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USF Monte da Caparica: grande na dimensão… e na obra feita
DATA
08/11/2009 04:13:02
AUTOR
Jornal Médico
USF Monte da Caparica: grande na dimensão… e na obra feita

É a maior Unidade de Saúde Familiar portuguesa, com mais de trinta profissionais e um universo de utentes superior a vinte e duas mil pessoas  

É a maior Unidade de Saúde Familiar portuguesa, com mais de trinta profissionais e um universo de utentes superior a vinte e duas mil pessoas. Implantada numa zona marcada por dificuldades socioeconómicas da mais variada índole, a Monte de Caparica conta com uma larga experiência de trabalho, que remonta aos tempos do Projecto Alfa... E do RRE!

Caparica foi uma das primeiras a aderir, em 1998, ao então denominado Projecto Alfa, sob a designação de Alfa-Monte.

Na sequência lógica deste percurso, iniciado no final da década de 90, em 2000 a equipa transitou para o Regime Remuneratório Experimental (RRE) e em Maio de 2008 para o modelo B das unidades de saúde familiar, já com o nome de Unidade de Saúde Familiar (USF) Monte de Caparica.

Na constituição actual do grupo, sobressaem duas curiosidades. Antes de mais a dimensão: a equipa compreende 34 elementos, número que a agiganta face a outras unidades no país (algumas com um terço dos efectivos). Depois, a ordem quase aleatória que caracterizou a selecção dos elementos. O coordenador da unidade, Américo Varela, clarifica as vantagens desta USF ter evitado os critérios tradicionais: "uma das características da equipa é a sua diversidade. De facto e ao contrário de outras USF, cujas equipas foram escolhidas elemento a elemento, a nossa resulta de um conjunto de acasos, o que a torna mais próxima da realidade". Uma USF real, para um país real, poderia concluir-se. E uma máquina de gestão complexa, já que se trata da maior unidade de saúde familiar do país.

Na realidade, a USF Monte de Caparica integra doze médicos, doze enfermeiros e dez administrativos (para além de uma recepcionista), que servem uma população de 22.655 utentes inscritos. Ou seja, uma média de 1.888 utentes por médico e enfermeiro e de 2.265 utentes por administrativo. Na última década, a unidade proporcionou - em média - 75.250 consultas anuais.

A força deste grupo, está na enorme diversidade de características humanas que nele convivem, bem como em outros ingredientes sem os quais não se poderia enfrentar o dia-a-dia (personalidade, sentido de humor, postura profissional, empenho ou carinho).

De referir que na transição para o novo modelo de USF, o processo de mobilidade de três enfermeiros, dois médicos e um administrativo foi muito demorado e dificultado por várias teias burocráticas, administrativas e legislativas. As consequências mais imediatas foram o atraso na formação de listas para os novos médicos e um arranque tardio de vários programas de colaboração multidisciplinar, dependentes da chegada de mais enfermeiras.

 

Bolsa Pfizer animou hostes

De acordo com Américo Varela, todo o processo que conduziu à passagem ao modelo B foi extremamente moroso, no caso da USF Monte da Caparica: "a nossa USF entregou a candidatura a modelo B a 27 de Agosto de 2007. O parecer técnico da candidatura foi dado a 22 de Novembro esse ano e, finalmente, a 1 de Maio de 2008 iniciámos actividade em modelo B. A existência de capacidade de iniciativa, massa crítica e de uma comunicação eficaz dentro da equipa permitiu uma boa gestão deste demorado processo de transição".

Para aliviar estes momentos de ansiedade, a equipa contou também com um momento marcante, ocorrido neste período de espera. No dia 27 de Outubro de 2007 foi atribuída à equipa do Monte da Caparica, pelo seu "Programa de Colaboração da Equipa Multidisciplinar no Acesso, Acolhimento e Encaminhamento do Utente com Doença Aguda", a Bolsa Pfizer para melhor Programa de Colaboração Multidisciplinar nos Cuidados de Saúde Primários (CSP).

Diga-se, aliás, que o grupo voltou a concorrer à Bolsa Pfizer em 2008, agora com uma dupla proposta: o programa centrado nos cuidados prestados a doentes com diabetes mellitus e o projecto de implementação da consulta de cessação tabágica. A equipa procura manter-se activa e aberta a novas ideias, de que são exemplo o boletim informativo (o último dos quais dedicado ao tema, "Estar na USF Monte de Caparica é Fantástico", com a participação dos três grupos profissionais) e a instalação de um sistema de gestão de filas.

São medidas como estas que colhem os aplausos dos utentes. "Desde o Projecto Alfa que os utentes têm vindo a sentir uma melhoria contínua, gradual e sustentada no atendimento, acolhimento e cuidados de saúde prestados na nossa unidade de saúde", aponta Américo Varela.

 

Rodeada por problemas sociais, mas com bons resultados

A população coberta pela USF Monte de Caparica inclui um número significativo de utentes pertencentes a estratos desfavorecidos, muitos deles residentes em bairros sociais. As suas preocupações financeiras dificultam a adesão aos cuidados de saúde (rastreios, consultas programadas, educação terapêutica, entre outros). "Ainda assim, estamos muito satisfeitos com os resultados conseguidos pelos profissionais. No entanto, pensamos que a avaliação do trabalho de uma USF instalada numa área com as características sociodemográficas da nossa, não pode ser igual à que é feita, por exemplo, uma USF rural", diz o coordenador da Monte de Caparica.

Independentemente do ponto do território onde se encontram localizadas as USF, o coordenador da Monte de Caparica defende que o mais importante é que elas existam, enquanto tal: "na nossa opinião, todos os cidadãos deviam ter direito à inscrição numa USF. Por isso, não queremos estabelecer diferenças entre as USF e outro tipo de unidades. Estas últimas deverão é passar a USF o mais rapidamente possível! Este ponto será essencial para o sucesso da reforma e para que esta sobreviva às alternâncias políticas".

 

Comunidade: propostas para todas as idades

A USF Monte da Caparica está sediada, desde Setembro de 2005, nas actuais instalações, junto a um bairro de realojamento. O edifício está em plena laboração e necessita, hoje, de apenas alguns retoques pontuais (nomeadamente pintura interior nas áreas de recepção, atendimento administrativo e salas de espera, intervenções previstas para breve).

Quem se pode deslocar à USF raramente encontra dificuldades de monta. Porém, os doentes que habitualmente não saem de casa levantam obstáculos à unidade. É que a dispersão geográfica dos utentes é grande e nem sempre é fácil chegar junto de alguns deles em contexto de visita domiciliária, já que algumas habitações apresentam fraca acessibilidade.

Tal não significa que a USF esteja virada para dentro, já que tem sido capaz de desenvolver, ao longo dos anos, inúmeros projectos junto da comunidade. Destaque aqui para a acção dirigidas a jovens em risco, através do Projecto Geração Cool, ou da sua participação na Feira da Saúde (promovida pela Junta de Freguesia do Monte de Caparica), direccionada para um público mais maduro.

A Monte de Caparica estabeleceu, num contexto exterior ao Serviço Nacional de Saúde, fortes relações institucionais com a Junta de Freguesia do Monte de Caparica e a Santa Casa da Misericórdia. Realce ainda para o orgulho que a equipa sente nos profissionais administrativos provenientes da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, que há dois anos estagiam na unidade.

 

Incapacidade dos sistemas de informação lesa equipa 

Como as restantes unidades inseridas no Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Almada, a Monte de Caparica utiliza os sistemas SAM e SAPE, e está relativamente satisfeita com as suas potencialidades.

No entanto, já conseguiu identificar pontos fracos nos mesmos, em particular o módulo estatístico, cujos avanços e recuos têm implicações directas ao nível da gestão da USF. "Apesar do empenho - não apenas nosso, mas de muitos outros na sua resolução - mantêm erros e omissões. Lembramos que, até agora, esta situação tem contribuído para uma contratualização pouco transparente, dificuldade de monitorização dos indicadores, impedimento de avaliação baseada no desempenho e a não atribuição dos incentivos institucionais e das actividades específicas", reforça o coordenador da Monte da Caparica.

O grupo espera, também, que as ferramentas informáticas se tornem suficientemente ágeis de modo a permitir outros voos. Desde logo, a monitorização regular dos índices de satisfação de utentes e profissionais.

 

Carteira adicional ambiciosa

É ambição desta USF ter uma carteira adicional de serviços estruturante e coerente com o seu plano de acção. Marcar a diferença, pela positiva, é essencial para os profissionais no que respeita à carteira adicional.  

É importante sublinhar que existem já, na Monte de Caparica, várias ofertas encaradas pelos utentes como de enorme qualidade, a começar pelo projecto de terapia compressiva, passando pela consulta de hipocoagulação e pelo cantinho da amamentação. A curto prazo, terá início o programa de educação terapêutica para diabéticos, intitulado "Caminhar para o Equilíbrio". "Gostaríamos de iniciar a consulta de cessação tabágica, aprovada em sede de contratualização. Porém, podemos ser obrigados a desistir. Continuamos sem saber a forma de pagamento!", queixa-se Américo Varela.

