A complexidade da gestão da Saúde exige profissionais altamente qualificados
DATA
08/05/2009 05:23:59
AUTOR
Jornal Médico
A complexidade da gestão da Saúde exige profissionais altamente qualificados

As ferramentas de gestão utilizadas por outros sectores da economia, estiveram durante muito tempo arredadas da Saúde...

As ferramentas de gestão que têm vindo a ser utilizadas com sucesso por outros sectores da economia, estiveram durante muito tempo arredadas da saúde. Quem o afirma é Luís Velez Lapão responsável pelo programa de formação dos directores executivos dos agrupamentos de centros de saúde (PACES). O professor de Sistemas de Saúde na Faculdade de Medicina do Porto (FMP), defende que a existência de uma arquitectura em rede de unidades de saúde (mais próximas dos cidadãos), com sistemas de informação e de profissionais altamente qualificados, é vital para a sustentabilidade da reforma dos cuidados de saúde primários.

 

Jornal Médico de Família - Antes mesmo de ocuparem os respectivos lugares, os directores dos agrupamentos de centros de saúde (ACES) começaram a receber formação específica, direccionada para os cargos que iriam ocupar. É uma iniciativa inédita na Administração Pública?

 

Luís Velez Lapão - E absolutamente inovadora, pelo menos em Portugal. Deve-se à visão da Missão dos Cuidados de Saúde Primários (MCSP). Creio que foram os seus responsáveis que tiveram a ideia de realizar este programa de formação, embora a responsabilidade de construir o programa e de dar corpo a este desafio seja minha, sempre em colaboração com a MCSP.

Desde o início, a MCSP definiu, com muita clareza, o perfil dos directores executivos dos ACES, o que também é inovador e representa um novo paradigma de exigência e transparência na Administração Pública. É interessante ver juntas pessoas de diversas sensibilidades políticas a colaborar de forma muito construtiva.

Na realidade, o papel da Missão tem sido essencial para a motivação da mudança e por outro lado, o PACES tem permitido a ligação, em rede, entre os diversos elementos e as organizações dos cuidados de saúde primários.

É de salientar ainda o esforço, a coragem e a motivação dos médicos e gestores que agora começaram a ocupar os cargos de direcção dos ACES. São pessoas com uma grande experiência nos serviços de saúde e com enorme vontade de participar neste processo de mudança, apesar do sacrifício que isso implica ao nível da sua vida privada.

 

Como foi delineado o programa de formação e quais são os seus objectivos primordiais?

 

Já tinha tido a experiência de criação de programas de gestão inovadores na área do desenvolvimento das organizações de saúde, nomeadamente na integração entre os hospitais de S. José e Capuchos e no suporte ao desenvolvimento das Unidades Locais de Saúde (ULS) do Norte Alentejano e do Baixo Alentejo. Fiquei deveras sensibilizado com a qualidade dos profissionais e a sua vontade de potenciar a ULS.

A gestão da saúde tem o propósito bem definido de contribuir para tornar a Saúde mais eficiente e mais eficaz, utilizando os recursos onde eles têm mais impacto. Neste contexto, de grande complexidade, as organizações de saúde devem ser consideradas como sistemas vivos, onde os profissionais são capazes de gerar estratégias para lidar com o paradoxo, a diversidade e a incerteza através de mecanismos de interacção entre os profissionais e com os cidadãos.

O programa PACES, de formação dos directores executivos, visa responder às necessidades das organizações de saúde em rede, considerando-as sistemas complexos adaptativos dominados pela dinâmica da "auto-organização", manifestada pela interacção próxima com o cidadão. Isso implica outro tipo de liderança e de gestão que potencie a criação de zonas de aprendizagem (na governação clínica, na interacção com o cidadão e na gestão) e de partilha de experiências, se possível entre todos os ACES.

A "auto-organização" num ACES ou numa USF, envolvendo médicos, enfermeiros, técnicos e outros especialistas é essencial para encontrar os padrões "emergentes" que ajudam a compreender a realidade e as necessidades dos doentes, bem como a reorganizar os serviços de modo a darem respostas mais ajustadas à procura. Ou seja, o director executivo deve potenciar no seu ACES uma dinâmica de colaboração e trabalho em equipa, se possível até com o cidadão.

 

Mas, como é que se processa a formação no terreno? Apesar de ser dirigida para a acção, alguns directores executivos de ACES criticam o seu conteúdo excessivamente teórico...

 

A realidade não é essa. O curso foi desenhado para ser essencialmente prático. Em todos os módulos são realizados projectos de grupo que abordam problemas reais. Para a disponibilização desses projectos, utilizamos uma plataforma "e-learning" da Google que possibilita a partilha de documentos, ideias e conceitos, com o objectivo de criar um espaço de partilha e de colaboração.

Naturalmente que a formação necessita sempre de alguma sustentação teórica mas o curso rege-se pelos princípios da formação/acção, pois sabemos que a melhor forma de aprender é utilizar os conhecimentos numa situação real. Aliás, o livro de referência do curso é o The Future of Management de Garry Hamel, que afirma que temos o desafio de "inventar novas formas de gestão" e que se enquadra bem nesta nova organização em rede que são os ACES.

 

Neste processo de formação, foi tida em conta a experiência desenvolvida na antiga Sub-região de Saúde de Setúbal relativa à criação de projectos-piloto de agrupamentos de centros de saúde?

 

Na minha opinião, a experiência dos agrupamentos de centros de saúde liderada pelo então coordenador da SRS de Setúbal foi essencial para demonstrar que era possível. Convidámos o Dr. Rui Monteiro para participar na primeira sessão deste curso e as pessoas ficaram um pouco assustadas quando ele referiu que o processo demorou dois anos. Mas, é natural, os ACES vão demorar algum tempo a estruturar-se.

 

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A equipa de formadores vai continuar a dar apoio aos dirigentes dos ACES quando terminar a formação? De que forma?

 

Até ao final do ano, num ambiente de tutoria, algumas equipas de formadores vão deslocar-se, com alguma periodicidade, aos ACES, para fazer o acompanhamento das situações mais prementes. Como a gestão da saúde é uma área ainda em desenvolvimento e com poucos investigadores, tivemos que ir buscar formadores a várias universidades para realizar um programa interessante. Com efeito, este projecto resulta de uma parceria com a Universidade do Porto, Instituto Superior Técnico, Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, Unidade de Sistemas de Saúde do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e a Escola Nacional de Saúde Pública.

 

Para quando está previsto o início da formação dos responsáveis pela governação clínica dos ACES?

 

Esta formação inicia-se a 7 de Maio. É preciso criar grupos dinâmicos no Norte, Centro e Sul. Mais uma vez, o objectivo é criar uma rede de aprendizagem e de partilha, um espaço de reflexão, para encontrar soluções, trocar experiências e ideias e, sobretudo, potenciar uma nova cultura de governação clínica.

 

Defende que a complexidade da saúde obriga à existência de uma arquitectura de sistemas e de profissionais altamente qualificados. Na realidade, diz mesmo que "a inexistência de informação impossibilita a gestão". De que forma um sistema de informação da Saúde desajustado, como é o nosso, pode condicionar o desenvolvimento dessas redes locais de conhecimento e mesmo os resultados dos ACES?

 

Os sistemas de informação são um aspecto que tem que ser levado muito a sério. A utilização apropriada e sustentada de sistemas de informação em Saúde poderá contribuir de forma relevante para o bom desempenho das unidades de saúde, não propriamente numa posição de puro condicionalismo dos colaboradores e utilizadores da instituição mas sim propiciando, de forma evolutiva, condições para melhores cuidados de saúde. Utilizar os recursos da Saúde com inteligência e de forma holística requer a integração dos sistemas de informação para que a informação esteja disponível no momento e onde é preciso.

São necessárias duas condições para a sustentabilidade da reforma em termos de resultados práticos. Uma delas tem a ver com o modelo de governação, que já está bastante consolidado com a criação dos ACES. A outra, passa pela existência de um sistema de informação sofisticado, flexível e rigoroso.

Na minha opinião, os sistemas de informação são um dos pontos fracos do suporte aos ACES. Este ponto fraco já tinha sido assinalado pela MCSP num relatório sobre o tema. Só vai ser possível desenvolver um ACES se a sua organização espelhar o fluxo de informação necessário para médicos, enfermeiros e restantes técnicos e colaboradores.

Um verdadeiro sistema de informação não se baseia na tecnologia mas nas pessoas e no conhecimento que geram e na dinâmica de aprendizagem. O problema é que muita gente ainda não percebeu que os sistemas de informação exigem trabalho profissional, investigação e desenvolvimento a médio e longo prazo e têm que acompanhar o desenvolvimento das organizações.

Aliás, como diz o Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, as instituições da Administração Pública devem potenciar a colaboração com as universidades porque os investigadores podem ajudar a resolver problemas difíceis, em conjunto com os operadores no terreno e ao mesmo tempo formar os novos profissionais para trabalhar na saúde. Há já alguns casos de sucesso no desenvolvimento de SI, onde esta relação tripartida entre unidade de saúde, empresa de SI e universidade estão a dar excelentes resultados, reflectidos na qualidade de serviços ao cidadão.

As certezas enganadoras sobre os Outros
Editorial | Mário Santos
As certezas enganadoras sobre os Outros

No processo de reflexão da minha prática clínica, levo em conta para além do meu índice de desempenho geral (IDG) e da satisfação dos meus pacientes, a opinião dos Outros. Não deixo, por isso, de ler as entrevistas cujos destaques despertam em mim o interesse sobre o que pensam e o que esperam das minhas funções, como médico de família. Selecionei alguns títulos divulgados pelo Jornal Médico, que mereceram a minha atenção no último ano: