USF de Coimbra testa nova tecnologia
DATA
05/03/2010 08:57:51
AUTOR
Jornal Médico
USF de Coimbra testa nova tecnologia

A USF Cela Saúde, em Coimbra deverá iniciar, já em Março, testes para a utilização de um sistema de monitorização à distância de doentes. Trata-se do Look4MyHealth Clinic e foi desenvolvido pela empresa ISA Intellicare, recém-formada spin-off da Intelligent Sensing Anywhere.  

A Unidade de Saúde Familiar Cela Saúde, do Centro de Saúde de Celas, em Coimbra deverá começar a testar, já em Março, testes para a utilização de um sistema de monitorização à distância de doentes. O sistema em causa, denominado de Look4MyHealth Clinic, foi desenvolvido pela empresa ISA Intellicare, recém-formada spin-off da Intelligent Sensing Anywhere. Trata-se de uma tecnologia de vanguarda, desconhecida até agora nos cuidados de saúde primários portugueses. Caso vingue, a nova ferramenta poderá contribuir para uma vigilância certeira e economicamente viável de doentes com dificuldades acrescidas de movimento

Está prestes a ser testado na Unidade de Saúde Familiar (USF) Cela Saúde e chama-se Look4MyHealth Clinic. A aplicação a experimentar naquele serviço de saúde coimbrão permite que os pacientes efectuem medições fundamentais no domicílio, com o envio posterior de todas as informações para a sua equipa de saúde. Na realidade, o sistema procede à medição de parâmetros como tensão arterial, frequência cardíaca, ciclos respiratórios, temperatura, entre outros, sem necessidade do utente se deslocar ao serviço de saúde com a regularidade habitual.

As medições são feitas de acordo com as necessidades de cada doente (várias vezes ao dia, ou à semana, por exemplo) e processadas localmente por um módulo de aquisição de dados. Depois, a informação é enviada para a unidade de saúde via internet, com a possibilidade de a transmissão ocorrer em tempo real ou quando situações de alarme são detectadas (de acordo com parâmetros previamente definidos). Os profissionais de saúde acedem à informação no seu computador, através de um portal electrónico. Caso sejam detectadas evoluções do estado de saúde do doente que exijam intervenção, o próprio sistema pode criar sinais de alerta, de modo a sinalizar, sem equívocos, os doentes que necessitam de intervenção imediata.

Para além de nítidos ganhos ao nível do conforto, esta solução poderá ajudar a diminuir a pressão diária sobre os estabelecimentos de saúde e poupar recursos (quer humanos, quer financeiros), com particular relevância para as despesas de transportes e para as visitas domiciliárias.

Fonte da ISA Intellicare já revelou à Agência Lusa que a companhia pretende reunir um grupo piloto acima das 100 unidades prestadoras de cuidados, para "efectivamente promover a redução dos encargos da Saúde em Portugal". A mesma fonte adiantou que vários membros do governo e inúmeros profissionais de saúde têm manifestado grande interesse na aplicação informática, acrescentando ainda que as poupanças obtidas com a implementação do sistema podem ascender a 20 milhões de euros por ano, uma vez atingido um número razoável de centros de saúde aderentes.

 

Cinco doentes vão testar benefícios

No futuro, se o desenvolvimento desta ferramenta for bem sucedido, os seus promotores esperam exportá-la para mercados internacionais. Mas, por enquanto, aguarda-se, sobretudo, pelos resultados da fase de testes na USF Cela Saúde, a fim de aferir o sucesso nacional da aplicação. O protocolo para a realização de ensaios já está assinado e de acordo com a coordenadora daquela USF, Emília Nina, é necessário observar com atenção o que se irá passar e fazer uma avaliação rigorosa dos proveitos trazidos pela nova tecnologia. À partida, parecem existir méritos inegáveis na mesma: "determinados utentes, pelas suas condições físicas e psicológicas, apresentam grandes dificuldades no acesso aos cuidados de saúde. Nestes casos, poderemos com esta tecnologia monitorizar doenças crónicas, através da instalação na casa dos doentes de aparelhos que nos permitem fazer medição de parâmetros vitais. Se estivermos perante, por exemplo, um doente hipertenso e verificarmos por via do sistema que ele apresenta picos hipertensivos, podemos actuar antecipadamente".

