Jornal Médico Grande Público

Estimular a investigação nos CSP
DATA
26/02/2009 08:20:51
AUTOR
Jornal Médico
Estimular a investigação nos CSP

Entre os tópicos quentes do próximo Encontro Nacional estará, com toda a certeza, o actual panorama da investigação nos CSP...

Entre os tópicos quentes do próximo Encontro Nacional estará, com toda a certeza, o actual panorama da investigação nos cuidados de saúde primários. Desde já, fica a promessa de que este será um dos pratos fortes do evento. Da investigação - um parente pobre nos centros de saúde - dependem, a médio e longo prazo, vários indicadores de qualidade: qualidade de serviço, qualidade na formação, qualidade na decisão, qualidade no que respeita à gestão de recursos. Por isso, os organizadores da iniciativa estão interessados em promover um amplo debate, capaz de esclarecer quais as condições ideais para o florescimento de um novo perfil de investigador: menos errático, mais protegido.

Durante muitos anos, a investigação vocacionada para os cuidados de saúde primários (CSP) foi quase inexistente; uma fracção ínfima da actividade desenvolvida nos centros de saúde (CS) portugueses. Mas paulatinamente, têm vindo a despontar projectos, ainda que a um ritmo demasiado lento para o potencial do sector.

A Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG) tem plena consciência de que este é um campo importante para a vitalidade profissional dos médicos de família (MF), pelo que, nos últimos anos, tem colocado especial ênfase no trabalho produzido pelo seu Núcleo de Investigação.

É precisamente este núcleo que prepara a mesa redonda dedicada à Investigação em CSP, que terá lugar no grande auditório, logo após a cerimónia de abertura e a conferência inaugural, numa evidente demonstração do relevo que é dado ao assunto

Os oradores convidados para esta mesa-redonda são Jaime Correia de Sousa, médico na USF Horizonte e docente da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho - UM, Clara Fonseca, membro do Núcleo de Investigação da APMCG e responsável pelo sector de investigação na Coordenação do Internato Médico de MGF da Zona Norte, e Yonah Yaphe (médico de família, membro do EURACT e professor convidado da Escola de Ciências da Saúde da UM). A moderação da mesa ficará a cargo de um elemento do Núcleo de Investigação da APMCG, a designar.


Quem lidera?

Segundo Clara Fonseca, a discussão deverá, tendencialmente, orientar-se para as responsabilidades no campo da investigação em CSP: "quem deverá incentivar e liderar a investigação em CSP? Serão preferencialmente as academias, as coordenações do Internato ou os serviços de saúde (CS e unidades de saúde familiar)? Também será importante perceber o papel da APMCG, relativamente ao progresso da investigação".

Pela forma como a própria mesa-redonda está pensada, é previsível que todas as vertentes da investigação sejam abordadas, de um modo transversal. Jaime Correia de Sousa - dadas as suas responsabilidades académicas - falará, sobretudo, da investigação desenvolvida em fase pré-graduada e dos projectos saídos do meio universitário. Já Clara Fonseca, enquanto responsável pela investigação no Internato, irá apresentar à audiência as possibilidades que se abrem em torno da formação pós-graduada e dos programas que neste momento decorrem, sob o égide da Coordenação do Internato de MGF da Zona Norte. Por seu lado, Yonah Yaphe explicará como o MF, inserido no seu contexto profissional, pode desenvolver projectos interessantes ao nível da investigação.

 

APMCG define estratégia para investigação

No tempo reservado para debate será discutido o papel que APMCG deverá desempenhar na forma como a investigação em CSP é conduzida em Portugal.

"Atendendo, inclusive, às pessoas que participam directamente na mesa, será inevitável que se discuta que tipo de estratégia deverá a associação assumir no futuro", explica Clara Fonseca. São vários, os caminhos possíveis. A APMCG poderá tornar-se, em primeira linha, numa entidade incentivadora de projectos, apoiar ao nível da consultoria técnica colegas que desejem explorar novas ideias ou, em alternativa, transformar-se ela própria numa instituição que procura de forma activa e trabalha novas linhas de investigação. "Este é um debate muito actual. O Núcleo de Investigação da APMCG vai passar a acompanhar mais de perto as actividades da European General Practice Research Network (EGPRN), a rede de investigação da WONCA, com a presença de representantes nossos numa reunião que se realiza em Maio", esclarece Clara Fonseca. A associação mostra-se, assim, interessada em colher ensinamentos internacionais que possibilitem um rápido crescimento da investigação em CSP em Portugal.

encontro_ investigacao_2.jpg

Clara Fonseca relembra que há um conjunto de matérias práticas sobre investigação em CSP que deve de ser clarificado, de preferência com o contributo da APMCG

 

