Centro de Saúde Universitário: prós e contras…
DATA
22/04/2009 05:23:29
AUTOR
Jornal Médico
Centro de Saúde Universitário: prós e contras…

Com base na experiência do Centro de Saúde de São João, no Porto, é possível avançar para o desenvolvimento de estruturas semelhantes? E desejável?  

Com base na experiência do Centro de Saúde de São João, no Porto, é possível avançar para o desenvolvimento de estruturas semelhantes? E desejável? Os prós e contras do modelo de centro de saúde universitário, campo de investigação e de estágio dos alunos das faculdades, deram lugar a uma acesa discussão entre Pinto Hespanhol e Luís Rebelo. O primeiro apontou sobretudo as vantagens, o segundo defendeu o "não", destacando as dificuldades logísticas e de relação humana

 

A quem interessa o centro de saúde universitário? Aos Ministérios de Educação e da Saúde? Aos médicos e professores? Aos alunos? A questão, debatida no III Encontro Nacional de MGF das Faculdades de Medicina, foi lançada por Jaime Correia de Sousa, da Escola de Ciências da Saúde do Minho e Hernâni Caniço, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

A Alberto Pinto Hespanhol, director do Centro de Saúde São João do Porto, mais conhecido como Tubo de Ensaio - coube a defesa do modelo e a Luís Rebelo, do Centro de Saúde de Benfica, apontar as limitações.

O Tubo de Ensaio, que no próximo mês de Junho comemora dez anos de existência, foi "encomendado" ao Departamento de Clínica Geral da Faculdade de Medicina do Porto pelo próprio Ministério da Saúde. Um protocolo, assinado em 1999, deu o pontapé de saída a este projecto de investigação absolutamente sui generis: todos os médicos do centro de saúde são professores universitários de Medicina Geral e Familiar e o financiamento é feito com base num sistema de capitação.

 

Cobaias do seu próprio projecto de investigação

 

"Todos nós, professores do Departamento de Clínica Geral da Faculdade de Medicina do Porto, fomos cobaias deste projecto de investigação e assumimos, desde o início, uma "postura de humildade" e de "identificação dos erros", recorda Pinto Hespanhol. Em dez anos, o know how acumulado por um centro de saúde em que todos os médicos são professores universitários, é enorme. Com uma actividade assistencial semelhante aos outros, o Tubo de Ensaio é um espaço de formação e de investigação. E também campo de estágio dos estudantes de Medicina, Psicologia, Pediatria, Economia...

Uma das vantagens para os profissionais - cuja satisfação atinge praticamente os 100% - é que o director também é professor. Nessa medida, "todos os problemas administrativos são resolvidos pelo próprio, evitando estruturas paralelas".

 

Razões para não alinhar...

 

Coube a Luís Rebelo identificar os inconvenientes de uma estrutura deste tipo. Entre os argumentos esgrimidos pelo docente da Faculdade de Medicina de Lisboa, destaca-se, em primeiro lugar, o facto de alguns médicos de família terem "medo de expor a sua prática clínica" aos alunos das faculdades.

Outro inconveniente assenta no facto de os centros de saúde "estarem em vias de transformação em unidades de saúde familiar ou outras unidades funcionais". Eventualmente, esta transformação poderá "ainda condicionar mais" os médicos de família "no que se refere a actividades de formação pré e pós-graduada". Para além disso, "os centros de saúde não foram construídos nem equipados para se tornarem locais de ensino de MGF". Na maioria das unidades - mesmo nas estruturas mais modernas - os gabinetes médicos são pequenos e as salas de reunião exíguas. Mas há mais: muitos utentes recusam-se a ser cobaias de alunos e professores - "Tempo é dinheiro; todos olham para o relógio..." -  e "nem o Ministério da Saúde, nem o Ministério da Ciência e do Ensino Superior desejam pagar dinheiro extra para que se ensine Medicina Geral e Familiar nos centros de saúde".

 

Dificuldades na compatibilização da actividade académica com a clínica

 

A discussão em torno dos prós e contras do centro de saúde universitário foi intensa. Mas, no final, acabou por prevalecer a tese de Isabel Santos, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa: "Para todos aqueles que são professores ou assistentes das faculdades de Medicina, é muito difícil compatibilizar a carreira académica e a investigação, com a actividade clínica. Deveria existir uma estrutura que permitisse essa compatibilização, através de uma interligação funcional entre as duas actividades".

Uma questão ficou, entretanto, no ar: será o centro de saúde universitário uma unidade de cuidados de saúde personalizados? Ou uma USF?...

 

Ensino da MF na Universidade de Coimbra: prática adquire mais peso

 

A Medicina Geral e Familiar é a área de ensino mais próxima dos objectivos e métodos propostos actualmente para a educação médica, afirmou Armando de Carvalho, regente da disciplina de Clínica Geral da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra: "há mais de 20 anos que a MGF é uma disciplina importante nas faculdades de medicina portuguesas. Sendo indispensável à formação pré-graduada, deve intervir em todas as fases do curriculum. O seu ensino deve ser prático e realizado por médicos de família enquadrados na estrutura universitária".

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No início de cada ano lectivo, o departamento de Clínica Geral da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra realiza um workshop, com alunos e tutores. O objectivo é o de delinear estratégias de evolução e dar ao ensino da disciplina de MGF uma componente prática mais vincada.

O primeiro contacto dos alunos com a MGF ocorre logo no primeiro ano, na disciplina de Introdução à Medicina. Depois desta aproximação breve, segue-se um novo contacto no quinto ano, na disciplina de Clínica Geral e, no sexto ano, em Medicina Geral e Familiar e Saúde Pública. Na perspectiva de Armando de Carvalho, "esse contacto deve ser muito maior, ao longo de todo o curso, dando maior visibilidade à MGF".

 

Estudo avalia critérios de escolha da especialidade médica

 

A Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra está a realizar um estudo sobre as razões que conduzem à escolha da especialidade médica. Segundo Hernâni Caniço, a investigação abrange 500 alunos do quinto e sexto ano de Medicina. Os resultados deverão ser conhecidos no final deste ano.

As certezas enganadoras sobre os Outros
Editorial | Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano: