Jornal Médico Grande Público

“Queremos descentralizar decisões, em favor dos ACES”
DATA
22/03/2009 06:03:51
AUTOR
Jornal Médico
“Queremos descentralizar decisões, em favor dos ACES”

Num momento crucial para a reorganização dos cuidados de saúde primários – os agrupamentos de centros de saúde materializam-se, ao mesmo tempo que são conhecidas as conclusões do relatório produzido pelo Conselho Consultivo para a Reforma dos CSP, lesto a apelidar as mudanças como um acontecimento extraordinário – o secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, acredita que os resultados obtidos até agora são notáveis.

 

Num momento crucial para a reorganização dos cuidados de saúde primários – os agrupamentos de centros de saúde materializam-se, ao mesmo tempo que são conhecidas as conclusões do relatório produzido pelo Conselho Consultivo para a Reforma dos CSP, lesto a apelidar as mudanças como um acontecimento extraordinário – o secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, acredita que os resultados obtidos até agora são notáveis. Em entrevista exclusiva ao Médico de Família, Pizarro aceita, porém, que há ainda muito trabalho pela frente. Aponta como exemplos, o fomento de um novo tipo de unidade de saúde familiar, a pensar no meio rural, e também a melhoria no acto de contratualizar e o apuro dos sistemas de informação. Nota também para a promessa de que os ACES a criar no seio das Unidades Locais de Saúde se manterão fiéis ao espírito da reforma, sem desvios pragmáticos e ao sabor das circunstâncias locais

 

Médico de Família – Que lugar terão, nos futuros CSP, os médicos não aderentes às unidades de saúde familiar (USF), sem disponibilidade para trabalhar mais horas e em horários variáveis, mas que conseguem desempenhar com qualidade as tarefas inerentes a uma lista superior a 1.500 utentes?
Manuel Pizarro – O que estamos a procurar assegurar é que, no futuro, as condições de exercício sejam as mais próximas possíveis entre profissionais. A ideia da criação das Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) visa, precisamente, gerar um enquadramento para os médicos que estão fora das USF, ao nível do trabalho e do atendimento, que esteja o menos distante possível das USF. É óbvio que o grau de autonomia atingido pelas USF é específico destas equipas. Mas trata-se de algo que impõe o correspondente grau de responsabilidade. Aceitamos, como é natural, que nem todas as pessoas queiram assumir esta responsabilidade, por razões de diversa ordem.
Dito isto, o nosso modelo preferencial será sempre o das USF, porque queremos encorajar autonomia e responsabilidade.
Ou seja, o modelo das UCSP pretende dar uma boa resposta organizativa para estes profissionais que não pretendem aderir às USF e, sobretudo, para as populações, que não podem ver a qualidade do atendimento minorada ou prejudicada.

E como será feita a avaliação de desempenho destes profissionais não integrados em USF? Um médico que possua uma lista de 2.500 utentes ficará, na prática, numa situação distinta de outro colega com uma lista de 1.750 utentes. Será tratado de forma diferente?
Antes de mais, há uma reflexão a fazer dentro de cada agrupamento de centros de saúde (ACES). Cada direcção clínica e cada director executivo terá de fazer uma gestão dos seus recursos o mais adequada possível às características individuais das pessoas.
É certo que a avaliação é uma área muito difícil, em particular no que respeita à actividade médica, onde os aspectos da quantidade e da qualidade contam do mesmo modo. Nunca poderemos falar somente da quantidade de utentes atendidos. É obrigatório abordar também a qualidade com que tal atendimento é prestado.

Mas do ponto de vista prático, como será acompanhada a actividade destes profissionais? O juízo sobre a sua produtividade dependerá de dados puros e duros, recolhidos a partir dos sistemas de informação, por exemplo?
No imediato, não temos os instrumentos para fazer uma avaliação generalizada do desempenho. Aliás, um dos temas da negociação das carreiras médicas, actualmente em curso com os sindicatos, é precisamente o da criação de um padrão de avaliação de desempenho. Isto porque a progressão nas carreiras acaba apenas por distinguir grandes grupos de profissionais (neste momento há um número limitado de graus), sendo insuficiente para uma avaliação quotidiana do desempenho do trabalho e da relação com os doentes.
Será necessária a colaboração dos sindicatos para que surja uma grelha de avaliação de desempenho que seja clarificadora.
Em concreto – e nos locais de prestação de cuidados –, são grandes as minhas expectativas em relação à introdução do conselho clínico nos ACES. Parece-me que será possível, com eles, um julgamento mais profissional e humanizado (menos burocrático) daquilo que é a actividade dos médicos, com a possibilidade de fazer distinções. Sabemos que a maioria dos médicos se dedica à sua actividade com empenho e que são muito bem vistos por utentes e colegas. Mas também ninguém ignora que há médicos cujo perfil de intervenção deixa muito a desejar. Em alguns casos, tais incorrecções registam-se ao nível técnico, noutras numa dimensão humana.
Enquanto médico, defendo até que falta de delicadeza no tratamento com os doentes é um erro técnico.

Explicou-nos o que está reservado para os médicos que fiquem fora das USF. Falta agora dizer-nos o que planeia o Ministério para as áreas onde é elevado o número destes profissionais no terreno… A marcha lenta destes ACES, suportados apenas em UCSP, não irá provocar atrasos organizacionais, ou pelo menos disparidades regionais?
Não nos pudemos esquecer da realidade muito própria do meio rural, com populações reduzidas e dispersas. Neste contexto específico, vamos ter de fazer algum trabalho no sentido de evoluir com o modelo de USF até agora proposto. A Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP) – e o Dr. Luís Pisco, em particular – têm, aliás, referido esta matéria por diversas vezes.
Provavelmente, o modelo de USF implementado nos dois últimos anos está demasiado virado para as comunidades urbanas, densamente povoadas. Para nossa felicidade, em muitas dessas comunidades rurais, o formato de atendimento dos actuais centros de saúde (CS) já é mais amigável, do ponto de vista do acesso do doente. Significa isto que uma parte do problema já estará resolvido, com a possibilidade das UCSP virem a consolidar uma prática de atendimento que está muito próxima das pessoas.

Não vislumbra, então, o risco do país funcionar a diferentes velocidades, conforme a capacidade de mobilização para as USF em cada área geográfica?
Julgo que vamos conseguir uniformizar as regras essenciais, que são as do acesso e as da qualidade de cuidados – para nós as prioritárias.
É claro que nos próximos três a quatro anos assistiremos a uma mudança profunda nos recursos humanos disponíveis para os cuidados de saúde primários (CSP), não só porque muitos médicos de família (MF) estão perto de atingir a reforma, mas também porque há agora grupos alargados de jovens médicos a terminar a sua formação de especialidade. Serão perto de duas centenas na Medicina Geral e Familiar em 2010, e mais três centenas em finais de 2011, inicio de 2012, com tendência para o número se manter. Estamos perante uma renovação geracional e eu, pessoalmente, acredito que ela poderá corresponder a uma adesão mais vincada às USF.
Muitos destes jovens especialistas estão, diga-se, a fazer o seu treino em USF e ficarão motivados para participarem num modelo organizacional que é mais evoluído.
 
Não querendo apelar aos seus dotes de adivinho, impõe-se no entanto a pergunta… para quando, afinal, a generalização das USF a todo o país? Há, com certeza, metas neste domínio e relembro que três distritos (Castelo Branco, Guarda e Portalegre) permanecem ainda sem qualquer unidade em funcionamento…
Tenho a esperança de que será possível mitigar essa falha e que, até ao final deste 1º semestre de 2009, teremos apenas um distrito sem USF. Mais uma vez, o sucesso desta incumbência passará pela mudança do modelo USF e da sua adaptação ao mundo rural. Hoje, para criar uma USF são necessários quatro médicos. Ora, há muitos CS no contexto rural que não têm um quadro com quatro médicos. Depois, há situações em que o CS acolhe cinco ou seis médicos, mas existem conflitos de natureza pessoal muito enraizados, que impedem qualquer processo de aproximação.
Isto obriga-nos a procurar soluções distintas para a ruralidade e, em algumas regiões, a introduzir formatos que apostam numa colaboração interprofissional ainda mais marcada, através de partilha de responsabilidade entre unidades. 

Parece haver, no território nacional, algumas USF que mudaram muito pouco a oferta de saúde, em relação ao passado. São USF no nome e na placa identificativa, não na filosofia e na acção. A entrada em funcionamento destes “equívocos” não nivela a qualidade por baixo, em particular quando eles transitarem para o Modelo B?
Eu desejaria que tal não acontecesse, que existisse o máximo rigor na avaliação das USF que entram em funcionamento.
Apesar de tudo, no nosso País, há poucas experiências na administração pública que se comparem com a avaliação intensa actualmente realizada a partir da actividade das unidades de saúde familiar. Não estou a dizer que a administração é perfeita e que tenhamos ao nosso dispor todos os instrumentos (designadamente ao nível dos sistemas de informação) que nos permitam fazer uma avaliação consistente. Mas a verdade é que escasseiam as realidades na administração pública que em que se esteja tão exposto à avaliação, como sucede com as USF.

