Médicos estão a abandonar o tabaco
DATA
19/11/2008 07:09:07
AUTOR
Jornal Médico
Médicos estão a abandonar o tabaco

A “grande maioria” dos médicos portugueses está a deixar de fumar. A conclusão é de um estudo levado a cabo por Miguel Natal, médico de família e coordenador da USF Pinhal de Frades. O estudo, a que o nosso Jornal teve acesso, concluiu que cerca de 50% dos médicos questionados fumavam e que destes, mais de 40% abandonaram o cigarro...

 

A “grande maioria” dos médicos portugueses está a deixar de fumar. A conclusão é de um estudo levado a cabo por Miguel Natal, médico de família e coordenador da USF Pinhal de Frades. O estudo, a que o nosso Jornal teve acesso, concluiu que cerca de 50% dos médicos questionados fumavam e que destes, mais de 40% abandonaram o cigarro...

Miguel Natal, médico de família (MF) e coordenador da Unidade de Saúde Familiar (USF) Pinhal de Frades, no Seixal, fez um levantamento nacional para determinar o consumo de tabaco pelos médicos portugueses.
O estudo, a que o nosso jornal teve acesso, concluiu que cerca de 50% dos médicos questionados fumavam, e que destes, mais de 40% abandonaram o hábito tabágico.
O trabalho de investigação Os Médicos e o Tabaco procurou determinar qual a prevalência do tabagismo na classe médica em todo o país. “O estudo conclui que a grande maioria dos médicos está a abandonar o tabaco. Cerca de 50% dos médicos questionados fumava e percebemos que, actualmente, 40% já abandonou o tabaco”, explica o autor da pesquisa, apresentada recentemente, no âmbito das 1as Jornadas de Patologia Respiratória em Medicina Familiar da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).
De acordo com Miguel Natal, “é fundamental salientar que parte do sucesso da cessação tabágica reside na motivação própria, como primeiro passo”. Neste sentido, sublinha o MF de Pinhal de Frades, “a força de vontade é crucial num processo de desabituação tabágica”. Ainda segundo o autor do estudo Os Médicos e o Tabaco, “outros motivos que levaram os clínicos a deixarem de fumar passam, essencialmente, pela influência dos familiares ou por motivos de saúde, à cabeça dos quais as doenças respiratórias”.
A investigação, que teve como objectivo determinar qual a prevalência do tabagismo na classe médica em todo o país, foi realizada entre 2005 e 2006, envolvendo um total de mil questionários. Foram validadas 327 respostas. Os inquiridos tinham idades compreendidas entre os 24 e os 87 anos.

Médicas têm maior dificuldade em deixar de fumar
Os resultados da pesquisa levada a cabo por Miguel Natal – que tem realizado vários trabalhos nesta área – revelam que, actualmente, cerca de 11% dos médicos são fumadores, 40% abandonou o hábito e quase 49% são não fumadores.
O estudo concluiu, também, que no universo considerado, a iniciação ao tabagismo ocorreu por volta dos 16 anos de idade e que há mais fumadores masculinos do que femininos. No entanto, adquirido o hábito, as mulheres apresentam maior dificuldade em deixar de fumar.
Assim, a taxa de abandono do hábito tabágico é superior nos homens, sendo que dos 40% (homens e mulheres) que deixaram de fumar, 24,4% são homens e 15,6%, mulheres.
Ainda no que toca aos resultados obtidos entre as mulheres médicas, cerca de 10% destas profissionais fumam, enquanto que na população feminina, em geral, a taxa ronda os oito por cento.
Os motivos pelos quais homens e mulheres decidiram deixar de fumar variam entre a vontade própria (35%), motivos de saúde (19,85%) e influência de familiares (10, 69%).
Um outro dado relevante refere que 37,2% dos inquiridos admitiu ter começado a fumar por influência dos colegas, mas apenas seis por cento afirmou ter decidido deixar o vício por influência daqueles.
Miguel Natal admite que, ao nível dos jovens, tem havido uma evolução muito positiva, referindo que pela primeira vez em 15 anos, encontrou turmas do secundário sem um único fumador. Um dado constatado no âmbito do programa Saúde Escolar, realizado no âmbito da área de intervenção da USF que o médico de família coordena.
Para o autor de Os Médicos e o Tabaco, “a cessação tabágica significa qualidade de vida”. Assim, conclui, “considero que os profissionais de saúde devem intervir de forma incisiva desde a pré-adolescência, para fazer prevenção e ajudar a evitar a epidemia do tabagismo”.

 

Desde a entrada em vigor da Lei do Tabaco…
Consultas cessação tabágica mais do que duplicaram

O número de consultas de cessação tabágica “mais do que duplicou” desde que a Lei do Tabaco entrou em vigor no início deste ano, revelou, em declarações à agência Lusa, o pneumologista e director da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), Agostinho Marques.
“Só na região Norte, existem mais de uma centena destas consultas”, adiantou o especialista, sublinhando que na sequência da discussão da Lei do Tabaco, e sua posterior entrada em vigor, houve “uma procura enorme dos doentes por este tipo de consultas. Afluxo que entretanto estabilizou”.
De acordo com o pneumologista, que falava no âmbito das 1as Jornadas de Patologia Respiratória em Medicina Familiar da FMUP, que decorreram recentemente na Invicta, existe actualmente “um número suficiente” de consultas de cessação tabágica, na medida em que “o fluxo de doentes é normal e não há lista de espera”.
Contudo, salientou, os resultados obtidos nas consultas antitabágicas, são “modestos”, situando-se entre os 25 e os 30 por cento os doentes que ao fim de um ano deixaram, efectivamente, de fumar.
No entender do médico, os resultados poderiam ser superiores se alguns medicamentos, considerados eficazes no tratamento, fossem comparticipados. “O que acontece é que os fumadores vão à consulta, mas muitas vezes abandonam o tratamento porque este representa uma carga financeira elevada”, explicou.
Apesar da tendência apontar para “uma descida ligeira” no consumo de tabaco, a verdade é que “os portugueses continuam a ter muita dificuldade em deixar de fumar, não procuram as consultas e não cumprem os tratamentos”, considerou Agostinho Marques. O pneumologista recordou que duas das doenças “mais graves e mais caras” – o cancro no pulmão e a doença pulmonar crónica obstrutiva – estão relacionadas com o tabagismo.
Segundo dados recentes, cerca de 90 por cento dos casos de cancro do pulmão são provocados pelo consumo de tabaco. E as estatísticas indicam que o consumo de tabaco é responsável por 11,7 por cento das mortes ocorridas em Portugal.
Em destaque nas 1as Jornadas de Patologia Respiratória em Medicina Familiar da FMUP esteve a elevada prevalência das doenças respiratórias, como a asma, que afecta cerca de 800 mil portugueses; a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), que afecta cerca de 500 mil e a apneia do sono (400 mil).
O especialista alertou para o facto de, no nosso país, os doentes se automedicarem muito nas infecções respiratórias agudas.
“Os pais utilizam indevidamente os antibióticos nas crianças, o que aumenta a sua resistência às bactérias e à toxicidade. Em situações de doença futura, esta habituação prejudica os tratamentos e a sua eficácia”, salientou Agostinho Marques.
O encontro científico contou com a presença de 400 médicos de família e teve como objectivo a partilha de casos e experiências clínicas, numa abordagem mais próxima da prática clínica diária.

Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos
Editorial | Jornal Médico
Serviço Nacional de Saúde – 40 Anos

Reler as origens do Serviço Nacional de Saúde ajuda a valorizar o presente e pode ser uma forma de aprender para investir no futuro com melhor fundamentação

Mais lidas