Josep Basora: médicos querem que SemFYC seja mais do que uma sociedade científica
DATA
23/04/2010 09:08:08
AUTOR
Jornal Médico
Josep Basora: médicos querem que SemFYC seja mais do que uma sociedade científica

Depois da constituição da Plataforma Diez Minutos, a SemFYC pretende criar a Casa de la Atención Primária, que representará, não apenas os médicos de família, mas todos os profissionais que, com eles, trabalham nos centros de saúde

Na vizinha Espanha, os médicos de família querem que a Sociedade Espanhola de Medicina de Família e Comunidade (SemFYC) seja mais do que uma associação científica, revelou ao nosso jornal o novo presidente da instituição, Josep Basora. Depois da constituição da Plataforma Diez Minutos, a SemFYC pretende criar a Casa de la Atención Primária, que representará, não apenas os médicos de família, mas todos os profissionais que, com eles, trabalham nos centros de saúde. O objectivo, de acordo com Josep Basora é "avançarmos juntos no sentido de uma melhoria laboral e também assistencial"nos cuidados de saúde primários

 

Jornal Médico de Família - Acaba de ser eleito presidente da SemFYC. Quais são as prioridades do seu programa?

Josep Basora - As minhas propostas visam, essencialmente, melhorar a prática assistencial dos médicos de família espanhóis, retirando da consulta tudo o que não é importante para a actividade clínica.

Em Espanha, a carga burocrática que se faz sentir sobre a Medicina Familiar é muito significativa. O que pretendemos é ganhar tempo para aquilo que constitui o cerne da nossa profissão: a prestação de assistência médica. Nesse sentido, propomos várias medidas que visam introduzir mudanças na organização dos centros de saúde e na carga horária dos médicos de família, com o objectivo de permitir a conciliação da vida profissional com a vida familiar.

No nosso programa, dedicamos também muito espaço à necessidade de realizar programas de cuidados específicos para os doentes crónicos, na perspectiva da Medicina Familiar.

Por outro lado, consideramos que é essencial desenvolver um amplo programa de investigação nos cuidados de saúde primários, através da criação de uma agência de investigação, de âmbito nacional, com capacidade e dimensão para obter financiamento da União Europeia. Consideramos igualmente necessário que as revistas científicas espanholas tenham o máximo impacto e importância ao nível da especialidade.

 

Afirmou, há dias, numa intervenção sobre "Inovação em cuidados de saúde primários", que os médicos de família espanhóis se sentem maltratados. O que fazer?

 A SemFYC é uma associação científica muito forte. Mas os nossos associados pedem que sejamos mais do que uma sociedade científica e nos ocupemos também dos aspectos laborais. Essa questão, que caberia mais aos sindicatos, também está a ser tratada pela SemFYC, com o objectivo de melhorar as condições de trabalho dos profissionais.

 

Já existe a Plataforma Diez Minutos, que exige, pelo menos, dez minutos de consulta com cada utente...

Pretendemos ainda criar a Casa de la Atención Primária, que representará não só os médicos de família, mas também todos os outros profissionais que trabalham connosco nos cuidados de saúde primários, para podermos avançar juntos no sentido de uma melhoria laboral e também assistencial.

 

A Ministra da Saúde e Política Social, Trinidad Jiménez, pretende diminuir a despesa do serviço nacional de saúde em milhares de milhões de euros. De que forma esta contenção de custos poderá afectar os cuidados de saúde primários em Espanha?

Estamos, neste momento, a elaborar um documento sobre a sustentabilidade do sistema de saúde. É preciso contestar os cortes anunciados com argumentos válidos.

Pensamos que quando o que está em jogo é a sustentabilidade do sistema, o Ministério da Saúde deveria apostar mais na Medicina Familiar, aumentando o financiamento dos cuidados de saúde primários. Está comprovado, internacionalmente, que essa é a medida mais eficiente para aumentar a efectividade do sistema de saúde.

O caminho correcto não passa pela aposta no tecnicismo e na tecnologia de ponta, mas sim nos cuidados de saúde primários, que é onde pode ser resolvida a maioria dos problemas de saúde dos cidadãos.

Receamos, naturalmente, que os cortes anunciados por Trinidad Jiménez possam afectar as carreiras profissionais dos nossos associados, no que diz respeito, por exemplo, às remunerações. Por outro lado, consideramos que os cortes orçamentais deveriam recair sobre o que não é essencial para os cuidados ao cidadão.

 

O Ministério anunciou igualmente a sua intenção de introduzir taxas moderadoras. O que pensa sobre essa medida?

Quando ouvimos falar nisso, argumentamos com a experiência dos nossos colegas portugueses. Essa medida não funciona, até porque, no momento de aplicar uma taxa, são introduzidas muitas excepções.

Por outro lado, receamos que o aparecimento de taxas moderadoras faça com que aquelas pessoas que têm mais problemas de saúde e são mais débeis financeiramente, passem a ter menos acesso a um sistema que, até agora, tem sido universal e equitativo.

Outra grande questão é a de que já existe uma taxa em Espanha, referente à aquisição de medicamentos. Consideramos que é pouco justa e que deveria ser revista.

 

O que propõem?

Os pensionistas, por exemplo, não pagam nada pelos medicamentos. Os adultos activos, com doenças crónicas, têm também uma redução importante. Pensamos que a comparticipação deveria ter em consideração a capacidade económica de cada indivíduo. Repare-se que há muitos reformados que recebem boas pensões...

