Margarida França: “É complicado encontrar financiamento para investigação sobre Qualidade em Saúde”
DATA
23/04/2010 09:01:54
AUTOR
Jornal Médico
Margarida França: “É complicado encontrar financiamento para investigação sobre Qualidade em Saúde”

Recentemente eleita para a presidência da Sociedade Portuguesa para a Qualidade na Saúde, Margarida França acredita que a nova organização terá uma palavra importante a dizer no estudo e fomento de actividades centradas na melhoria da qualidade em estabelecimentos de saúde

Recentemente eleita para a presidência da Sociedade Portuguesa para a Qualidade na Saúde (SPQS), Margarida França acredita que a nova organização terá uma palavra importante a dizer no âmbito para o qual foi criada: o estudo e fomento de actividades centradas na melhoria da qualidade em estabelecimentos de saúde. Na entrevista que concedeu ao Médico de Família, a antiga directora do Instituto da Qualidade em Saúde explica como a sociedade - fundada no início de 2010 - se pretende afirmar pela positiva no panorama nacional, com a participação de gestores, administradores hospitalares, médicos e restantes profissionais do sector. O apoio à investigação nacional figura, também, nos objectivos de curto prazo

 

Médico de Família - O surgimento da SPQS foi precedido da criação do Departamento da Qualidade, dentro da DGS... É um sinal de que se retomam as preocupações com as matérias da qualidade, após o encerramento do IQS?

Aconteceu esta coincidência temporal e o momento para a fundação da SPQS resulta de uma oportunidade feliz, apenas isso. No passado, eu e o Dr. Luís Pisco conversámos muito sobre a necessidade de dar forma a uma sociedade científica portuguesa neste domínio. Até para que existisse, no nosso país, uma entidade capaz de comunicar com congéneres de outras nações, organizações centradas nos assuntos da qualidade. Queremos muito entrar nessa rede internacional de investigação e desenvolvimento da qualidade em Saúde. A ideia original (que remontava a 2000 ou 2001), acabou por ressurgir no último Verão e começámos a trabalhá-la com afinco.

 

A sociedade deseja fazer o seu primeiro congresso já este ano, em Novembro. Mas não fecha a porta a participações em eventos de terceiros, quando o tema em questão for a qualidade?

De modo nenhum. Estamos abertos a todos os convites e parcerias com organizações que desejem connosco trabalhar. A Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar, por exemplo, já nos contactou no sentido de juntarmos esforços para concretizar actividades conjuntas, quer ao nível formativo, quer ao nível de eventos.

De resto, terei de agendar para breve uma reunião directiva, já que nos surgiram diversos pedidos relacionados com actividades formativas.

Fomos já interpelados por hospitais que dizem sentir falta de formação nesta área e que nos convidam, até, para os ajudar a definir conteúdos programáticos. Neste momento, infelizmente, ainda não temos a capacidade organizativa que nos possibilite dar tal apoio, mas penso que em breve lá chegaremos.

 

A SPQS já delineou, certamente, as componentes em que deseja intervir com mais energia, para benefício do SNS...

Identificámos várias áreas prioritárias. Desde logo a inovação em Saúde e a divulgação de boas práticas, nacionais e internacionais. Depois, a formação e o apoio aos profissionais. Muitos dos meus alunos de mestrado e pós-graduação - alguns deles coordenadores de gabinetes da qualidade - questionam-me sobre como podem aprofundar conhecimentos neste campo e ter acesso a conteúdos eminentemente práticos, que obviamente não têm lugar em formações teóricas e amplas. Assim, o apoio e a formação prática dos profissionais é um dos planos que gostaríamos de desenvolver, quer através de ferramentas de Internet, quer por via de recursos humanos disponíveis para actividades de formação.


Neste momento, a SPQS conta com cerca de 40 associados... Qual é o objectivo ao nível das adesões?

No que respeita aos sócios individuais, pensamos num número bastante alargado. Até porque surgiram, nas 24 horas subsequentes à apresentação da sociedade, mais 20 ou 30 inscrições. Contudo, não nos podemos esquecer dos associados institucionais, que nos dão força e possuem uma importante capacidade financeira. Falamos aqui de grupos privados da Saúde ou de instituições do sector social, por exemplo. Pretendemos lançar uma campanha junto de estabelecimentos de saúde, através da qual se irá apelar a unidades de saúde familiar e a hospitais. Esperamos que eles venham ter connosco, embora para que tal aconteça será necessário que tenhamos serviços para oferecer, um portfólio interessante e uma atitude pró-activa, como é evidente.

 

Para o acto solene de apresentação da SPQS, convidaram o presidente da Sociedad Española de Calidad Asistencial (SECA), Pedro Parra. Olham para esta instituição como exemplo a replicar, de alguma forma, em Portugal?

A SECA está implantada em Espanha há muitos anos (desde o início da década de 80). Tem uma vasta experiência, largos pergaminhos na organização de congressos e um papel interessante na integração das várias sociedades existentes nas comunidades autónomas. Já discutimos, até, a possibilidade de realizarmos congressos em parceria com a SECA, aproveitando os seus saberes. Mas não queremos ficar por aí, já que temos a facilidade de nos entender mutuamente, graças à proximidade linguística e cultural.

 

Há pouca investigação em Portugal (já concluída ou em curso) sobre qualidade em Saúde... Como pretendem alterar este cenário? Será fácil obter apoios financeiros?

Existem, de facto, poucas iniciativas nesta área. Alguma coisa tem sido desenvolvida na Escola Nacional de Saúde Pública, assim como na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. O nosso propósito é dialogar com todas as instituições do ensino superior que, neste momento, estão a desenvolver cursos de Qualidade na Saúde, ou que possuem mestrados e pós-graduações sobre Gestão da Qualidade (formações que englobam, habitualmente, um módulo de Qualidade na Saúde). Estas entidades poderão tornar-se nossas associadas e será sempre possível encontrar interessantes sinergias, úteis para todas as partes.

 

Encontrar financiamento para suportar projectos de investigação é tarefa complicada?

Todos sabemos que, hoje, é complicado encontrar financiamento para investigação sobre Qualidade em Saúde. No entanto, realço a circunstância de, no ano passado, a União Europeia ter financiado alguns projectos, infelizmente numa altura em que a sociedade ainda não estava formada. Assim, temos de permanecer bastante atentos a todos os fundos comunitários canalizados para a investigação, prepararmo-nos atempadamente e saber concorrer a estas linhas de financiamento. Deveremos ser capazes de mostrar aos nossos associados como poderão seguir esta via, além da própria sociedade ter a obrigação de concorrer em parceria com investigadores nacionais. Isto porque, nestes meandros europeus, quando os projectos contam com o apoio de uma sociedade científica oferecem sempre uma maior segurança e credibilidade. Será desejável, portanto, que apresentemos projectos em consórcio com equipas de investigação ou escolas.

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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