Mas há, ou não, USF de segunda no activo?
Reconheço que podem existir dois riscos. O primeiro está relacionado com a grande pressão política para a criação de novas USF. Nós fazemos essa insistência, de forma recorrente, no nosso diálogo com as Administrações Regionais de Saúde (ARS). Ao admitir isto, estarei desde logo a assumir que o poder político poderá contribuir, num caso ou noutro, para que não sejam respeitadas todas as normas de rigor. Em termos pessoais, eu não conheço nenhum caso e neste contexto, como em outros, temos de relembrar que quase nunca se apontam dedos. Se alguém quiser indicar um exemplo específico, obviamente que mandarei averiguar o que se passa. De outro modo, ficaremos sempre no universo das suspeitas generalizadas…
Por outro lado (e passa por aqui o segundo risco), já identificámos uma contradição no nosso modelo de governação da reforma. É que as entidades que prestam apoio regional têm dupla função: possuem uma componente de estímulo e outra de monitorização/controlo. Ora isto não faz muito sentido, no presente. Foi um sistema que funcionou muito bem, numa fase de arranque da criação das USF, que nos ajudou a colocar de pé mais de 160 unidades – das quais muito nos orgulhamos – às quais acrescem mais algumas dezenas, prontas a entrar no terreno, durante o 1º semestre de 2009).
Porém, chegou a altura de reconhecer que o modelo necessita de uma maior separação entre a função de ajuda e a de monitorização, com esta última a passar para outra entidade, que não a equipa regional de apoio. 

Já falamos das USF. Entremos agora no campo dos ACES, que desde o início foram considerados uma peça fundamental desta reforma. As lideranças destes ACES servirão apenas para distribuir os recursos vindos de cima, ou terão autonomia para os rentabilizar e para acompanhar de perto os progressos das unidades, em termos de qualidade?
No fundo, o que me está a perguntar é qual o grau de autonomia dos directores executivos dos agrupamentos. A nossa intenção é conceder grande autonomia no que diz respeito aos recursos assistenciais.
Contudo, a ideia de construção dos agrupamentos de centros de saúde subentende um duplo movimento que não é fácil de articular: por um lado, diminuir o peso das tarefas administrativas e burocráticas (profissionalizando e externalizando, sempre que possível, estes encargos) e, por outro, descentralizar a gestão clínica; encontrar uma gestão voltada para a resposta aos problemas das pessoas.
Este duplo movimento vai exigir muito esforço e haverá, com certeza, a necessidade de acompanharmos, a cada momento, o novo processo de contratualização entre as ARS e os ACES, que efectiva a verdadeira descentralização de decisões.
Ou seja, a minha resposta é esta: queremos descentralizar decisões, em favor dos ACES. Trata-se, ainda assim, de uma resposta que não é linear e que necessita de ser explicada e contextualizada. Por isso, devo chamar a atenção para o facto de existir um risco, teórico, da centralização vir a aumentar…

Ou, pelo menos, o risco de aumentar o número de patamares de decisão, até que se chegue às USF e a quem presta cuidados…
O risco de transformar 18 sub-regiões burocratizadas em 74 ACES burocratizados não é um mero espantalho. Ele existe efectivamente e precisa de ser combatido, com vigilância quotidiana e mecanismos que permitam um bom controlo, em particular ao nível das cartas de missão dos directores executivos e de regras de contratualização. Nada disto vai aparecer de um dia para e outro, já que se trata de um processo completamente inovador no âmbito dos CSP. Desde já, fico contente por no momento actual já termos todas as questões vitais bem equacionadas, mesmo que nos falte muito trabalho para conhecer todas as respostas, no concreto. Duvido, aliás, que muitas destas respostas pudessem ser produzidas num qualquer gabinete central. Elas têm de ser dadas à medida que o processo for decorrendo, como aconteceu com a implementação das USF. Repare que o modelo da contratualização com as USF – na minha óptica bastante razoável – foi construído ao longo de dez anos, com raízes nos projectos alfa e nos regimes remuneratórios experimentais. Consolidaram-se práticas, experiências e informação que permitiram que os profissionais e o Estado decidissem um conjunto de indicadores para o modelo de contratualização, o qual necessita (ainda assim) de ser aperfeiçoado. Veja, então, o caminho que temos a percorrer no que respeita aos ACES! O governo português e o Ministério da Saúde aprenderam muito com a contratualização que envolveu hospitais e USF, mas estamos perante uma nova realidade.

