"Hoje, as universidades só têm meios cursos de Medicina"
DATA
07/05/2010 06:46:33
AUTOR
Jornal Médico
"Hoje, as universidades só têm meios cursos de Medicina"

Até 2020, as faculdades de Medicina portuguesas vão formar cerca de 22.500 novos médico...

Até 2020, as faculdades de Medicina portuguesas vão formar cerca de 22.500 novos médicos. Mas a capacidade formativa do Serviço Nacional de Saúde, em termos de internatos de especialidade, andará à volta dos 14.500. Neste cenário, cerca de 8 mil médicos não terão hipótese de fazer o internato da especialidade. Na opinião do Prof. António Sousa Pereira, presidente do conselho directivo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, esta realidade tem que ser discutida entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e o Ministério da Saúde. Em Portugal, "a Universidade tem estado, tradicionalmente, afastada da pós-graduação médica, mas agora está-se a criar uma realidade nova e penso que as escolas médicas irão ter um papel importante a desempenhar", defende. Aliás, na sua perspectiva, o problema de recursos humanos que actualmente a MGF enfrenta, deriva de uma enorme falta de planeamento a médio e longo prazo, situação que importa acautelar no futuro

 

Jornal Médico de Família - Qual a importância que atribui à realização do IV Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar das Faculdades de Medicina?

Prof. Doutor  António Sousa Pereira - A Medicina Geral e Familiar foi, durante muitos anos, o parente pobre do ensino médico. Este estava muito centrado no hospital e na enfermaria. Penso que, cada vez mais, temos que evoluir para sistemas que assentam na Medicina Geral e Familiar como sendo a peça fundamental que estrutura um serviço de saúde. É importante começar a incutir estas noções nos estudantes desde os primeiros anos do curso, pois não imagino um sistema de saúde universal que não tenha, como peça estruturante e de base, os cuidados de saúde primários.

Como se processam os estágios dos alunos do ICBAS nos centros de saúde?

Realizámos um acordo muito alargado com a Administração Regional de Saúde do Norte, no sentido de todos os centros de saúde desta região colaborarem, potencialmente, no ensino da Medicina Geral e Familiar.

Neste momento, estamos a tentar criar uma rede de centros de saúde afiliados para onde enviar os nossos alunos, tanto na cidade como em ambiente rural. Realizámos, também, acordos com diversas câmaras municipais, que vêem a presença de estudantes nas suas regiões como uma mais-valia.

Tudo isso exige uma estrutura de coordenação que garanta a definição de um conjunto de objectivos pedagógicos, métodos de ensino e competências a atingir, através dessa vivência dos nossos alunos nos cuidados de saúde primários. Obriga, por outro lado, à realização de encontros periódicos entre os responsáveis pela formação nos centros de saúde e a equipa do departamento de Medicina Geral e Familiar do ICBAS. Num segundo nível, é importante juntar os representantes de todas as escolas médicas para trocar experiências, como aconteceu no IV Encontro Nacional de Medicina Geral e Familiar das Faculdades de Medicina, realizado recentemente no ICBAS.

Na conferência que proferiu sobre o curso de Medicina em Portugal: realidade actual e perspectiva futura, no âmbito do IV Encontro Nacional de MGF das Faculdades de Medicina, referiu-se à questão dos recursos humanos. Neste momento, existe uma situação de défice nos CSP mas, dentro de alguns anos, poderá haver excesso de médicos de família?

Creio que isso poderá acontecer em todas as áreas da Medicina. Mas isso depende do que se entender por excesso. Ou seja, haverá excesso de médicos se o país erguer uma barreira de tijolo, de vários metros de altura, para que ninguém consiga sair de cá. Mas se considerarmos que vivemos num mundo globalizado e que, hoje em dia, os médicos circulam livremente no mercado de trabalho - há países, inclusive na Europa, que são importadores crónicos de médicos - provavelmente essa questão não poderá ser pensada dessa forma. Repare: as escolas médicas não pertencem, nem ao Ministério da Saúde, nem à Ordem dos Médicos. Pertencem ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. A função da universidade, neste contexto, é formar médicos com qualidade e, na medida do possível, responder aos anseios dos jovens portugueses, sem estarmos preocupados se vão ter emprego no Serviço Nacional de Saúde, ou não.

Hoje em dia, o Reino Unido importa anualmente 25% dos médicos que entram no Serviço Nacional de Saúde inglês. Existe até um organismo cuja função é recrutar médicos estrangeiros para trabalharem em Inglaterra. O que eu pergunto é: com que direito podemos impedir os nossos jovens de irem trabalhar para o estrangeiro? A questão do excesso de médicos é, assim, relativa. Temos é que possuir mecanismos que garantam que continuam aptos para o desempenho de funções nessa área. Ora, isso conduz-nos à necessidade de organizar o sistema da formação pós-graduada em Portugal. Em Portugal, a Universidade tem estado, tradicionalmente, afastada da pós-graduação médica, mas agora está-se a criar uma realidade nova. Penso que as universidades irão ter aí um papel importante a desempenhar, em conjunto com outras organizações.

Nos primeiros meses deste ano, muitos médicos de família decidiram pedir a reforma antecipada. Esse facto poderá ter consequências ao nível da formação pós-graduada na Medicina Geral e Familiar?

