Inovação em CSP: um passo seguro rumo ao futuro
DATA
10/04/2010 06:09:46
AUTOR
Jornal Médico
Inovação em CSP: um passo seguro rumo ao futuro

"Inovar será, talvez, um passo seguro rumo ao futuro", afirma o médico de família Alexandre Gouveia. "O conceito de inovar tem que ser incorporado no nosso dia-a-dia, não só como profissionais de saúde mas também como cidadãos"

"Inovar será, talvez, um passo seguro rumo ao futuro", afirma o médico de família Alexandre Gouveia. "O conceito de inovar tem que ser incorporado no nosso dia-a-dia, não só como profissionais de saúde mas também como cidadãos". Tanto mais que a inovação traduz, "um conceito de valor, baseado no conhecimento e na melhoria, intimamente ligado à sobrevivência". As reformas introduzidas nos sistemas de saúde de Portugal e Espanha mostram como os novos desafios conduzem à mudança, criando novas oportunidades, avanços e inovação

A inovação surge como uma necessidade nos cuidados de saúde primários. Em Portugal e noutros países, como Espanha, onde já foram implementadas várias reformas importantes. Como diz Josep Basora, presidente eleito da SemFYC (Sociedade Española de Medicina Familiar y Comunitária) e investigador do Instituto Catalão da Saúde, "é preciso motivar os médicos de família e desterrar a tristeza do dia-a-dia de alguns deles, dotando-os dos instrumentos necessários para tornar a sua prática mais ágil e efectiva".

Nos anos 80, uma primeira reforma no país vizinho conduziu à alteração do trabalho dos médicos de família, centrado no exercício individual e na vertente curativa, para um trabalho em equipa, de acordo com um modelo bio-psicossocial, focado nas necessidades do cidadão.

O desenho deste novo modelo revelou-se um processo de transição difícil, reconhece o médico. Entre outros motivos, porque as outras especialidades "olhavam-nos por cima do ombro"...

O perigo do desencanto destrutivo....

inovacao_em_csp_02.jpgHoje, o mapa político de Espanha integra 17 comunidades autónomas, cabendo a cada uma delas a gestão do sistema regional de saúde. Entre os pontos fortes do sistema, Josep Basora destaca o trabalho em equipa, a multidisciplinaridade, a promoção e prevenção da saúde, a intervenção no meio comunitário, a avaliação dos resultados em saúde e a reacreditação periódica dos profissionais.

Paulatinamente, o papel da Medicina Familiar na regulação do sistema e na gestão dos processos de doença dos cidadãos, com o correspondente impacto ao nível da efectividade, eficiência, equidade e satisfação dos utilizadores, foi sendo aceite e reconhecido pelas restantes especialidades.

Os cuidados de saúde primários oferecem, hoje, "maiores níveis de oferta, competência e capacidade de resolução dos problemas dos utentes".

O sistema revela, contudo, algumas debilidades. Persiste o seu "carácter hospitalocêntrico", que não favorece a coordenação entre os cuidados primários e secundários, e a MGF continua a ser olhada como "uma medicina de segundo nível". De acordo com Basora, "este aspecto, muito difícil de mudar, tem implicações na distribuição dos recursos financeiros e humanos".

A escassez de tempo nas consultas é outro dos problemas sentidos pelos médicos de família espanhóis, que também têm falta de mecanismos de desenvolvimento profissional, sistemas de acreditação dos centros de saúde e dos profissionais.

Para muitos deles, a ilusão da reforma foi substituída por um "sentimento de tristeza" e mesmo por um "desencanto destrutivo". Basora argumenta, no entanto, que "o problema não é a Medicina Familiar ou os Cuidados de Saúde Primários. A questão é que, durante todos estes anos, circulou-se a 16.000 bytes, quando eram precisos 3 megabytes".

Projecto AP21 deu um novo impulso aos CSP

Com o objectivo de dar um novo impulso à Medicina Familiar, em 2007 surgiu o Marco Estratégico para a Mejora de la Atención Primária en el Siglo XXI, também conhecido como Projecto AP 21. Com um horizonte estratégico de seis anos (2007-2012), o projecto visava "dar um novo impulso aos cuidados de saúde primários para que renovem a sua vocação e vontade de ser o motor do sistema de saúde e o gestor do cidadão".

Na sua elaboração participaram mais de 90 especialistas, propostos pelo Ministério da Saúde e Consumo, as comunidades autónomas, sociedades científicas (incluindo a SemFYC), bem como associações de pacientes e de utentes.

O projecto foi aprovado pela maioria dos partidos políticos, tanto nacionais como regionais. Cada comunidade autónoma definiu um plano de inovação para os CSP, baseado em 44 pontos estratégicos referentes à oferta de serviços, organização, gestão e avaliação de processos e indicadores.

Em 2010, surgiram os primeiros resultados do Projecto AP 21. Em termos da percentagem do orçamento da Saúde destinado aos CSP, que em 2006 se situava em 14,09%, pouco mudou, lamenta o presidente eleito da SemFYC, que defende um investimento da ordem dos 25%.

Outro dado que tem vindo a ser monitorizado pelas estruturas federadas da SemFYC, diz respeito às listas de utentes. Aquela estrutura defende que não deveriam ultrapassar os 1.500. No entanto, em 2007, 52,4% dos médicos de família tinham listas que oscilavam entre 1.500 e 2.000 inscritos. Com a agravante de que o consumo de consultas, a partir dos 65 anos de idade, é um dos mais elevados da Europa (cerca de 10 por ano).

