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Evidência e Qualidade: Medicina ancorada em boas experiências
DATA
08/04/2009 06:02:55
AUTOR
Jornal Médico
Evidência e Qualidade: Medicina ancorada em boas experiências

Desenvolver a Medicina Geral e Familiar de acordo com práticas seguras, que reduzem o risco para o utente, é sem dúvida um dever. Mas também um claro sinal de qualidade na prestação de cuidados  

Desenvolver a Medicina Geral e Familiar de acordo com práticas seguras, que reduzem o risco para o utente, é sem dúvida um dever. Mas também um claro sinal de qualidade na prestação de cuidados. No 26º Encontro Nacional estiveram em destaque, não só as mais-valias detectadas através de estudos com peso nos cuidados de saúde primários, mas também os ensinamentos de um país como a Finlândia. Ali, a melhoria contínua da qualidade tem uma longa tradição, claramente exportável

 

O médico finlandês Klas Winell foi uma das presenças internacionais mais notadas da 26ª edição do Encontro Nacional de Clínica Geral. Coordenador da rede nacional de qualidade implementada naquela nação escandinava, ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP), mostrou aos colegas portugueses como é possível apurar resultados em Saúde através de uma boa articulação entre unidades, planeamento cuidadoso e orientações claras para todos os intervenientes no sistema.

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A rede de qualidade disseminada na Finlândia envolve 75 centros de saúde (CS), com empenhamento directo de médicos de família (MF), enfermeiros e outro pessoal especializado. Uma das componentes essenciais para o sucesso da rede passa pelos registos realizados através da Web. Por intermédio de formulários abrangentes, os profissionais de saúde dão nota da monitorização que têm realizado, por exemplo, aos doentes diabéticos ou hipertensos, com a descrição dos antecedentes familiares, eventuais indicadores chave para a evolução da patologia ou procedimentos adoptados no CS, para o controlo da TA. Esta informação é depois integrada numa espécie de benchmarking, através do qual é possível a cada unidade de saúde perceber como se encontra relativamente ao padrão médio e em que sentido deverá caminhar. Klas Winell garante que os registos de pacientes submetidos via Web "não representam grande trabalho adicional para o profissional e são fáceis de repetir, no decurso da rotina diária. Apresentam, contudo, aspectos negativos, na medida em que acabam por excluir as equipas que estão mais mal preparadas no seio da sua estrutura". Ainda segundo o especialista nórdico, o sistema suportado em registos Web (e consequentes auditorias) tem conhecido uma óptima aceitação na Finlândia: "este sistema foi o melhor que poderia ter acontecido à nossa prática clínica. Assim o dizem médicos e enfermeiros que recorrem a ele". Embora estes processos de apuramento exijam algum trabalho suplementar, Klas Winell sublinha as vantagens do esforço: "pode-se gastar mais um minuto por cada paciente, mas é por uma boa causa; em prol da qualidade dos cuidados".

 

Quatro redes, um só objectivo

Os números não deixam margens para dúvidas: a rede finlandesa que incentiva a qualidade dá cartas. Se no ano de 2000 pouco mais de 50% dos pacientes com diabetes de Tipo 2 observados nos CSP possuiam valores de HbA1c iguais ou inferiores a 7,5%, em 2008 esse valor tinha disparado para mais de 80%. Em relação ao controlo da HTA, as melhorias não foram tão generalizadas, mas até aí é possível recolher lições importantes. "Um CS em particular, o melhor da Finlândia neste domínio, conseguiu destacar-se dos restantes garças à ênfase na promoção de estilos de vida saudáveis e consumo racional de sal", alerta Klas Winell.

O médico finlandês garante também que, em muitas circunstâncias, o obstáculo à melhoria da qualidade "está na atitude dos profissionais. Por vezes, não é um maior número de cursos que vai modificar o panorama, antes a discussão das atitudes que são adoptadas dentro da unidade de saúde".

A rede de qualidade que tem vindo a crescer naquele país nórdico assenta em quatro sub-redes, por assim dizer, dedicadas à prevenção de doenças cardiovasculares, cessação tabágica, consumo de álcool e osteoporose (prevenção de fracturas). Entre os parceiros destas redes de qualidade incluem-se o Ministério de Saúde, a indústria de equipamentos e produtos médicos, a Federação dos Clínicos Gerais, a Associação Nacional da Lotaria e os municípios. São estes últimos os principais contribuintes líquidos para a sustentação financeira das redes.

 

APMCG e CEMBE estabelecem parceria

António Vaz Carneiro, director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE) - Faculdade de Medicina de Lisboa -, foi ao Algarve expor um projecto desenvolvido por aquela entidade e pela Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG).

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Em resumo, trata-se da compilação de estudos baseados na evidência científica, que tenham verdadeira relevância para os CSP e para a Medicina Familiar. Em Vilamoura, foi distribuído um primeiro volume com oito evidências clínicas publicadas no ano de 2008 e que os responsáveis do projecto elegeram como úteis para os MF portugueses. Três destes estudos versam sobre a área cardiovascular, outros três sobre a diabetes, um sobre a depressão e um último sobre a nutrição.

A ideia essencial é alertar o MF para avanços registados em campos como a Cirurgia, a Obstetrícia/Ginecologia, a Pediatria ou a Saúde Mental.

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