Aguarde, por favor,  na sala de expectativa...
DATA
27/09/2011 07:05:54
AUTOR
Jornal Médico
Aguarde, por favor, na sala de expectativa...

Nesta “fatia” do jornal que me é cedida, resolvo partilhar a experiência única de desfrutar de uns minutos na sala de espera de um Centro de Saúde, algures neste país. Passo a corrigir: mais do que uma experiência, trata-se de um exercício que considero ser muito enriquecedor para a formação médica

 

 

Nesta “fatia” do jornal que me é cedida, resolvo partilhar a experiência única de desfrutar de uns minutos na sala de espera de um Centro de Saúde, algures neste país. Passo a corrigir: mais do que uma experiência, trata-se de um exercício que considero ser muito enriquecedor para a formação médica. Não é doloroso, é gratuito e é de acesso fácil. Basta entrar numa unidade de saúde onde ninguém nos conhece, onde somos mais uma pessoa à espera da sua vez e não somos o “Doutor” ou a “Doutora”.
Situo-vos, então: decorre o mês de Junho e encontro-me numa unidade de saúde familiar de um meio entre o rural e o urbano. Algumas pessoas em pé aguardam o familiar que acabou de entrar na consulta, porém, a maioria (esperando consulta), encontra-se sentada, tal como eu.
Ao meu lado, estão três senhoras na casa dos 50-60 anos, visivelmente de origem humilde. Partilham dores, fazendo lembrar os miúdos que trocam cromos para as suas cadernetas. Uma refere lombalgias localizadas associadas a rigidez matinal,... tradução médica de “dores nos rins que me apanha isto tudo, logo ao sair da cama”. A outra senhora, com uma suposta pretensão de mostrar empatia (mas, claramente, a agarrar a oportunidade para ela própria apanhar a bola e ficar com a liberdade para se alongar nos seus próprios sintomas), revela a sua experiência pessoal: “Sei bem o que isso é... Isso só vai lá com injecções! Os comprimidos não fazem nada!...”. E embarca depois no seu avião de queixas: “Aliás, se há coisa que tenho feito é tomar comprimidos para esta dor horrível ao fundo da barriga, que não me aguento! Já fiz ecografia e não deu nada... A minha médica não quer pedir a TAC...”. E o discurso continua de forma fluida e ininterruptamente (perante o ar atento das outras duas pacientes), tecendo os comentários mais sui generis sobre a sua Médica de Família (MF). Bem... Desligo-me desta conversa com a segurança de que esta senhora está bastante “criativa” para quem tem uma dor hipogástrica horrível naquele momento.
Ao desvincular-me desta “frequência de rádio” (qual relato de futebol!), reparo numa jovem mulher que entra com ar ansioso na sala de espera. Dirige-se ao balcão administrativo e pede uma consulta de urgência com sua MF. Chama-se Rosa, pelo que ouço dizer e aparenta ter entre 30 e 35 anos. Tem um aspecto cuidado e harmonioso, a contrastar com o fácies que, de imediato, me transmite um caos interno. Senta-se de forma tensa, adivinhando os músculos contraídos que a afastam do encosto da cadeira. Guarda os documentos e, depois, espera a sua vez mirando a sua própria carteira com olhar fixo, sem qualquer curiosidade pelo meio envolvente. Somente retira os olhos do espaço que medeia entre a carteira e o chão quando ouve algum nome. Tal permite-me observá-la sem ter que desviar o meu olhar. Eu não diria que Rosa tem alguma dor orgânica. Suspeitaria mais de um sofrimento...
Os minutos passam... e as mãos de Rosa passeiam-se umas nas outras e nas alças da carteira. Eu, aqui no meu canto, passo a sustentar parte do peso gigante de cada segundo de espera vivido por Rosa. Será que falta muito para a chamarem?!...
Senti um enorme alívio quando o seu nome ecoa pela sala. Rosa levanta-se apressadamente até que se desvanece, com elegância, por detrás da porta divisória.
Suspiro... Hmmm... Está calor aqui dentro! Não há ar condicionado. Existem duas ventoinhas que apenas refrescam quem está de rosto colado às hélices. Ao menos… as janelas estão abertas... gera-se uma corrente de ar. Algo positivo nesta sala: janelas grandes, que deixam que os raios de luz solar quase nos bronzeiem enquanto se espera.
Começo a sentir-me desconfortável. Ajusto-me na cadeira, abano a camisa e desencosto-me um pouco. Num ápice e sem perceber como, volto a sintonizar-me no discurso da senhora com a dor hipogástrica. Ela partilha agora em alto e bom som “eu faço de tudo para obrar, pelo menos, dia sim, dia não. Eu é kiwis, laranjas, ameixas... Não bebo é muita água... porque não consigo. A água fora das refeições dá-me vómitos, sinto-me inchada...”. Dali a nada, esta mesma senhora (que vim a perceber que só tinha consulta programada para daqui a uma hora e meia), pôs-se a dissertar sobre os rituais envolvendo clisteres de limpeza. Opto por não partilhar... talvez noutra crónica (ou não!!).
Ufa... Está mesmo abafado aqui dentro. Até os dois irmãos com idades aparentes de 6 e 9 anos começam a ficar impacientes e a perguntar à mãe (esta já com ar entediado) se falta muito para a consulta. Na realidade, eles têm sido responsáveis pelo ruído de fundo que já vai preenchendo a sala há algum tempo. Agora que me desligo dos pensamentos sobre o que preocupa Rosa, é que tomei noção desse ruído. Esta sala é abafada... complicando o tempo de espera e tiranizando as mentes mais relaxadas. Falta aqui um espaço para as crianças. E uma televisão. Se não for pedir muito, um ar condicionado. Ah, e umas revistas novas, para além daquelas desfeitas e riscadas aleatoriamente pelos miúdos que por aqui têm passado.
Não sei se é do calor húmido que agora faz, mas a própria senhora administrativa já me parece nevrótica. Está um senhor de idade ao balcão que não entende qual é o cartão de utente do SNS. Será que é de mim ou a senhora administrativa está a fazer um descarado “ar de frete” ao bater ritmicamente com o anel da mão direita em cima do balcão enquanto aguarda que o senhor procure freneticamente o cartão pretendido?...
Bem... vou-me embora. Já estou cansado de ser um utente à espera de consulta. Levo daqui uma ideia principal: interessa mais como se espera do que quanto se espera. Isto porque talvez as pessoas não esperam... mas, isso sim, expectuam. Aqui existe a expectativa de alívio daquela dor lombar, a expectativa de fazer uma TAC, a expectativa de que as pessoas sejam rápidas, entre outras expectativas mais ocultas. Propunha, então, uma alteração do nome “sala de espera” para “sala de expectativa”. Eu próprio passei por lá... e não esperei por nada. Apenas criei expectativas. Expectativas essas, a levar para uma “sala de espera” no meu próprio local de trabalho...
Assim é a vida!

#sejamestrelas
Editorial | António Luz Pereira
#sejamestrelas

Ciclicamente as capas dos jornais são preenchidas com o número de novos médicos. Por instantes todos prestam atenção aos números. Sim, para muitos são apenas números. Para nós, são colegas que se decidiram pelo compromisso com os utentes nas mais diversas áreas. Por isso, queremos deixar a todos, mas especialmente aqueles que abraçaram este ano a melhor especialidade do Mundo uma mensagem: “Sejam Estrelas”.

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