Jornal Médico Grande Público

Preparados para o que der e vier!
DATA
08/10/2009 05:16:56
AUTOR
Jornal Médico
Preparados para o que der e vier!

O nosso jornal foi ao terreno ver a resposta dos CSP à gripe A. Conversámos com Helena Costa, directora executiva do ACES de Cascais e visitámos o SAG daquela estrutura

 

Muito se tem opinado sobre a (in)capacidade dos serviços de saúde de fazerem face a uma pandemia como a do H1N1... No que toca às USF, um sindicato médico propõe mesmo que se negoceie uma carteira adicional de serviços expressamente para o combate à gripe A, sob pena de se comprometer a actividade assistencial destas unidades com a afectação de recursos médicos para os SAG. Algo que a MCSP considera desnecessário, salientando que o mais importante é que cada ACES e respectivas USF combinem, entre si, a forma como os profissionais participarão nestes serviços. O nosso jornal foi ao terreno ver a resposta dos CSP à gripe A. Conversámos com Helena Costa, directora executiva do ACES de Cascais e visitámos o SAG daquela estrutura. Deparámo-nos com um serviço formalmente organizado desde meados de Agosto e com profissionais assaz empenhados, ainda que acusem já um certo cansaço... E o "pico" de infecção ainda está por vir...

 

No início de Setembro, o presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral (APMCG), João Sequeira Carlos, foi instado a comentar o papel dos médicos de família (MF) face à pandemia de gripe A.

Em declarações à agência Lusa, o responsável reconheceu que "a gripe pandémica é um grande desafio para a comunidade científica, médica e para todos os cidadãos e é altura para estarmos todos a trabalhar neste sentido".

gripeA_CSP_01.jpgLembrando que as unidades de saúde familiar (USF) e os centros de saúde (CS) são cuidados de proximidade, o médico do Departamento de Medicina Geral e Familiar (MGF) do Hospital da Luz salientou que "os doentes, nesta fase, vão confiar nos MF, que terão de estar presentes neste grande desafio", uma vez que os cuidados de saúde primários (CSP) vão ser aqueles que serão chamados a dar resposta, em primeira linha, à gripe pandémica".

Uma opinião partilhada pelo coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP), Luís Pisco, que destaca que "os MF serão um recurso essencial" num cenário de pandemia de gripe A.

Face ao aumento do número de casos de infecção pelo H1N1, a tutela criou os Serviços de Atendimento à Gripe (SAG), integrados nos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES). A abertura de cada Serviço de Atendimento à Gripe A será anunciada pela respectiva Administração Regional de Saúde (ARS), à medida que estes comecem a funcionar. Para estes serviços, o encaminhamento dos doentes será também efectuado pela Linha de Saúde 24. O funcionamento dos SAG é assegurado pelos profissionais de saúde das várias unidades funcionais dos ACES (USF, CS, entre outras).

gripeA_CSP_02.jpgMas este modelo de atendimento parece não agradar a todos... O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) mostrou-se preocupado com as escalas dos clínicos que integram os SAG e chamou a atenção para o possibilidade de "a contratualização feita entre os profissionais das USF e o Estado poder estar a ser prejudicada caso se verifique que a afectação dos seus recursos médicos aos SAG é equivalente à sua actividade diária".

Numa carta enviada à ministra da Saúde, a 21 de Agosto, o SIM afirma que "não pode pactuar com o facto de haver médicos como os que integram as UCSP [unidades de cuidados de saúde personalizados] que, ao serem afectados ao combate à pandemia, são obrigados a ver alterada toda a sua consulta programada aos seus utentes e a acessibilidade destes perturbada e adiada, enquanto se admite a hipótese de os médicos da USF não o serem, para que os seus indicadores de produtividade não sejam prejudicados".

Neste sentido, a estrutura sindical sugere: "é preciso redefinir esta matéria para que os "mais de mil médicos das USF possam estar a colaborar com clareza também naquilo que é o interesse nacional na resposta à gripe".

gripeA_CSP_03.jpgPor sua vez, o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) exigiu, no passado dia 24 de Setembro, que sejam divulgados os números das consultas médicas e de enfermagem adiadas nos CS devido à mobilização dos profissionais para os SAG. O SEP defende que não faz sentido a criação de mais serviços de apoio à gripe face "ao número crescente de pessoas suspeitas de infecção" pelo H1N1. De acordo com este sindicato, "os doentes devem continuar a recorrer ao seu médico e enfermeiro de família nos serviços de saúde que habitualmente utilizam, e depois do diagnóstico confirmado e caso a situação clínica o permita, devem ser acompanhados no seu domicílio pelos profissionais de saúde, em particular pelo enfermeiro de família".

 

Uma questão de organização

Em resposta ao SIM, o coordenador da MCSP fez questão de garantir que "as USF nunca estiveram de fora do esforço colectivo de fazer frente a uma potencial pandemia de infecção pelo H1N1", embora reconheça: "existem "aspectos a respeitar na organização das unidades".

Para Luís Pisco, é essencial que USF e ACES combinem entre si a forma como deverá processar-se a participação dos profissionais nos SAG, pois, adverte, numa pandemia, "os profissionais não poderão fazer tudo ao mesmo tempo e existe, de facto, a possibilidade de não conseguirem cumprir os indicadores anuais contratualizados".

gripeA_CSP_05.jpgAinda assim, o responsável não vê necessidade em negociar-se uma carteira adicional de serviços expressamente para o combate à gripe A porque, sustenta, se as USF não conseguirem cumprir os objectivos contratualizados devido a uma pandemia, "a contratualização tem que ser flexível e tomar isso em linha de conta na avaliação final".

Esta visão é partilhada pela directora executiva do ACES de Cascais, Helena Costa, para quem a preocupação do SIM roça o "preciosismo". De acordo com esta responsável, "as USF fazem parte integrante dos ACES e portanto são co-responsáveis pelos problemas de saúde da área geográfica em que estão inseridas. A gripe A, no entanto, deve ser encarada como uma situação extraordinária".

O ACES de Cascais tem a funcionar, desde o passado dia 20 de Agosto, um SAG que, à excepção da maior parte dos Serviços de Atendimento à Gripe do País, funciona apenas seis horas por dia (em vez das habituais 12 horas). O atendimento é assegurado por médicos, enfermeiros e administrativos de todas as unidades funcionais do ACES, explicou Helena Costa, em declarações ao Médico de Família, garantindo que "a actividade assistencial normal nos CS e USF do ACES não está a ser afectada, uma vez que todo o trabalho no SAG é feito em horas extraordinárias".

gripeA_CSP_06.jpgFoi precisamente pelo facto de este serviço exigir um "esforço adicional" por parte dos profissionais, que Helena Costa decidiu, conjuntamente com a ARS, abrir um SAG em Cascais, indo contra a opção inicial de estabelecer um serviço partilhado com Oeiras, em termos de recursos humanos, sendo a sede do serviço no ACES do concelho vizinho. "Os profissionais já fazem este esforço das horas extraordinárias, pelo que seria ainda mais incómodo e esgotante se tivessem que se deslocar até Oeiras", explicou ao nosso jornal a responsável.

Em Cascais, a directora executiva do ACES optou, ainda, por não abrir logo com 12 horas, estando o horário actual do SAG sujeito a alterações, consoante a procura. Esta, refere Helena Costa, tem sido "muito variável"...

Por ora e enquanto não se verifica o esperado boom de casos de infecção pelo H1N1, "fazemos como temos feito até aqui... Depois, procuraremos adaptarmo-nos às necessidades. É preciso ver que é a primeira vez que nós, profissionais, passamos por isto, a nível mundial", adiantou a responsável, explicando que a divisão das seis horas assistenciais no SAG em dois turnos de três horas, facilita a organização, nomeadamente no que toca ao pagamento das horas extraordinárias e para efeitos de cumprimento da lei.

"Foi feita uma escala nominativa de profissionais, por unidade. No ACES de Cascais já estamos divididos em unidades funcionais, pelo que é feita uma escala por unidade e são os respectivos coordenadores que designam os profissionais para os turnos do SAG", precisou.

 

O SAG e os "SAGinhos"

Para além do SAG concelhio, todas as unidades do ACES de Cascais têm uma zona própria preparada para o atendimento exclusivo a pessoas com sintomas de gripe A. "À excepção da Extensão de Saúde de Carcavelos, cujas instalações pouco adequadas à pratica dos CSP, numa pequena cave da junta de freguesia, não o permitem...", explica Helena Costa, adiantando que, dentro em breve, será colocado um contentor pré-fabricado no parque de estacionamento daquela unidade para poder responder ao esperado "pico" de gripe A.

Estas zonas de atendimento à gripe A, nas diversas unidades funcionais, são uma espécie de SAG em ponto pequeno, destinando-se àquelas pessoas que, apesar de toda a informação no sentido de recorrer primeiramente à Linha de Saúde 24 em caso de sintomatologia de infecção pelo H1N1, insistem em dirigir-se à "sua" unidade de saúde. São carinhosamente apelidadas de "SAGinhos" e apenas diferem do SAG por não possuírem um circuito totalmente fechado, "nem medicação, nem zaragatoas", explicou a directora executiva do ACES de Cascais.

O nosso jornal visitou o "SAGinho" da USF Marginal e conversou com alguns dos profissionais da unidade. Para muitos, o modelo de organização ideal passaria por um atendimento dos casos suspeitos de gripe A na própria unidade. Tal, dizem, diminuiria o "cansaço" provocado pelos turnos extraordinários no SAG.

Porém, Helena Costa tem outra perspectiva... "É preciso centralizar, caso contrário, a quem recorreriam os utentes que não têm MF atribuído?", questiona. De acordo com a responsável, a centralização do SAG ao nível do ACES é igualmente crucial para efeitos de estatística. "A recolha e tratamento de dados tem sido feita diariamente, é uma gestão do dia-a-dia... Ainda por cima, temos que proceder à estatística manualmente, porque o sistema informático para a monitorização e notificação dos casos de gripe não está a funcionar", referiu a directora executiva, adiantando que "face a estas circunstâncias, a referência da Saúde 24 continuará a ser o SAG do ACES, mantendo-se o serviço centralizado, enquanto isso for viável".

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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