Desafios da Saúde Pública no século XXI
DATA
22/04/2009 05:07:30
AUTOR
Jornal Médico
Desafios da Saúde Pública no século XXI

A implementação de 74 USP "é um desafio como a Saúde Pública já não tinha há muitos anos", afirma Constantino Sakellarides, que encara a reforma em curso nos cuidados de saúde primários como uma oportunidade única para o robustecimento da Saúde Pública

 

A implementação de 74 USP "é um desafio como a Saúde Pública já não tinha há muitos anos". Quem o diz é o professor Constantino Sakellarides, que encara a reforma em curso nos cuidados de saúde primários como uma oportunidade única para o robustecimento da Saúde Pública

Os desafios que a Saúde Pública portuguesa terá que enfrentar, no sentido de uma verdadeira modernização, foram apresentados pelo director da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Constantino Sakellarides, aos participantes no I Congresso Nacional da especialidade. Actualmente, a Saúde Pública (SP) vive uma certa "fadiga pandémica", pelo que é necessário recuperar a sua natureza "integral e integradora", aponta o académico. Este é um dos muitos desafios que a SP enfrenta no século XXI... "No que toca às determinantes em Saúde e suas interacções, não podemos pensar numa SP biológica, numa outra psicológica ou numa SP ambiental. A Saúde Pública é una, é uma ciência integral e integradora", sustentou o responsável da ENSP.

Consciente de que leis como a do tabaco e a da interrupção voluntária da gravidez tiveram um êxito considerável no nosso país, em termos de saúde pública, Sakellarides nota, porém, que "estes sucessos sectoriais têm a sua importância, mas não devem distrair-nos da missão central da SP: trabalhar de forma integrada para melhorar a saúde das populações". Ora, no entender do especialista, "esta capacidade de colocar as questões centrais que mais preocupam, enquanto problemas na comunidade, está a perder-se"...

A SP como realidade local foi outro dos desafios apresentados pelo ex-director-geral da Saúde, para quem "a importância do Plano Nacional de Saúde é nula se não contemplar estratégias locais de saúde, um compromisso com um número limitado de resultados e a gestão de parcerias sustentáveis como forma de alcançar as metas definidas".

O director da ENSP alertou, também, para o factor "racionalidade limitada", frisando a importância de a SP "perceber e enquadrar os estímulos emocionais que entram, invariavelmente, em linha de conta na obtenção de resultados".

A máxima "pensar global e agir global" e a emergência do cidadão como actor na sociedade do conhecimento são, segundo Sakellarides, um dos maiores desafios que se colocam à SP moderna. A propósito deste último, o professor chamou a atenção para o aparecimento de portais, redes sociais e, mais recentemente, de sistemas personalizados de informação em Saúde (SPIS), tais como o i-Cidadão (http://www.i-cidadao.org/) - um projecto que conta com o apoio da ENSP.

Em jeito de conclusão, Sakellarides salientou aquele que é um dos maiores desafios/obstáculos ao desenvolvimento (e financiamento) de uma SP do século XXI: o facto de a Saúde Pública nem sempre ser considerada uma ciência. De acordo com o professor da ENSP, este é um problema essencialmente político.

 

Fausto Amaro: em Portugal investiga-se pouco!

Convidado a comentar a conferência de Constantino Sakellarides, o sociólogo Fausto Amaro defendeu a importância da "transversalidade da SP a todos os sectores da sociedade".

A este respeito, o professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa alertou: "em Portugal, temos um problema, não de Saúde Pública, mas de políticas públicas... Estas baseiam-se em pouca evidência empírica, porque se investiga pouco!".

Fausto Amaro lamenta que haja áreas fundamentais como a Saúde Mental e o Urbanismo que, "malogradamente, têm ficado de fora do âmbito de estudo da SP". O sociólogo lembrou que, actualmente, a sociedade se caracteriza por uma certa "reflexividade" e que este aspecto "tem consequências importantes no próprio planeamento em Saúde Pública".

De acordo com o professor, o caminho para a resolução destes "impasses" pode passar por uma "maior integração entre as ciências da saúde e as ciências sociais".

As certezas enganadoras sobre os Outros
Editorial | Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano: