos de euforia.
Na perspectiva muito pessoal de João Pereira, a vontade norueguesa de apostar em território português tem razões profundas e menos conhecidas da opinião pública. Segundo o antigo presidente da autarquia, “a Noruega esteve muito envolvida na revolução de Angola e na autodeterminação do povo angolano. Não veriam, certamente, com bons olhos, que um país como o nosso estivesse a dominar um vasta área em África. Assim, a ajuda dada em Vila Real terá sido, quem sabe, uma espécie de mea culpa”.
Já sobre a escolha de Vila Real como destino do investimento, João Pereira acredita que tal se deveu à forma como a região se alheava do tumulto nacional, há mais de década e meia atrás: “naquela fase pós-revolução de Abril, os noruegueses começaram por viajar pelo Sul, Alentejo e região de Lisboa. As comissões de trabalhadores vingavam, falava-se e barafustava-se muito, mas com poucos resultados. Depois vieram por aí acima e encontraram, no nosso distrito, um meio pobre mas onde se trabalhava sem desordens. Foi quanto bastou para que se decidissem a nosso favor!”.
O apoio extravasou a orla da Saúde. Algumas famílias que regressavam das ex-colónias para a região de Vila Real, sem meios de subsistência e de habitação, foram igualmente alvo da solidariedade nórdica, que ajudou a construir cerca de 20 casas em madeira. Originária, é claro, das florestas da Noruega.

Obra feita… e desaproveitada
Para o actual director do CS de Ribeira de Pena, Paulino Rodrigues, a visita realizada quase trinta anos depois da inauguração da unidade, “é um modo singelo de agradecer à NORAD e ao reino norueguês, por tudo o que fizeram”. Foi também uma boa oportunidade “para matar saudades”, já que o projecto de cooperação acabou por gerar fortes ligações emocionais. Olhando para trás, Paulino Rodrigues lamenta que alguns dos recursos colocados ao dispor da população não pudessem ser aproveitados como deveriam. As cadeiras de Medicina Dentária, presentes em todos os CS construídos com dinheiro norueguês, nunca foram potenciadas no seu local de implantação (a maioria foi mais tarde requisitada pela SRS de Vila Real).
Também os edifícios erguidos para servirem como extensões de saúde, em Canedo e Alvadia, nunca chegaram a ser rentabilizados. “A verdade é que a população residente não o justificava. Em Alvadia, estão hoje inscritos 337 utentes e em Canedo, 637. Neste último caso, alguns dos residentes estão até mais próximas da sede”, conclui o director do CS de Ribeira de Pena.

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Editorial | Jornal Médico
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