Aproveito a deixa para questioná-lo acerca da contratualização com as USF. Temos vindo a detectar críticas à forma como algumas metas são construídas e impostas pelas ARS e há quem garanta que não passam de números sem contexto, desligados do que cada equipa de saúde pode e deve realmente fazer… Ou seja, uma forma aleatória de distribuir o “folar”…
Não tenho dúvidas de que muito resta por aperfeiçoar. Porém, saliento que chegámos ao final do último mês de Fevereiro com a contratualização para 2009 praticamente concluída. Há ainda várias questões por esclarecer, objecções que me parecem legítimas e que estão a ser trabalhadas, mas temos a contratualização com cerca de 160 USF quase fechada. Se compararmos este cenário com o ano de 2008 (ou de 2007), perceber-se-á a enorme evolução obtida. Em matéria de reclamações concretas, julgo que haverá casos em que os profissionais das USF terão razão e outros em que não. Significa isto que sou sensível ao conjunto de argumentos que ouço, de todas as partes, até porque olhar para contratualização pressupõe ouvir os dois lados; a administração e os profissionais.
Do mesmo modo, parece-me óbvio que não pudemos aceitar níveis de contratualização para as USF abaixo do histórico do CS onde essa unidade está integrada, muito menos quando falamos de equipas em modelo B (onde existe uma componente remuneratória associada ao desempenho). É uma questão de bom senso!
Admito que as principais dificuldades neste processo tenham que ver com os sistemas de informação. Estamos, de facto, ainda atrasados nessa área, embora numa comparação directa a fotografia que poderia ser tirada dos sistemas de informação nos CSP, em Dezembro de 2005, seja muito diferente daquela que retrataria os mesmos sistemas, em Dezembro de 2008. Verificou-se um avanço gigantesco, quer na utilização dos sistemas, quer na produção de indicadores e de informação útil. A mudança é radical, mesmo que neste momento não tenhamos um sistema nos CSP que seja suficientemente alargado e fiável para que possamos medir um conjunto de indicadores importantes.

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Gostaria que abordasse algumas críticas mais precisas, a propósito da contratualização. Recentemente, várias USF alegaram injustiça na forma como as ARS atribuem incentivos financeiros às unidades em Modelo B. O enquadramento legal determina um mínimo de 8 unidades contratualizadas (UC), a pagar quando não existe um histórico mensurável. Mas algumas destas USF já conseguem provar, com dados concretos, que têm direito a mais. Notam-se também interpretações divergentes sobre o assunto, de ARS para ARS…
Fico satisfeito pelo facto dos profissionais lutarem para que melhoremos. Aliás, uma das grandes qualidades da reforma é a mobilização dos profissionais na defesa de condições de trabalho.
De facto, a medida das 8 UC visava proteger as USF das limitações do histórico e dos sistemas de informação. Isto não quer dizer que não tenhamos a obrigação de acompanhar e reconhecer, se for caso disso, as evoluções tecnológicas que as USF conseguirem empreender.
Em função das reclamações de um grupo restrito de USF, que possui um aplicação informática que permite obter dados de produtividade, estamos a preparar – em conjunto com a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e com as ARS – uma resposta equilibrada, a construir em diálogo com os profissionais.
O objectivo da reforma é envolver mais os profissionais, para que se progrida mais rapidamente. É evidente que nunca tomaremos decisões que vão contra esse princípio genérico.

E em relação a casos de imposição unilateral de metas, por parte das ARS…
Quem tem razões para reclamar, tem formas de o fazer, junto das equipas regionais de apoio, da equipa nacional da Missão e em última instância junto do meu próprio gabinete, que nunca se recusou a aceitar protestos.
Há que distinguir entre a discussão sobre metas que as pessoas possam considerar (mediante argumentos técnicos e científicos) difíceis de executar, ou inadequadas, e o caso de USF que desejam contratar níveis de serviço abaixo dos indicadores do CS de onde são originárias, como já me tem sido relatado pelas ARS. São casos distintos, que têm de ser tratados de forma separada.
Desde que se perceba que existe vontade política de colaborar apenas com uma contratualização tecnicamente adequada, estarei disponível para ouvir todos os argumentos apresentados.

