Cuidados paliativos são uma responsabilidade de todos
DATA
27/09/2011 08:37:52
AUTOR
Jornal Médico
Cuidados paliativos são uma responsabilidade de todos

Em 1992, foi para o Canadá, onde acabou por ficar a exercer a especialidade de médico de família. Um dia, recebe a visita de um doente com doença terminal que lhe pede ajuda para morrer sem dores. Fica sem saber o que fazer. Decide, por isso, frequentar um curso de formação em cuidados paliativos.

 

 

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Em 1992, foi para o Canadá, onde acabou por ficar a exercer a especialidade de médico de família. Um dia, recebe a visita de um doente com doença terminal que lhe pede ajuda para morrer sem dores. Fica sem saber o que fazer. Decide, por isso, frequentar um curso de formação em cuidados paliativos. Poucos dias depois, telefona ao doente oferecendo-se para o ajudar. Encontrava-se à sua cabeceira, quando aquele morreu, rodeado da família. Não há que sofrer para além do que é absolutamente indispensável, defende o Prof. José Luís Pereira, um dos maiores especialistas mundiais em cuidados paliativos. No 16º Congresso Nacional de Medicina Familiar, na Madeira, teremos a oportunidade de o conhecer melhor…

 

Jornal Médico de Família –  Em 1992, foi trabalhar para o Canadá. Foi aí que ganhou interesse pela área dos cuidados paliativos?

Prof. José Luís Pereira – Em 1992 fui trabalhar para o Canadá, como médico de família, numa pequena aldeia. Gostei imenso daquele trabalho e aprendi que a medicina familiar ocupa um lugar muito importante no sistema de saúde. Antes disso, tinha trabalhado na África do Sul – onde tirei o curso de Medicina – numa área rural.
O meu interesse pelos cuidados paliativos começou no Canadá. Um dia, chegou à minha consulta um doente com cerca de 50 anos, com cancro de cólon. Disse-me que tinha muitas dores e não desejava sofrer tanto nos últimos meses de vida. Infelizmente, eu não tinha conhecimentos suficientes para o ajudar. Então, disse-lhe: “não posso aumentar a dose de morfina (que era muito pequena) porque há o risco de ficar dependente”. Obviamente, hoje sei que isso não acontece, pois a morfina é muito eficaz e segura mas, naquela altura, não tinha qualquer tipo de treino ou formação em cuidados paliativos.
Infelizmente, as faculdades de Medicina de todo o mundo, nunca tinham ensinado este tipo de competências aos estudantes de Medicina e ainda hoje muitas universidades continuam a proporcionar pouca – ou nenhuma – formação nessa área.
O paciente começou a chorar e agarrou a mão da esposa. Disse-me: “espero que, um dia, médicos como você estejam preparados para ajudar doentes como eu” e saiu do meu consultório.
Isto afectou-me muito. Senti-me triste e incompetente, com a sensação de que não só lhe tinha falhado mas também à minha profissão.
Recordei-me também do sofrimento do meu primeiro doente, na África do Sul, um imigrante português, com cancro da próstata. Também ele morreu no meio de muitas dores e sofrimento porque nós não sabíamos o que fazer.
Decidi aprender mais e, para isso inscrevi-me num curso de cuidados paliativos para médicos de família, com a duração de cinco dias, na Universidade MacMaster.
Aquele curso mudou a minha carreira e a vida daquele doente. Quando regressei, telefonei-lhe e perguntei-lhe se me poderia dar uma segunda oportunidade porque agora tinha aprendido como o tratar melhor. Aceitou. Cuidei dele durante os últimos três meses da sua vida e estava junto à sua cabeceira quando morreu. Confortável e serenamente, rodeado da família.
Isto fez-me compreender quanto os médicos, incluindo os médicos de família, podem fazer por estes pacientes, apenas com um pouco de treino. Decidi então especializar-me em cuidados paliativos, na Universidade de Alberta, em Edmonton, no Canadá.

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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