Desafios e estratégias para a Saúde no século XXI
DATA
19/11/2008 06:34:09
AUTOR
Jornal Médico
Desafios e estratégias para a Saúde no século XXI

Dando continuidade ao encontro que teve lugar no Rio de Janeiro, em Julho deste ano, decorreu, entre os dias 3 e 5 deste mês, em Lisboa, o segundo Simpósio sobre Saúde, que reuniu médicos, académicos e representantes dos governos português e brasileiro. Os ministros da Saúde de Portugal e do Brasil, Ana Jorge e José Temporão, foram os conferencistas de honra desta iniciativa – integrada nas comemorações dos 200 anos da chegada de D. João VI ao Brasil (1808) –, tendo abordado os desafios estratégicos para a Saúde no século XXI e mostrado como, no que toca a este sector, há problemas transversais aos dois países

 

Dando continuidade ao encontro que teve lugar no Rio de Janeiro, em Julho deste ano, decorreu, entre os dias 3 e 5 deste mês, em Lisboa, o segundo Simpósio sobre Saúde, que reuniu médicos, académicos e representantes dos governos português e brasileiro. Os ministros da Saúde de Portugal e do Brasil, Ana Jorge e José Temporão, foram os conferencistas de honra desta iniciativa – integrada nas comemorações dos 200 anos da chegada de D. João VI ao Brasil (1808) –, tendo abordado os desafios estratégicos para a Saúde no século XXI e mostrado como, no que toca a este sector, há problemas transversais aos dois países

 Aumentar o conhecimento da população sobre os sistemas de Saúde e as necessidades de saúde; rentabilizar os recursos; garantir a qualidade nos serviços; promover a melhoria contínua das intervenções preventivas e médico-assistenciais; incorporar criteriosamente as novas tecnologias médicas e de informação; desenvolver políticas públicas saudáveis que possam permitir a igualdade de oferta aos cidadãos e dar especial atenção às pessoas e aos grupos da população que estão em desigualdade perante a saúde (os mais pobres) e; reforçar a articulação entre os cuidados de saúde primários e os cuidados hospitalares, são alguns dos desafios estratégicos em Saúde assumidos por Ana Jorge.
A ministra da Saúde falava durante a conferência A Saúde no séc. XXI: Desafios e Estratégias, inserida no segundo Simpósio sobre Saúde: Portugal – Brasil 200 anos, que decorreu no passado dia 3, na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL). De acordo com a governante, o aumento da esperança de vida e a emergência de um conjunto de patologias a ele associados são os factores mais desafiadores do século XXI, no âmbito da Saúde.
No entender da actual inquilina da João Crisóstomo, estes poderão ser superados, em grande parte, com a definição de estratégias transversais a outras áreas da sociedade. É que “as questões de saúde atravessam todas os domínios sociais, daí a necessidade de uma intervenção activa, e não apenas por parte do Ministério da Saúde”, frisou Ana Jorge.
A ministra aproveitou a ocasião para apresentar as estratégias de actuação já definidas pela tutela no sentido de responder a todos estes desafios. “A reforma dos cuidados de saúde primários (CSP), a cirurgia de ambulatório e a Linha Saúde 24 são alguns exemplos do que temos feito no sentido de prestar e articular cuidados de qualidade, proximidade e humanizados”, sublinhou.
A transparência é outra das preocupações da actual equipa ministerial, que está a desenvolver uma versão do SIGIC acessível ao público em geral, na persecução de um objectivo: fortalecer mecanismos de participação e de exercício de cidadania em saúde. Promover a avaliação externa e independente do desempenho do sistema e manter a Saúde no topo da agenda política, são outras das apostas estratégicas do ministério de Ana Jorge.

“O que importa é a magia deste abraço!”
No que diz respeito às doenças mais prevalentes na sociedade portuguesa – as cardio-cerebrovasculares, por exemplo, decorrentes de problemas como a obesidade, diabetes e hipertensão arterial (HTA) – “criámos um programa e uma coordenação nacional que lançou as vias verdes do AVC e do enfarte, visando o tratamento atempado e adequado de acidentes vasculares para, assim, conseguirmos reduzir, não só a mortalidade, mas também as complicações que advêm de um tratamento tardio desses acidentes”, lembrou a ministra, salientando, ainda, a importância do Plano Nacional de Prevenção e Controlo da Diabetes e da Plataforma contra a Obesidade. Já no campo das doenças oncológicas, Ana Jorge lembrou que Portugal desenvolveu o rastreio em três áreas oncológicas prioritárias: colo do útero, mama e colo-rectal. “Neste momento, estamos a alargar o rastreio do cancro do colo do útero a todo o País. Além disso, só na primeira semana após a comparticipação da vacina foram imunizadas 23 mil jovens contra o HPV”, sublinhou a governante, adiantando que fica a faltar promover, de forma ainda mais alargada, o rastreio do cancro da mama e levar o rastreio do cancro colo-rectal a todo o País, o que “está já previsto para 2009”, assegurou.
O reforço do Plano Nacional contra a SIDA surge também como uma prioridade, sobretudo no que respeita à prevenção primária em faixas etárias mais baixas, pois, “se estiverem mais esclarecidos, os jovens têm mais condições para se protegerem”, disse Ana Jorge.
Em jeito de conclusão, a ministra defendeu a responsabilidade do Estado pela Saúde dos seus cidadãos e mostrou-se aberta à cooperação com o Brasil, no plano da resolução de problemas comuns. E citando Vinicius de Moraes – “O que importa é a magia deste abraço!” –, a inquilina da João Crisóstomo salientou a importância do simpósio que juntou responsáveis lusos e brasileiros, primeiro no Brasil e agora em Portugal.

Tabaco e álcool na mira do governo brasileiro
Na conferência, o ministro da Saúde brasileiro, José Temporão, transmitiu, de forma clara, as prioridades da tutela brasileira em termos de promoção da Saúde.
Tabagismo, alcoolismo e obesidade têm sido alvos de acção prioritária do outro lado do Atlântico e os resultados, refere o governante, “estão à altura dos que foram obtidos na luta contra a SIDA”, isto é, “muito bons”.
“Estamos a trabalhar estes três grandes factores de risco em todas as faixas etárias, mas essencialmente junto das escolas. Trata-se de um processo que visa condicionar comportamentos diferenciados e gerar o debate para a construção de uma consciência de saúde diferente”, esclareceu o governante brasileiro, referindo que a grande dificuldade é que “a prevenção destes factores esbarra em interesses da indústria, dos media e de lobbies no Congresso Nacional”.
Há ainda dilemas éticos que se levantam, lembrou o ministro. “Não é fácil resolver a polémica entre a liberdade individual de escolha e as acções do Estado na defesa da Saúde colectiva”, reconheceu.
Outro grande desafio da Saúde em terras de Vera Cruz prende-se com a intenção do Governo de articular a lógica da Economia com a lógica da Saúde. “Neste momento, o Executivo brasileiro enfrenta alguns interesses privados. Neste contexto, o ministério da Saúde pretende abrir o mercado a novas possibilidades, no sentido de dinamizar o seu complexo industrial. Isto é, ver a Saúde também na sua dimensão económica, como indústria, como área de desenvolvimento e inovação, de emprego e de paradigma tecnológico”, explicou José Temporão.
“O Estado encara o sector da Saúde como uma janela de oportunidades, não descurando o seu triplo papel de promotor, regulador e comprador”, concluiu o ministro brasileiro.

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