Penso que sim. Foi adiantada a possibilidade de o Ministério recorrer a contratos com esses médicos para continuarem a garantir funções assistenciais. Mas uma coisa é a função assistencial e outra, a existência de condições para a formação dentro dos serviços. Para que um serviço de saúde tenha capacidade formativa, seja na Medicina Geral e Familiar ou ao nível de outra especialidade, é preciso que haja uma vida científica muito própria dentro das unidades de saúde, que não tem apenas a ver com a realização de consultas, mas com um ambiente de discussão interna e de comprometimento das pessoas com o projecto de formação.

Isso preocupa-me porque penso que, com estas reformas antecipadas, haverá serviços que vão perder a idoneidade enquanto locais de formação.

Defende, então, ao nível do ensino pós-graduado, uma maior aproximação entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino e o Ministério da Saúde?

Não era mau que falassem...

Estamos a "pagar" esse afastamento? E o que dizer da falta de planeamento?

Estamos a "pagar", de facto, pela enorme falta de planeamento a médio e longo prazo. A situação remonta ao final dos anos 80 quando fecharam, drasticamente, as entradas nas faculdades de Medicina. Isso paga-se...à distância.

Mas voltando à questão anterior, o que acontece actualmente é que temos uma relação muito estreita com as estruturas do Ministério da Saúde. No limite, quase podemos dizer que as universidades só têm meios cursos de Medicina. Os outros meios cursos estão nos hospitais.

Ao nível da pós-graduação terá que haver um diálogo muito estreito entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e o Ministério da Saúde, que tutela os hospitais, sem os quais não fazemos médicos.

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O ICBAS realizou um acordo muito alargado com a Administração Regional de Saúde do Norte, no sentido de todos os centros de saúde desta região colaborarem no ensino da Medicina Geral e Familiar 

 

Até 2020, as faculdades de Medicina portuguesas vão formar cerca de 22.500 novos médicos. Mas a capacidade formativa do Serviço Nacional de Saúde, andará à volta dos 14.500. Neste cenário, haverá cerca de 8 mil médicos não terão hipótese de fazer o internato da especialidade. Penso que faria todo o sentido discutir esta problemática sentando à mesma mesa os responsáveis de ambos os Ministérios. Levando sempre em linha de conta que, obviamente, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior não pode limitar-se apenas às pretensões do Ministério da Saúde. Tem que ouvir também os anseios da sociedade relativamente à formação médica. Aliás, o Ministério da Saúde não tem que empregar todos os médicos que se formam. O que temos todos que garantir é que, depois da universidade, vão ter a formação complementar de que necessitam para exercer, em Portugal ou noutros países do mundo.

Há quem considere que a sociedade portuguesa não perde nada em ter médicos "a mais"...

Eu também penso que não. Mas há quem considere que as faculdades de Medicina só deveriam admitir o número de médicos que o Serviço Nacional de Saúde for capaz de absorver. E nem mais um!

Essa é a visão corporativista?

Não partilho dessa visão.

Persiste a ideia de que em Portugal, as médias necessárias para entrar nos cursos de Medicina são das mais altas da Europa. É verdade?

Não. O que acontece é que se apresenta o problema de uma forma deturpada e sensacionalista. As médias foram de tal modo inflacionadas, que as pessoas da nossa geração, quando ouvem falar, hoje em dia, de médias de 18,5 ficam chocadas. É que, no nosso tempo, ninguém tirava 18,5. Os nossos professores do Secundário eram muito mais "unhas de fome" e não se alargavam por aí além nas notas. Criou-se o mito de que, em Portugal, a entrada no curso de Medicina é difícil, quando não é. Neste momento, é muito mais fácil do que em Espanha, por exemplo. Penso que o ambiente que se criou, através da enorme pressão que existe sobre os cursos de Medicina, não irá durar muitos anos. Desaparecerá quando se começar a constatar que têm uma saída equivalente à de outras licenciaturas.

Qual é a proporção, em Portugal, entre os alunos que entram em Medicina e aqueles que escolhem o curso como primeira opção?

É de 1 para 2,8.

E em Espanha?

A proporção é de 1 para 7.

Outro "mito" diz respeito à situação de muitos jovens portugueses que, ao não conseguirem entrar em Medicina no nosso país, optaram por ir estudar para o estrangeiro. O Ministério da Saúde chegou a ponderar a possibilidade de lhes oferecer condições para acabarem o curso em Portugal. Há a ideia de que a grande maioria não entrou nas faculdades portuguesas por uma questão de décimas... Será mesmo assim?

Esse assunto já foi debatido várias vezes. Admito que poderíamos ir buscar alguns estudantes, mas não todos, nem a maioria. Se aumentássemos os números clausus dos cursos de Medicina em Portugal, muitos jovens que foram estudar para o estrangeiro não seriam abrangidos porque têm médias muito baixas.

Persiste, na sociedade portuguesa, a ideia de que os médicos não só não têm problemas em arranjar emprego como são extremamente bem pagos. Essa ideia continua a corresponder à realidade?

Existe uma fantasia muito grande entre aquilo que as pessoas pensam que é o emprego médico e a realidade. Sendo certo que há uma geração de profissionais extremamente bem pagos, isso já não é verdade para os jovens internos e jovens especialistas. Mas as ideias pré-concebidas são as mais difíceis de desaparecer. Muitos vão atrás de uma miragem que já não existe.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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