Para a fase de testes, a USF Cela Saúde criou uma equipa multidisciplinar (constituída por um médico, um enfermeiro e um administrativo), que será responsável pela monitorização dos cinco doentes seleccionados para um acompanhamento experimental. No início, os candidatos escolhidos terão de possuir internet no domicílio, para a transmissão de dados. Todavia, este é um requisito que, segundo Emília Nina, pode ser contornado: "uma vez que a maioria dos nossos utentes idosos não possui acesso à internet em casa, estamos a estudar a hipótese dos dados serem enviados por intermédio de telefone".

A coordenadora reforça que esta é apenas uma etapa experimental, durante a qual é importante gerir o processo em conformidade com a evolução da própria tecnologia e dos seus ganhos: "faremos reuniões periodicamente, para dar conta de como progride o projecto. Se vier a comprovar-se o interesse, então teremos de passar à aplicabilidade prática do sistema, em doentes eleitos como preferenciais. Esta tecnologia não pode abarcar toda a população, o que significa que serão adoptados critérios específicos para integrar os utentes no projecto". A equipa da Cela Saúde espera, também, para ver se o uso deste sistema terá consequências benéficas ao nível financeiro, nomeadamente pela redução de deslocações ao domicílio. "Pensamos que assim será, mas só a fase experimental do projecto nos trará certezas", acrescenta Emília Nina.

 

Equipa continua à espera do equipamento

Na USF Cela Saúde, inaugurada no final de 2009, existe um grande "espírito de pertença" e os profissionais "identificam-se perfeitamente" com o projecto da unidade de saúde, apesar do pouco tempo decorrido e das dificuldades registadas ao nível de instalações e de equipamentos.

A equipa ocupa os dois pisos do Bloco A do Centro de Saúde de Celas, um edifício muito antigo, destinado inicialmente a ser uma clínica. As divisões são pequenas e a segurança deixa muito a desejar. Na altura em que o imóvel foi construído, não se dava tanta ênfase a essas questões, explica a coordenadora, Emília Fonseca Nina, sobretudo preocupada com os acessos, demasiado exíguos e que, em caso de emergência, podem constituir um problema.

 

Dificuldades não impediram a equipa de avançar

O velho edifício ressente-se. E, por isso, enquanto a equipa trabalha, todos os dias há algo a necessitar de arranjo: ora surgem infiltrações de água no tecto, ora é uma porta que fica danificada, um cano que rebenta, o quadro eléctrico que vai abaixo quando se liga o aquecimento...

Mas, apesar dos constrangimentos inerentes às instalações, a equipa decidiu avançar. "Já estávamos há demasiado tempo à espera e o que nos importava sobretudo era trabalhar de acordo com um novo modelo organizacional", explica a médica.

Falta agora chegar o resto do material. Nomeadamente, médico, informático e a instalação da central telefónica. 

 

Regresso aos "tempos antigos"...de entreajuda e solidariedade

Desde há cerca de um ano que existe o projecto de transferir as unidades funcionais do CS de Celas para as instalações das consultas externas do Hospital Pediátrico de Coimbra. Com essa perspectiva em mente, e apesar do processo se atrasar, nem se justifica uma intervenção profunda no velho edifício. Por esse motivo, apesar de algumas inovações introduzidas em termos do melhoramento do espaço, a energia da equipa é dirigida para os aspectos de organização da USF. "Como equipa que somos, trabalhamos em conjunto para ultrapassar os obstáculos. Estes são, normalmente, de natureza externa, mas até parece que voltámos aos tempos antigos de entreajuda e solidariedade entre todos e é dessa forma que as coisas andam para a frente...".

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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