Resposta da Saúde foi imediata e excepcional
DATA
05/03/2010 09:18:30
AUTOR
Jornal Médico
Resposta da Saúde foi imediata e excepcional

Equipas dos cuidados de saúde primários continuam no terreno a dar apoio aos desalojados, enquanto outras reforçam a resposta dos centros de saúde, sobretudo das zonas mais fustigadas pela intempérie

Depois do temporal que assolou a Madeira e que provocou várias dezenas de vítimas e desaparecidos, a prioridade das autoridades centrou-se nas estruturas de apoio à população. Entre elas, naturalmente, as de prestação de cuidados de saúde. Os médicos responderam de imediato ao apelo do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM) para se dirigirem ao Hospital do Funchal, onde foram centralizados os serviços de emergência. À hora do fecho desta edição, equipas dos cuidados de saúde primários continuavam no terreno a dar apoio aos desalojados, enquanto outras reforçavam a resposta dos centros de saúde, sobretudo das zonas mais fustigadas pela intempérie, como Serra d´Água e Curral das Freiras, que estiveram isoladas durante vários dias

De acordo com Miguel Ferreira, director clínico da SESARAM, "todos os colegas responderam ao apelo de virem para o hospital". As equipas de enfermagem foram reforçadas e "o pessoal de todos os sectores deu um apoio excepcional para uma eventualidade de socorro".

A activação do plano de emergência de catástrofe foi efectuada durante a manhã de 20 de Fevereiro. O primeiro ferido chegou pouco depois das 11 horas. Cerca das 14 horas, tinham sido mobilizados todos os profissionais de saúde, quer no hospital, quer nos centros de saúde, também de prevenção, tanto mais que, dada a dificuldade de comunicação com outros pontos da ilha, o SESARAM equacionou a possibilidade de abrir postos de socorro noutras zonas se houvesse dificuldades de acesso ao hospital, como se chegou a temer nas primeiras horas de sábado.

"A resposta foi muito boa" afirma Ana Nunes, directora clínica adjunta para a área dos CSP do SESARAM. "A direcção clínica manteve os médicos dos cuidados de saúde primários em alerta para reforçar os centros de saúde e a urgência, se necessário".

Alguns médicos deslocaram-se ao Serviço de Urgência do Hospital do Funchal que, entretanto, "já tinham resposta cabal para a situação, com médicos da carreira hospitalar".

Os CS que têm urgência (Ribeira Brava, Calheta, Porto Moniz, São Vicente, Santana, Machico, Porto Santo e Câmara de Lobos), "estiveram sempre em funcionamento, sem quebras, embora com alguns constrangimentos no sábado (20 de Fevereiro), aquando do envio de alguns doentes ao Hospital do Funchal, devido às acessibilidades".

Ainda de acordo com Ana Nunes, "o reforço e a inter-substituição foram garantidos pelo agrupamento de centros de saúde", não tendo sido necessário recorrer à colaboração de funcionários de outros ACES, "salvo o grupo de psicólogos, cuja presença está a ser reforçada nas localidades, consoante as prioridades".

 

Serra d´Água e Curral de Freiras ficaram isoladas

Além da Baixa do Funchal, o concelho de Ribeira Brava (ACES da Zona Oeste) foi uma das zonas mais fustigadas pela intempérie. Empresas de construção civil colaboraram com as equipas da Protecção Civil que estiveram no terreno a desobstruir as estradas para que o socorro chegasse mais cedo às populações isoladas. Estas equipas contaram ainda com o apoio das Forças Armadas e dos Serviços Florestais.

A povoação de Serra d´Água esteve isolada durante vários dias, uma vez que a estrada ficou destruída. Algumas pessoas foram evacuadas e outras saíram voluntariamente, para casa de familiares ou para os centros de realojamento. De acordo com o médico de família Luís Paulino, da delegação da APMCG na Madeira, o apoio à população só foi possível através da coordenação da ajuda entre a autarquia e os serviços de saúde de São Vicente, localizado a Norte, cujos acessos foram mais facilmente restabelecidos.

O Centro de Saúde de Serra d´Água, devido a tantas dificuldades, só voltaria a funcionar na terça-feira, dia 23 de Fevereiro.

O CS de Curral das Freiras, no concelho de Câmara de Lobos, também esteve fechado até quarta-feira, dia 24 de Fevereiro.

A situação dos cerca de quatro mil habitantes da freguesia foi uma das principais preocupações das autoridades. A freguesia ficou completamente isolada e, durante o dia de sábado (20 de Fevereiro), todos os contactos resultaram infrutíferos.

 

Dificuldades no acesso ao Centro de Saúde do Bom Jesus

De resto, os madeirenses puderam contar com os serviços de saúde locais. Mesmo o Centro de Saúde do Bom Jesus, localizado na Baixa do Funchal, retomou logo a sua actividade, apesar do acesso apenas ser possível, de automóvel, pela entrada norte do edifício.

De acordo com Marizela Costa, directora executiva do ACES do Funchal, todos os centros de saúde do agrupamento (Bom Jesus, Nazaré, São Roque, Monte e Santo António) estavam a trabalhar na segunda-feira (22 de Fevereiro).

O mesmo sucedeu nas restantes zonas da ilha (com excepção de Serra d´Agua, Curral de Frades e a Extensão da Tábua, na Ribeira Brava, onde existe somente uma unidade de fisiatria).

Todavia, os danos resultantes do aluvião e das inundações "infelizmente, são significativos", sendo necessárias "reparações urgentes", diz Ana Nunes.

No que se refere às comunicações, embora já esteja "praticamente reposta a rede informática", foram sentidas dificuldades em diversos pontos da ilha. "Sobretudo no Agrupamento da Zona Oeste e, pontualmente, no Agrupamento da Zona Leste (Caniço e Camacha)", de acordo com aquela responsável.

 

Equipas dos CSP desdobram-se no apoio aos desalojados

Passadas as primeiras horas de aflição, o director do serviço de Urgência do Hospital do Funchal, Pedro Ramos, bem como o presidente do conselho de administração da SESARAM, Almada Cardoso, agradeceram a todos os profissionais de saúde pelo "serviço notável à população madeirense, nomeadamente aos traumatizados e familiares".

No mesmo sentido, o secretário regional dos Assuntos Sociais, Jardim Ramos, destacou que só com "o elevado sentido de responsabilidade" dos profissionais "foi possível dar uma resposta eficaz" à população.

De acordo com Ana Nunes, as equipas dos centros de saúde (médicos, assistentes sociais, enfermeiros e outros profissionais), "têm reforçado o apoio na comunidade, deslocando-se aos locais onde se encontram os desalojados". Foi também criada uma "linha verde" para o "atendimento de pessoas deslocadas a precisar de cuidados, nos centros de saúde onde estão inscritas".

O apoio psiquiátrico e de psicologia "foi reforçado por toda a ilha, onde se faz sentir a sua necessidade, pelas equipas concelhias de saúde mental (médicos de família, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais), sob a coordenação do Departamento de Saúde Mental e da direcção clínica" do SESARAM.

Excepcionalmente, nas freguesias de Serra d´Água e Curral da Freiras, os centros de saúde estiveram abertos durante o último fim-de-semana. Esta decisão está directamente relacionada com o facto de serem duas das freguesias mais afectadas pelo temporal e onde, por isso, a população necessita de mais apoio social, psicológico e médico.

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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