Num país com cerca de 4 milhões de desempregados, pensamos que essas taxas deveriam ser revistas, tornando-as mais equitativas.

 

Espanha tem 17 comunidades autónomas. A Ministra da Saúde referiu recentemente a necessidade de tornar as carteiras de serviços mais homogéneas. Concorda?

Não estamos a favor de limitar a carteira de serviços em Espanha, na medida em que isso é restritivo. Pelo contrário, defendemos que o que é necessário é nivelar "por cima" e não "por baixo". Quando numa comunidade autónoma se introduz determinada prática e se verifica que é benéfica para a população, defendemos que essa prática e conhecimento devem ser transmitidos às restantes regiões.

O facto de Espanha possuir 17 comunidades representa um campo de inovação tremendamente importante, que pode provocar uma mudança substancial nos cuidados de saúde primários.

 

A Catalunha sempre esteve no topo da inovação. Sendo catalão, certamente que os médicos de família vão estar muito atentos às suas propostas nesta área...

Trabalho na unidade de investigação do Instituto Catalão da Saúde, no desenvolvimento de projectos europeus e é um facto de que a Catalunha é uma das comunidades autónomas de Espanha mais avançadas em termos de inovação. Mas também regista problemas importantes, como todas as demais...

Como presidente da SemFYC e, além disso, catalão, é um trabalho do qual me sinto orgulhoso. Nomeadamente, pela participação da SemFYC em todas essas inovações. Esperamos, agora, responder às expectativas que depositaram em nós.

 

Em Espanha, com a crise, aumentou a pressão sobre os cuidados de saúde primários?

Há análises de todos os géneros. Alguns especialistas referem o aumento das taxas de stress e de patologia mental mas isso não está comprovado.

O que verificamos é que diminuíram os pedidos de certificados de incapacidade temporária. As pessoas vão trabalhar, mesmo estando doentes, com receio de perder o posto de trabalho...Anteriormente, provavelmente, não o fariam...

 

A Espanha, que durante anos "exportou" médicos de família para o estrangeiro - incluindo Portugal - tem, neste momento, falta de médicos. O facto é que muitos deixaram o país, não só em busca de melhores retribuições, mas também de condições de trabalho mais favoráveis. Como se explica que, de uma situação excedentária, Espanha tenha passado, em poucos anos, a uma situação de défice?

A sua pergunta encerra várias questões. De facto, aquela "bolsa" de médicos que saíam das universidades e que parecia que não iria terminar nunca, esgotou-se em quatro ou cinco anos.

As universidades barraram o acesso, porque existia uma situação de excedente, e só agora o voltaram a abrir. É certo que com a aposentação dos mais velhos e a melhoria das condições retributivas, os médicos espanhóis deixaram de ir tanto para o estrangeiro, mas tudo isso é insuficiente.

Formar um médico de família demora dez anos. Por isso, neste momento, Espanha está a recrutar profissionais nos países do Leste e na América do Sul.

Assistimos, muitas vezes, à incorporação de profissionais de outros países que não têm os mesmos standards ou que fizeram a sua formação num contexto distinto. Como homologar esses títulos e essas especializações? É um repto que vamos ter que assimilar.

 

Pensam criar condições para chamar os médicos que estão a exercer em Portugal? É que nós, por cá, também estamos "nas lonas"...

Há seis anos, de acordo com dados veiculados pela comunicação social, estimava-se em dois mil os médicos espanhóis que estavam a trabalhar em Portugal. No 27º Encontro foram muitos os colegas que vieram cumprimentar-me...

Mas respondendo à sua pergunta... Quando um médico regressa ao país de origem, não lhe são reconhecidos os anos que trabalhou no estrangeiro, num sistema nacional de saúde distinto. Nem em termos de antiguidade, nem de carreira profissional. Esse é um factor que limita muito o regresso dos nossos profissionais. E obviamente que iremos trabalhar no sentido de mudar essa situação.

 

O seu mandato teve início no passado  dia 1 de Abril. Em Outubro vai ter lugar, em Málaga, a 16ª Conferência da WONCA Europa... Duas décadas depois de Barcelona...Como se sente?

De facto, o primeiro congresso da Wonca Europa teve lugar, em Barcelona, há 20 anos. Duas décadas depois, repete-se em Málaga. Queremos que a Medicina Familiar espanhola -  e também a portuguesa - encontrem, em Málaga, o espaço perfeito para mostrar à Europa e ao mundo o seu trabalho. Espanha e Portugal têm uma visão muito semelhante sobre o sistema nacional de saúde, no que diz respeito à sua universalidade, acessibilidade e bem-estar.

Estamos também, com a APMCG, na Confederação Ibero-Americana de Medicina Familiar, onde partilhamos a responsabilidade de transmitir, aos colegas da América Latina, o que de melhor fazemos.

Partilhamos muito conhecimento e também uma grande amizade. Nesse sentido, somos sociedades irmãs.

 

Qual é a sua opinião sobre a reforma dos cuidados de saúde, em curso no nosso país?

Vejo a reforma portuguesa como uma oportunidade!... Uma grande oportunidade que estamos a seguir com muito interesse. Até para, como vizinhos que somos, incorporarmos no nosso sistema tudo o que for possível.

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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