Médicos e enfermeiros brasileiros descobrem reforma portuguesa
DATA
06/05/2010 10:50:18
AUTOR
Jornal Médico
Médicos e enfermeiros brasileiros descobrem reforma portuguesa

Um grupo de seis profissionais de saúde brasileiro esteve recentemente em Portugal...

Um grupo de seis profissionais de saúde brasileiros (quase todos integrados na Estratégia de Saúde da Família, implementada pelo governo de Lula da Silva) esteve recentemente em Portugal, com o objectivo de conhecer de perto a realidade nacional associada aos cuidados de saúde primários e cuidados continuados, a reforma do sector e o quotidiano dos colegas lusos. No final da visita, o balanço revelou-se positivo e na bagagem seguiram boas impressões sobre a autonomia das equipas de saúde portuguesas e a boa qualidade das instalações

 

À semelhança do que aconteceu há um ano atrás, um grupo de médicos e enfermeiros brasileiros realizaram uma visita técnica a Portugal, com o objectivo de conhecerem a realidade dos CSP portugueses. A oportunidade de conhecer uma nova realidade, foi o prémio que os visitantes receberam por apresentações em forma de comunicação oral, conto, poster, projecto em vídeo ou fotográfico, exibidas no 10º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade ou na I Mostra de Experiências de Enfermagem em Saúde da Família, a partir de um total de trabalhos que superou as três mil propostas submetidas a concurso. O colectivo de profissionais de saúde foi ainda acompanhado por Elisabeth Wartchow, directora substituta do Departamento de Atenção Básica (DAB) do Ministério da Saúde brasileiro e responsável pela Coordenação de Acompanhamento e Avaliação da Atenção Básica no mesmo DAB.

Durante vários dias, os técnicos de saúde brasileiros tiveram a oportunidade de passar pelas Unidades de Saúde Familiar (USF) Tornada e Marginal, bem como pela Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) Abraçar Queluz, sediada em Massamá.

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A visita à UCC Abraçar Queluz permitiu aos médicos e enfermeiros brasileiros perceberem como funciona uma equipa enraizada na comunidade, interligada com múltiplas instituições locais 

 

Ouve ainda tempo para uma visita ao Agrupamento de Centros de Saúde da Grande Lisboa I - Lisboa Norte (Sete Rios) e para contactos com responsáveis da ARSLVT e das unidades de missão para os cuidados continuados e integrados e para os cuidados primários.

 

Instalações portuguesas merecem elogios

 

Segundo Elisabeth Wartchow, o aspecto que mais captou a atenção dos profissionais brasileiros foi a qualidade das instalações visitadas: "no Brasil, a infra-estrutura não é tão boa como a que encontrámos aqui em Portugal, embora o número e a qualidade das equipas de saúde tenha vindo a aumentar entre nós. A qualidade das instalações é uma componente muito importante de valorização da equipa. Quando as pessoas trabalham num local bonito e organizado, sentem-se mais valorizadas e confiantes, mais dispostas a trabalhar nos CSP".

Mais ainda, a dirigente do DAB considera que "uma estrutura qualificada e acesso às principais tecnologias são fundamentais para que os profissionais possam desenvolver um trabalho de qualidade, com repercussões positivas no imaginário das pessoas". No Brasil, muitas das equipas de saúde trabalham em "instalações precárias, em casas alugadas e adaptadas, por vezes em mau estado de conservação. Trata-se de um factor que acaba por influir negativamente na apreciação dos utentes", conclui Elisabeth Wartchow.    

A responsável do Ministério de Saúde brasileiro ficou também surpreendida com a dimensão do problema da falta de médicos nos centros de saúde portugueses. Uma dificuldade também sentida no Brasil, onde a carência de médicos disponíveis para trabalhar nos CSP tem prejudicado o alargamento da PSF: "tenho vindo a acompanhar a evolução dos CSP em Portugal e imaginava que a formação de profissionais para esta área fosse hoje maior do que realmente é, permitindo superar as dificuldades", nomeadamente, a da falta de recursos humanos.

O Brasil iniciou, como Portugal, uma reforma dos CSP na última década e meia (as primeiras equipas de Saúde da Família nasceram em 1994), com um redobrado esforço e investimento por parte das autoridades estaduais e municipais a partir de 2003. É, aliás, a preponderância dos poderes locais na gestão dos CSP que parece estorvar uma evolução mais acelerada da PSF, como refere Elisabeth Wartchow: "em Portugal existe uma estratégia e uma condução centralizadas. Já no Brasil, assistimos a uma grande autonomia das unidades estaduais e municipais".