Quem está a acompanhar a qualidade do processo de contratualização com as USF e por que razão se verifica tanta discrepância entre as várias regiões?
Este era um problema que subsistia e que temos vindo a tentar melhorar, desenvolvendo, no seio da ACSS, uma área de contratualização para os CSP, que trabalha em estreita ligação com os departamentos de contratualização de cada uma das ARS. Este ano já se verificou uma significativa aproximação de critérios e de normas, entre as várias ARS.
Trata-se, porém, de um trabalho interminável, porque a realidade é sempre mais imaginativa do que as nossas soluções e continuam a surgir novos desafios, anteriormente não ponderados.

Ainda a propósito dos sistemas de informação… muitas das funcionalidades que estavam previstas para o SAM/SAPE continuam ausentes e a tutela nunca deixou claro se pretende uma integração do Alert com estes programas (e com outros utilizados nos CS). Quando será possível ter um dispositivo informático verdadeiramente funcional?
Tenho de fazer uma divisão entre aspectos ligados à infra-estrutura tecnológica e aqueles que dizem respeito aos dispositivos aplicacionais. Sobre os primeiros, espero que possamos chegar ao final de 2009 com uma verdadeira revolução nesta área. Estamos apenas dependentes de um visto do Tribunal de Contas, para finalizar o contrato da rede de nova geração para a Saúde, que constituirá um paradigma na velocidade de transmissão de dados, até agora desconhecido. Com este programa, será possível colocar fibra óptica em todos os CS e extensões com mais de cinco mil utentes. Ou seja, por esta via atinge-se uma largura de banda incomparavelmente superior à actual (o padrão será de aproximadamente 100 megabits, na maior parte dos locais). Associado a esta novidade, estamos a trabalhar no Ministério da Saúde na contratação de um novo data center para o Serviço Nacional de Saúde, de modo a que se possa usufruir de todas as vantagens de uma rede mais capaz, sem factores limitativos. Ficaremos, deste modo, numa das primeiras linhas à escala europeia, no desenvolvimento de uma infra-estrutura tecnológica na área da Saúde.

Mas no âmbito das aplicações, o panorama é menos positivo…
Bem, o problema das aplicações será porventura mais sentido pelos profissionais. Aquilo que poderei dizer é o seguinte: estamos a completar um sistema de certificação para as aplicações dos CSP, que tornará tudo mais transparente e que, espero, possa ser divulgado durante o mês de Abril.
Como se sabe, temos também em curso uma discussão pública que parte de um estudo sobre a viabilidade tecnológica e económico-financeira do SAM/SAPE. O debate está a decorrer e eu não quero antecipar conclusões, mas certamente que o processo nos permitirá tomar decisões claras, descortináveis por todos.

Será então com base no estudo, exclusivamente, que a tutela escolherá o rumo para o SAM/SAPE?
As opções são as conhecidas (estão descritas no estudo) e a única garantia é a de que caso se opte pela continuidade do SAM/SAPE, a aplicação será única. Não faz qualquer sentido que os sistemas de informação para médicos e enfermeiros existam em separado. Também terá de ser definido – se o Ministério optar pela manutenção da aplicação – qual o modelo de desenvolvimento da mesma (evolução em outsourcing, concessão ou venda a entidade externa). Penso que até ao final de Março teremos as condições para tomar uma decisão concludente sobre esta matéria e não escondo que temos feito alguma reflexão, interna, sobre as hipóteses que estão em cima da mesa.

E em relação ao uso integrado do Alert P1?
Acredito que também durante o mês de Março a interacção entre o SAM e o Alert P1 esteja concluída, alteração que irá abranger uma elevadíssima percentagem dos utilizadores. É ainda previsível que a ACSS possa disponibilizar, rapidamente, às empresas de mercado que comercializam os outros sistemas em funcionamento no SNS (MedicineOne e VitaCare) as informações de cariz técnico essenciais para que a integração se faça com as restantes aplicações. Ou seja, no final de 2009, todos os profissionais deverão puder beneficiar deste conjunto de melhorias, que resultam da combinação de uma nova rede e de alterações efectuadas à forma como as aplicações comunicam entre si.
Devo apenas salientar (até pela aprendizagem que fui fazendo) as dificuldades que estão inerentes à contratação pública. O nosso país tem características sui generis, uma das quais passa por reclamar concursos públicos para todas as movimentações do Estado (o que é, do ponto de vista da transparência, recomendável), que depois geram uma massa de descontentes. Raramente quem concorre e é preterido se conforma com as decisões tomadas.