Observatório da SemFYC monitoriza aplicação do Projecto AP21

O Projecto AP 21 possui uma série de indicadores que são avaliados pelo Ministério da Saúde espanhol. "Mas uma coisa são os indicadores fornecidos pela Administração e outra é a realidade percepcionada pelos médicos de família", argumenta Basora. Por outro lado, "a SemFYC tem que ter um papel motivador, desterrando a tristeza de alguns dos nossos profissionais". Com esse objectivo, criou um Observatório que visa, não só monitorizar a aplicação do Projecto AP 21, mas também conhecer a opinião dos médicos de família sobre os progressos e as inovações introduzidas na sua prática diária.

De acordo com duas sondagens, realizadas em 2008 e 2009 a mais de três mil médicos, 48% dos inquiridos reconhece que tem, hoje, mais possibilidades de pedir, directamente, exames complementares de diagnóstico. Aproximadamente 44% refere a capacidade de aceder, por via electrónica, à história clínica hospitalar dos doentes, 46% dispõe de receita electrónica e 16%, de telemedicina. 

Em 2009, 30% dos inquiridos era de opinião que os cuidados de saúde primários tinham registado uma evolução positiva, contra 20% em 2008. A percentagem daqueles que, o ano passado, consideravam que a situação piorou (40%), também decresceu relativamente a 2008 (57%).

Quanto às expectativas para os próximos anos, o optimismo não é propriamente o sentimento dominante, apesar de também aqui se registarem melhorias. Enquanto que, em 2008, 56% dos inquiridos manifestava a sua opinião de que a situação iria piorar, esse mesmo sentimento era referido por 48% dos inquiridos em 2009.

Josep Basora admite que esta análise poderá ser "um pouco subjectiva" mas para a SemFYC é importante, "na medida que revela a opinião dos nossos associados e nos poderá ajudar a dar a volta à situação".

Inovar...para sobreviver

 

Alexandre Gouveia, médico de família da UCSP de Viana do Castelo, da ULS do Alto Minho, e secretário-geral da APMCG, deu um sentido mais lato à sua reflexão sobre inovação em cuidados de saúde primários e o impacto no dia-a-dia dos médicos de família.

"Inovar será, talvez, um passo seguro rumo ao futuro", afirma. "Existem necessidades crescentes, decorrentes não só da evolução da sociedade, mas também da civilização. O conceito de inovar tem que ser incorporado no nosso dia-a-dia, não só como profissionais de saúde mas também como cidadãos". Tanto mais que a inovação traduz "um conceito de valor, baseado no conhecimento e na melhoria, intimamente ligado à sobrevivência".

Inovar "vai-nos permitir, por exemplo, conhecer os desafios de sustentabilidade que os sistemas de saúde do século XXI atravessam", uma realidade a que os médicos de família têm que se adaptar "para poderem continuar a produzir, pelo menos, os mesmos ganhos em saúde que até este momento". 

A pressão demográfica e financeira que se faz sentir nos serviços de saúde e na sociedade, resultante do envelhecimento da população, é um factor que também não pode ser escamoteado, assim como o aparecimento, "cada vez mais premente e avassalador" de patologias como a obesidade, a diabetes ou os problemas de saúde mental.

Por tudo isto, Alexandre Gouveia defende a necessidade de "reorientar os recursos numa lógica de prevenção, gestão da doença crónica e cuidados de proximidade, com os cidadãos e para os cidadãos".

Desafios impulsionam a mudança

Se as famílias e os cidadãos mudam, porque não haverão de mudar os médicos, adaptando-se às necessidades? Pergunta o médico, argumentando que são os desafios que impulsionam a mudança e o desejo de avançar, criando novas oportunidades.

A título de exemplo, Alexandre Gouveia refere as estratégias inovadoras que foram introduzidas no serviço nacional de saúde britânico em 2003 e que conduziram, entre outros, à criação de equipas de cuidados de saúde primários, numa lógica de interdisciplinaridade, assim como à delegação e divisão de tarefas entre todos os seus elementos, com o objectivo de atingir melhores resultados.

A "acessibilidade avançada" aos cuidados de saúde primários, com consultas não programadas destinadas a atender as situações de doença aguda, a introdução de ferramentas informáticas de apoio à decisão clínica e a implementação de um modelo de gestão dos doentes crónicos com grande ênfase no auto-controlo, foram passos igualmente importantes.

Outra estratégia referida por Alexandre Gouveia diz respeito ao estabelecimento de um novo paradigma na relação médico/doente, em que este surge, também, como "decisor", participando nas estratégias e planos de tratamento.  

Neste campo, diversos ensaios permitiram, também, comprovar que a realização de consultas a grupos de doentes diabéticos, por exemplo, pode conduzir a um melhor auto-controlo da doença, na medida em que potenciam a partilha de boas práticas entre os pacientes.

Ao nível das tecnologias da informação, Alexandre Gouveia refere que a comunicação por e-mail é cada vez mais frequente e as redes sociais têm cada vez mais força. "Este tema poderá parecer ainda afastado daquilo que é a realidade dos cuidados de saúde primários em Portugal mas, noutros países, já é um facto ao nível da prestação de cuidados de saúde e obviamente que os médicos devem integrar-se neste tipo de desenvolvimento".

"Não podemos desistir de continuar a introduzir inovação no nosso exercício diário", defende o médico. Até porque é através da inovação que se podem alcançar melhores resultados nos cuidados de saúde primários.

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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