Referência ainda, neste lote de tarefas suplementares, para a participação da USF no Programa de Luta Contra a Tuberculose em articulação com o Centro de Diagnóstico Pneumológico de Almada.

A unidade conta, ainda, com um excelente apoio por parte dos serviços clínicos do Hospital Garcia da Orta, em particular ao nível da Endocrinologia, Psiquiatria e Cirurgia Vascular. Esta última, no âmbito do projecto de terapia compressiva.

Seguindo orientações vertidas na separata sobre carteiras de serviços das USF produzida pela Missão para os Cuidados de Saúde Primários (MCSP), em 2006, a Monte da Caparica tem continuado a apostar na intervenção em meio escolar, mesmo que entretanto sinta que se verificou uma inflexão de rumo. De facto, hoje em dia, o trabalho comunitário nas escolas já não é visto como uma prestação de cuidados adicional que deva ficar nas mãos das USF.

Tal não impede que a equipa da Monte da Caparica continue a colaborar com os estabelecimentos de ensino. Os docentes destas escolas têm, aliás, testemunhado por diversas vezes a importância da interacção que os profissionais de saúde desenvolvem com os grupos de alunos, em temas como A Saúde no Concelho de Almada (no caso envolvendo estudantes do 12º ano de escolaridade).

 

Administrativos rodeiam-se de informação com valor acrescentado

De acordo com a responsável administrativa Fernanda Cerdeira, o sector que orienta está bem entrosado com as ferramentas de informação que utiliza: "na nossa USF, não temos dificuldades em trabalhar com os sistemas existentes. Por outro lado, cada profissional tem ao seu dispor, quer na Intranet, quer em dossiers, todo o tipo de informações, nomeadamente horários, escalas de serviço, manual de procedimentos, ausência dos profissionais, legislação, etc. Na nossa opinião, tal contribui para um bom desempenho no atendimento".

Nesta USF foram avaliadas as necessidades e as prioridades formativas dos administrativos (e também dos outros profissionais). Depois, realizaram-se acções de formação baseadas nas necessidades apuradas, em domínios como a gestão de conflitos, comunicação ou qualidade do atendimento.

Fernanda Cerdeira sublinha igualmente que, em conjunto com os colegas de sector, se mantém um elemento participativo em toda a estratégia traçada para a USF: "tem existido uma colaboração permanente com o coordenador na tomada de decisões, na monitorização de processos e na avaliação de qualidade dos serviços".

 

Reforma precisa de ser igualitária

Quando olha para o actual panorama da reforma dos CSP, Américo Varela não hesita em afirmar que seria extremamente prejudicial para os portugueses que se eternizasse um sistema em que convivem médicos organizados em USF e outros a trabalhar isoladamente. Seria um cenário injusto para os utentes, privados que estão da escolha sobre o modelo organizativo em que o seu médico se insere. O médico de família acredita que a reforma terá de contar com apoio político de todas as forças partidárias e que subsistem, na actualidade, passos importantes a dar, no sentido de apoiar os grupos profissionais: "o que posso afirmar é que o desempenho dos profissionais tem sido um contributo importante para uma boa gestão de recursos humanos e financeiros. Ainda falta criar condições para que, de facto, a avaliação tenha como base esse desempenho, e depois pagar os incentivos a quem cumpriu as metas contratualizadas". Na opinião de Américo Varela, é também relevante a resolução do problema dos contratos precários e das carteiras adicionais de serviços, oferecendo como exemplo a consulta cessação tabágica, sobre a qual ainda ninguém sabe, ao certo, a que formas de pagamento obedecerá.

Outro tipo de dúvidas envolve a entrada em cena das USF do sector privado, social e cooperativo. Até agora, o governo não pareceu muito interessado em estimulá-las, mas também não as colocou à margem.

"Neste e noutros níveis da prestação de cuidados de saúde, o sector público e o privado devem e deverão continuar a ser complementares, no interesse do cidadão", defende a este propósito Américo Varela.

Embora não se queira perfilar como conselheiro da MCSP, o coordenador da Monte da Caparica questiona-se se tudo está ser feito para garantir que os níveis de decisão superiores estão em linha com os princípios fundadores da reforma: "as USF têm práticas empreendedoras, reflexão crítica sobre cultura, valores e mudança organizacional. Será que os ACES vão alinhar por esses valores e disseminar essa mudança por todas as unidades de saúde que ainda não são USF?".

 

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