O que nos pode dizer sobre o módulo estatístico do SAM?
Este módulo permite o acesso de cada profissional a dados relevantes e está já em plena produção. Já foi distribuído o manual de instruções durante a reunião de directores executivos de ACES e penso que na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, inclusive, já foi realizada a formação dos profissionais, preparando-os para o uso do módulo. A ideia central que desejo transmitir é a de que o módulo estatístico do SAM está tecnologicamente pronto e vai ser disponibilizado muito em breve.
Depois há o módulo de indicadores, que se tem revelado um pouco mais complexo de montar, na sua versão aperfeiçoada. Ainda assim, as informações que tenho, levam-me a afirmar que, no muito curto prazo, também ele estará disponível no terreno.

Passemos, então, ao dossier unidades locais de saúde (ULS). Pretende o governo manter a organização autónoma ao nível dos CSP, dentro das ULS, através do modelo ACES? As recentes portarias assinadas pelo governo – para cada uma das regiões de saúde – criam todos os ACES previstos, excepto aqueles que deveriam ficar dentro das ULS. É um pouco estranho… dir-se-ia que há um espírito de contra-reforma!
Nada disso. Na verdade, o governo acaba de aprovar um decreto-lei que vem precisamente clarificar o paradigma de ACES a criar dentro das ULS. O que aí vem expresso é muito simples: nas ULS, a organização ao nível dos CSP terá de ser similar à que pudemos encontrar fora delas. Ou seja, os ACES dentro das ULS terão de obedecer aos mesmos princípios que regem os restantes agrupamentos. As unidades funcionais dos agrupamentos serão com certeza iguais, talvez com alguns ajustes no que respeita às Unidades de Apoio à Gestão, pela própria dinâmica interna das ULS e da sua gestão integrada de recursos.

Nas ULS, a direcção clínica será, de facto, conjunta e exercida em paridade por directores clínicos de ACES e da área hospitalar?
É isso que está determinado pelos diplomas, que deixam bem clara a obrigatoriedade de existir um director clínico para os CSP.
Julgo que há muitas pessoas neste país que continuam a fazer um grande alarido em torno de matérias que têm um peso relativo, no âmbito da reformulação do sector da Saúde e dos CSP. Relembro que as ULS abarcam, neste momento, apenas perto de 8% da população e que não estão disponíveis avaliações sustentadas sobre o modelo.

Mas o seu colega de governo, Dr. Francisco Ramos, já veio afirmar publicamente que o modelo ULS é para disseminar no território e que em breve haveria novidades nesse campo. Quem está de fora poderá especular sobre visões discordantes dentro do Ministério, uma espécie de guerra surda…
Não. A ideia que está por detrás das unidades locais de saúde é, em si mesma, muito positiva. Trata-se de um modelo atraente, para o qual ainda não encontrámos par em termos de eficácia, pese embora as várias soluções informais de articulação hospital/centro de saúde já tentadas. O problema é que ainda não detemos avaliações seguras sobre as mais-valias do modelo, devido à ausência de uma massa crítica. Por isso, o intuito do governo será fechar o actual ciclo de ULS com mais duas ou três estruturas desta natureza e partir daí para um período de avaliação sistematizada. 

Não lhe parece imprudente a aposta num modelo que não tem qualquer registo de monitorização, cuja única experiência com alguma longevidade ocorre em Matosinhos (e que não é do agrado geral)?
Sem a tal massa crítica de que falei, sem um número razoável de ULS, também não haveria nada para comparar e para avaliar!
É certo que a experiência de Matosinhos não é bem vista por alguns profissionais, mas também conheço opiniões divergentes, que se mostram satisfeitas com a integração conseguida. Acima de tudo, penso que é importante não entrar neste debate fazendo uso de argumentos dogmáticos. Relativamente aos perigos da subalternização dos cuidados de saúde primários, face à área hospitalar, eu sei que preocupam muitas pessoas. O que teremos de fazer é manter-nos vigilantes e desenvolver os dispositivos necessários, dentro das organizações, para que este fantasma não passe disso mesmo.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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