Há também questões práticas que importa analisar e que constituem preocupações habituais dos MF. Clara Fonseca exemplifica algumas das dúvidas que afligem quem se aventura por estes trilhos: "é natural que as pessoas se questionem sobre várias matérias. Entre as quais a necessidade (ou não) da investigação ser desenvolvida durante o horário normal, a utilidade de constituir grupos autónomos - dedicados a esta área - dentro dos serviços, ou as vantagens de uma contratualização específica, com as unidades de saúde familiar". Para a representante do Núcleo de Investigação da APMCG, esta mesa-redonda é, sobretudo, uma oportunidade de ouro para "lembrar os colegas de que a investigação também faz parte das suas atribuições enquanto MF; da sua missão. Trata-se de uma componente muito esquecida da actividade profissional, à qual é preciso imprimir ânimo ".

 

Não desperdiçar mais oportunidades

Se o potencial de investigação nos CSP é enorme, é igualmente verdade que inúmeras oportunidades se perderam, num passado recente, devido à pouca energia dispendida na concretização de boas ideias. Esta é, pelo menos, a opinião de Jaime Correia de Sousa. O docente da Escola de Ciências da Saúde da UM vê a sessão de Vilamoura de uma forma pragmática: "vamos discutir com os colegas os mecanismos facilitadores da investigação e, sobretudo, como esta deve ser enquadrada no dia-a-dia, na prática clínica. É importante olhar para este tipo de actividades como algo de natural e integrado, não como um extra que é levado a cabo quando temos um tempinho livre".

De acordo com este MF, é evidente que escasseiam, hoje, os estímulos à investigação em CSP: "não há tempo protegido para estas actividades, no seio do Serviço Nacional de Saúde. Trata-se de um tempo que devia estar salvaguardado nos contratos dos profissionais, o que não acontece. Assim, quando a investigação se concretiza, é vista quase sempre como um quisto nos serviços, não como uma actividade digna e fundamental para o desenvolvimento da arte".

Durante a sessão do 26º Encontro deverá também vir à baila a necessidade de melhorar a qualidade e abrangência dos trabalhos científicos. "Temos de deixar de lado os estudos pequenos - feitos por duas ou três pessoas - e caminhar no sentido de grandes estudos cooperativos, realizados por redes de profissionais (a trabalhar em unidades de saúde familiar, ou nas universidades, por exemplo)", defende Jaime Correia de Sousa.

 

Parcerias: caminho para o futuro?

É sabido que a APMCG procurou (de forma intermitente mas obstinada) manter viva a chama da investigação. Fruto dessa vontade é o núcleo direccionado para esta área, criado em 2007, responsável por diversas conferências e mesas-redondas nos principais eventos da APMCG. O mesmo grupo esteve na origem da obra "Investigação Passo a Passo", publicada em Setembro de 2008. Este manual oferece a todos os MF que desejam envolver-se na investigação respostas simples e sistematizadas às suas interrogações.

encontro_ investigacao_3.jpg

Para Jaime Correia de Sousa, é evidente que a investigação em CSP tem sido continuamente relegada para segundo plano  

Todavia, é desejável chegar mais longe. " A associação tem capacidade para fazer muito trabalho positivo. Pode, a título de exemplo, gerar linhas de investigação passíveis de captar financiamento. Ou - talvez ainda mais interessante - dialogar com as autoridades de saúde no sentido de se criarem instrumentos de apoio à investigação, como sejam bolsas ou tempos de serviço protegidos para determinadas equipas", aponta Jaime Correia de Sousa, que também defende a existência de estruturas, profissionalizadas ou semi-profissionalizadas, que perdurem no tempo e que prestem apoio nas áreas da metodologia de investigação e da bioestatística: "derivariam, quem sabe, de uma parceria entre a APMCG, as Coordenações dos Internatos e as universidades. Por que não fazer um instituto de investigação em conjunto, no qual a associação é um dos parceiros? Neste campo, é óptimo que a associação se revele uma dinamizadora. O que não significa que tenha de fazer tudo sozinha e assumir o exclusivo da tarefa". Tal união de esforços seria proveitosa também ao nível dos financiamentos, por via de fundos comunitários, de projectos internacionais ou do apelo a fundações e instituições públicas e privadas.

De resto, Jaime Correia de Sousa gostaria que a revitalização do tema, em Vilamoura, tivesse o condão de influenciar a agenda da APMCG em meses vindouros: "a atenção particular que a associação tem dedicado à reforma dos CSP - sem dúvida uma matéria importante - não deveria permitir que se deixasse cair uma área tão relevante quanto a da investigação. Sinto que não tem existido suficiente empenhamento neste sector. Embora tenhamos de compreender que, muitas vezes, somos poucos para tanta solicitação e que o tempo não chega para tudo".

Saúde Pública

news events box

Mais lidas

Has no content to show!