 

Autonomia lusa seria bem-vinda em algumas partes do Brasil

 

Anderson Alarcão, médico de família na Cidade de Goiás, mostrou-se especialmente agradado, na sua vinda a Portugal, com a organização dos serviços, que na sua perspectiva surge em absoluto contraste com a realidade brasileira: "venho da região central do Brasil, onde o pensamento dos profissionais relativamente à organização dos cuidados é de natureza bem diferente. Infelizmente, verifico aqui o quanto estamos atrasados" nesta área. Para o médico de Goiás, a maioria dos médicos naquele estado "não apresenta um compromisso para com a população que serve, mas antes consigo próprio. Muitos deles, mal chegam à unidade já estão a olhar para o relógio e a pensar na hora de sair". Anderson Alarcão sublinha ainda a pouca visão de muitos gestores locais dos municípios e o facto de toda a estratégia de saúde ser delineada e controlada pelos municípios: "diria que os profissionais de saúde são pouco mais do que meros espectadores".

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Em Massamá, a comitiva cruzou-se com o coordenador da USF Mactamã, António Frazão, no momento em que este acompanhava uma das suas utentes

 

Já César Titton, médico de Curitiba e vencedor do I Concurso de Contos Saúde da Família (instituído no âmbito do 10º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade) acredita que, em conjunto com os restantes colegas, leva de Portugal ideias frescas para a sua prática clínica diária. "Da mesma forma que algumas coisas funcionaram bem aqui e podem ser exportadas para o Brasil, outras soluções testadas lá e que deram bons resultados poderão ser úteis para os colegas portugueses", defende o médico.

Titton confessa que quase todos sentiram "uma enorme vontade de trabalhar nos locais visitados, de fazer parte daquelas equipas. Vimos ambientes nos quais as pessoas se sentiam satisfeitas e motivadas. Os fundamentos desta reforma (que passam por deixar a cargo das equipas a responsabilidade de se escolherem, assim como a capacidade de gestão dos seus espaços e da organização do trabalho) oferecem uma maneabilidade desconhecida no Brasil. Entre nós, essa autonomia é travada a um nível municipal".   

 

Sistemas de informação criticados em Portugal seriam uma bênção em Terras de Vera Cruz

 

Em grande parte dos centos de saúde portugueses, os sistemas de informação (SI) são fonte de frustração e desagrado dos profissionais. Todavia, César Titton destaca o facto destes SI representarem uma ferramenta que, pese embora as suas limitações, muito útil seria nos CSP brasileiros, onde se encontram apenas suportes tecnológicos pontuais: "o meu município é um caso de excepção no Brasil, já que tem computadores na unidade de saúde, algo que não acontece na generalidade dos locais. Apesar de termos uma opção informática, esta solução não se compara com o SAM e com as outras alternativas que os colegas portugueses utilizam no dia-a-dia.

 

Importante manter partilha luso-brasileira de experiências

 

Conservar as ligações entre Portugal e o Brasil, no âmbito da troca de informações, da avaliação dos CSP e desenvolvimento técnico dos respectivos profissionais, é uma tarefa que deve ser acarinhada pelos dois países, defende Elisabeth Wartchow, para quem é importante manter e ampliar este tipo de intercâmbio: "serei, daqui em diante, uma das principais defensoras destas iniciativas. Não só ao nível de visitas curtas, mas também através da convivência das diferentes classes profissionais através de estágios. Temos de aproveitar a nossa proximidade do ponto de vista da língua e da cultura. Para os profissionais de saúde portugueses é também uma prática enriquecedora, já que terão oportunidade de perceber como nós, apesar de todas as dificuldades e das instalações precárias, somos capazes de desenvolver cuidados de qualidade, com impacto positivo na saúde da população".

Luís Pisco, após reunião com este grupo de médicos e enfermeiros brasileiros, manifestou ao nosso jornal o seu total apoio a todos os projectos que visem promover o intercâmbio entre actores de diferentes sistemas de saúde: "todos somos capazes de fazer coisas bem, de ser competentes em múltiplas tarefas. O que significa que nos podemos inspirar uns nos outros, neste caso naquilo que foi conseguido em Portugal e no Brasil. Colocar os profissionais e os dirigentes dos dois países a falar uns com os outros, a identificar boas práticas, será sempre um processo benéfico".

O coordenador da Missão para os Cuidados de Saúde Primários relembra que os contactos entre os dois países - no que respeita às experiências em CSP - têm sido irregulares ao longo do tempo. Ainda assim, confia que no futuro a situação conhecerá novos contornos: "como é sabido, foi assinado um protocolo entre os dois Ministérios da Saúde e as duas associações nacionais de médicos de família, facto que permitirá intensificar as relações".

Luís Pisco está convicto de que os profissionais dos dois países só terão a beneficiar com um maior conhecimento do que se passa, ao nível dos CSP, nos dois lados do Atlântico: "na área da intervenção comunitária, o Brasil faz um excelente trabalho e pode-nos dar pistas muito interessantes. Por outro lado, nós detemos infra-estruturas e programas informáticos que os maravilharam e que lhe podem servir de matriz. Estamos, portanto, face um benefício mútuo".

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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