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Os pioneiros do Baixo Alentejo
DATA
23/10/2009 05:36:51
AUTOR
Jornal Médico
Os pioneiros do Baixo Alentejo

Há mais de um ano à espera de "instalações condignas" para a prestação de CSP, a USF Alfabeja não foi ainda oficialmente inaugurada...

 

Há mais de um ano à espera de "instalações condignas" para a prestação de cuidados de saúde primários, a Unidade de Saúde Familiar Alfabeja não foi ainda oficialmente inaugurada. A USF - pioneira na região do Baixo Alentejo - arrancou a 1 de Maio de 2008, em modelo B, capitalizando assim a experiência dos oito médicos que trabalham há já 10 anos ao abrigo do regime remuneratório experimental. Aos clínicos, juntam-se oito enfermeiros e cinco administrativos, alguns oriundos de unidades de saúde vizinhas

 

A vontade de realizar um trabalho "com maior independência da teia burocrática, remunerado em concordância com a qualidade da prestação (medida objectivamente através da acessibilidade dos utentes e da qualidade técnico científica)", levou um grupo de médicos do Centro de Saúde de Beja a aderir à reforma em curso nos cuidados de saúde primários (CSP).

Os 10 anos de experiência em regime remuneratório experimental (RRE,) permitiu-lhes avançar de imediato para uma unidade de saúde familiar (USF) de modelo B - a que deram o nome de Alfabeja, inspirados pelos anteriores modelos organizativos - com uma equipa de igual número de enfermeiros e uma mão cheia de secretários clínicos.

De acordo com a coordenadora da nova unidade, Benilde Heitor, "houve lugar a conexões no sector administrativo, com a vinda de mais dois elementos. O grupo de enfermagem foi o que mais se modificou, sobretudo pela não-aceitação do modelo organizativo das USF por alguns destes profissionais".

Assim, a USF Alfabeja integrou, a convite, um funcionário administrativo oriundo do Centro de Saúde (CS) de Évora, bem como dois enfermeiros do CS de Ferreira do Alentejo, dois outros do Hospital de Beja e ainda um enfermeiro do CS de Cuba. De acordo com Benilde Heitor, o processo de mobilidade destes profissionais foi "lento", mas "não registou entraves de maior".

 

De RRE a USF: uma suave transição

 

A transição do modelo de RRE para USF fez-se "sem sobressaltos", afiança a coordenadora, acrescentando que a população "nem deu pela diferença"...

Ainda assim, o grupo procurou imprimir algumas mais-valias à nova forma de trabalhar. A este nível, a preocupação da equipa da USF Alfabeja recaiu, sobretudo, na vertente da acessibilidade dos utentes e da entreajuda no seio do grupo.

O facto de a equipa permanecer nas mesmas instalações - que, de acordo com Benilde Heitor, estão longe de reunir as condições necessárias e condignas à prática de CSP - também contribuiu para o sentimento de continuidade sentido pelos utentes da nova USF.

 

Constantes avarias no sistema

 

No plano dos sistemas informáticos (SI), a USF Alfabeja alinha pelo diapasão da maioria das USF em actividade.

"Fomos o último grupo da Sub-Região de Saúde (SRS) de Beja a ter acesso ao SI", recorda a coordenadora, desfiando um rol de queixas em relação ao SAM: "temos avarias constantes do sistema; o módulo estatístico chegou tarde e é pouco fiável. Há actualizações a serem realizadas em períodos de funcionamento da USF que resultam, na maioria das vezes, em atrasos, bloqueios e perda de dados".

Na óptica da médica, nem só estes pormenores logísticos se interpõem no caminho do sucesso das USF. Para Benilde Heitor e a sua equipa, "a implantação no terreno do modelo das novas unidades dos CSP e dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) parece-nos dependente dos ciclos políticos e existe sempre a possibilidade de um retrocesso, uma vez que muitos dirigentes locais não sentem a criação das USF como prioritária".

 

Outros saberes enriquecem cuidados

 

A formação é uma peça fundamental na engrenagem da equipa alentejana. A USF Alfabeja contempla, sobretudo, a formação pré-graduada, recebendo alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (um a dois alunos por ano) e alunos de Enfermagem (entre três a quatro por ano).

Outra mais-valia no acompanhamento dos utentes é o apoio que esta unidade de saúde familiar recebe nas áreas da Pediatria, Nutrição e Psicologia.

No que diz respeito a grupos de risco/vulneráveis, a USF Alfabeja dá resposta na "detecção precoce de patologias que por si só, ou associadas, contribuem para a invalidez precoce e morte prematura (diabéticos, hipertensos, obesos, fumadores, com dislipidémia e  síndrome metabólica), bem como na detecção e acompanhamento de doentes com asma e depressão". De acordo com a coordenadora da unidade, a equipa de 21 profissionais "investe mais atenção nos idosos, com a criação listas de dependentes para vigilância domiciliária".

A USF do Baixo Alentejo disponibiliza, ainda, consultas de cessação tabágica que, de acordo com Benilde Heitor, têm decorrido "em moldes muito satisfatórios", apesar de ainda não ter sido realizada uma avaliação estruturada e rigorosa das mesmas.

 

Microsite para breve

 

A boa comunicação interprofissional é um capital que o grupo já trazia da experiência em RRE e que foi aperfeiçoando no novo modelo, através de reuniões semanais e convívios extra-laborais.

Desta estratégia, Benilde Heitor destaca, como resultados, a motivação para novos projectos e a partilha de experiências e a consequente melhoria no funcionamento da unidade.

A comunicação com os utentes é outra vertente que a USF Alfabeja não descura e para a qual também delineou uma estratégia própria. "Os profissionais que integram este grupo desde o RRE desenvolveram um estudo de satisfação dos utentes, através da aplicação de um inquérito. Por dificuldades técnicas, porém, não tem sido possível repetir a aplicação do mesmo", explica a médica.

Ainda neste âmbito, foi criado um guia do utente e está actualmente a ser desenvolvido um microsite, que deverá entrar brevemente em funcionamento.

 

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